terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Puta que pariu

Cacete. Tenho uma hora pra terminar esse roteiro do João. Da última vez que eu lhe falei pra esticar o prazo, ele quase me matou. Se eu atrasar dessa vez, cabeças vão rolar. Merda. Sou artista. Não nasci pra escrever esses roteiros. Nasci pra criar. Há alguns anos, eu tinha o sonho de escrever o livro, o filme, a peça de teatro. Ironia... não fiz porra nenhuma. Anos depois, fui parar no pornô, com garotas desfilando suas xoxotas pelo set de filmagem. Antes a coisa era diferente. As mulheres tinham pentelho lá embaixo, os filmes não eram tão pesados e todo mundo fodia com todo mundo. O pessoal no estúdio passava a mão na xana delas antes das filmagens e durante as filmagens. Nunca escrevi nada tão complicado como roteiro de putaria. Eram três frases, e uns gemidos. Tudo pra intensificar o negócio. E fazer meia dúzia de virjões tocar punheta na sala de casa, enquanto os pais dormem. Isso se chama sobrevivência. Tudo pra garantir a breja, o fumo e o ácido do final de semana.

Tempo depois, livrei-me do pornô. Fiquei em casa, cultivando o ócio e a preguiça. Li de tudo. Ouvi de tudo. Comi minha vizinha incontáveis vezes, de múltiplos modos. Até enjoei da buceta dela. Chupei-a de todo que é jeito. Comi de quatro, de ladinho, apoiado na mesa. Após gozar, bolava aquela trave e fumava. Chapado, queria uma breja pra rebater a foda. E pensar melhor. Artista. Porra nenhuma. Sou um bêbado filha da puta que tem medo de arrumar um emprego digno. Fico arranjando desculpas pro meu fracasso, pra minha derrota, pro meu desespero, pra minha angústia. Vou morrer sozinho. E pobre. No máximo meia-dúzia de putas irão entoar meu nome, no cortejo.

Ouço um barulho na porta. Vou até lá, abro e dou de cara com uma garota:

- E aí? – diz ela.

- Opa – falo.

- Ouvi um som vindo do teu apartamento.

Era de minha máquina de escrever.

- Pois é. Eu estava escrevendo.

Ficamos nos olhando por alguns instantes. Sugeri:

- Quer beber uma breja?

- Sei lá – sussurrou, fazendo-se de difícil. – Estou de boa, acho.

- Certeza?

Ela entrou.

Abri a minha. Dei uma bebericada. Acendi um cigarro. Quando estava na segunda tragada, perguntei se ela se importava com a fumaça. “Porra nenhuma”, disse ela. “De boa”.

Levantei-me e fui colocar um som.

- Joplin ou Doors? – perguntei.

- Doors – respondeu ela.

- Morrison era o cara – eu disse.

- Voz maravilhosa. Poeta. Gênio.

- Eu acho que ele não era músico.

- Era poeta, né.

- Aham.

Caminhei até meus discos. Eu ainda ouvia disco. Talvez eu fosse o único cara no planeta que cultivasse o hábito de apreciar o bom e velho rock and roll em vinil. Foda-se. A música se tornou muito artificial. Basta um clique na internet pra se ter toda a discografia do Floyd, ou toda a bibliografia do velho safado. Tudo bem, o acesso aos produtos culturais foram democratizados e tal, mas a era analógica me parece mais atrativa. Acredito que as pessoas passaram a ser mais preguiçosas depois da internet. Ou mais idiotas. Não sei bem ao certo. Contudo, parece-me que elas estão mais preocupadas com a foto que irão postar no instragram, do que com a breja. Se saem pra beber, tiram fotos. Aí, recebem curtidas de pessoas que nunca, sequer, lhes falaram uma palavra na vida. Todos são internautas da vida alheia, no século XXI. As mulheres são xavecadas por WhatSapp. E toda uma geração não sabe como deixá-las molhadinhas. Eles falam. E falam. E contam vantagem pra porra nenhuma acontecer. Então, abrem o google, vão ao Red Tube ou Xvideos e batem uma punheta. Putaria solta, que nenhum cérebro consegue medir.

Aqui estou eu. Quarenta anos. Formado há quinze. Bêbado, covarde, barrigudo, fumado, cheirado. Sou uma junção de loucuras e insanidades. Pratico o ócio meditativo todos os dia, por escolha. Os gregos o praticavam também. Inclusive, para ocupar um cargo de governante, em Atenas, era necessário que você fosse ocioso. Acho que nada pode ser mais enriquecedor do que a vagabundagem. Ser vagabundo é renunciar toda uma ordem que lhe foi imposta. É colocar o pau na mesa, e falar “porra, não quero saber disso, porque eu penso assim e negócio é assado”. Meu pau.  Já o enfiei em garotas perturbadoras. Gordas e magras. Drogadas e bêbadas. Malucas, desvairadas, insanas. Era difícil saber quem era o mais pirado. Eu ou elas? Provavelmente eu. Algumas se tornaram grandes amigas, como Flávia. Outras quase me mataram, como Jéssica. Ouve alguns telefonemas, de madrugada, que me fizeram refletir sobre a vida. Foram alguns dias sem conseguir fechar o olho, de medo. Medo de morrer. Medo de, sei lá... qualquer coisa. Você não sabe explicar o medo. Você o  sente e luta contra ele. Porque ele ainda irá continuar ali. Às vezes, o medo fica repelido no fundo da inconsciência. Freud dizia que a inconsciência é a parte onde nossos medos e desejos e fantasias ficam trancados. Cara maluco, esse tal de Sigmund Freud, bicho.

De repente, uma puta vontade de beijar a garota, que está em minha frente, me tomou.

- Cara – disse ela. – Como é o teu nome?

- Pedro. E o teu?

- Paula.

Fiquei parado. Bebendo e fumando. Porra, cara, cê é um merda mesmo. Não consegue largar o cigarro nem a pau. Fuma, fuma, fuma. E quando vê, já gastou todo seu dinheiro. Paula me pediu uma breja. Fui até a geladeira. Peguei uma pra mim, outra pra ela. Brindamos e bebermos.

- Cê já ouviu falar que tem aquele negócio de que se não brindar a breja, é sete anos sem trepar, né? – ladrei.

- Como é que é?

- Se não brindar, é sete anos sem trepar.

- Porra, que bosta.

- Foda, né?

- Ainda bem que brindamos.

- Acho que devemos brindar de novo.

Bridamos mais uma vez. Agora rolou um clima. Não é possível. Ela vem até aqui. Entra, senta, pede pra eu ligar o som. Diz que não bebe, depois aceita uma breja. Vai entender essas jovens. Paula não era nem estonteante, nem horripilante. Tinha seus atributos. Era boa de conversa. Gostava de Doors, Hendrix, Floyd, Zeppelin. Descobri que ela era poetisa. Artista. Mente libertária, preparada pro ócio. Pro pensamento. Pra critica. Caralho. Paula era demais, constatei. Eu tinha idade pra ser pai dela. Vinte anos mais nova. Bucetinha apertada, linda, maravilhosa. “Verdadeiro esconderijo”, pensei.

A gente foi se achegando. Foi inevitável. Beijamo-nos. Senti sua boca molhadinha, seu cheiro de rainha da foda, seu cabelo deslizando sobre minha camisa, sobre minha cara. Pedro, seu imbecil. Não vá se esquecer da merda do roteiro. Cara, eu sei que esse negócio de escrita forçada não é tua praia. Você é artista. Você vive e age como um.  João vai te matar, seu débil mental, se você não escrevê-lo. “João, não consegui terminar o roteiro. Foi mal”, não vai colar. Se prepare. Ou melhor, escreva de uma vez. Ao invés de você passar o papo em mais uma gostosinha, você deveria sentar a tua bunda na máquina de escrever e escrever a porra do roteiro. Tão te pagando bem pra isso. E nada. Você prefere tomar ácido, cheirar cocaína e encher a cara, né?

Filha da puta.

Bolei um fino. Paula deu uns pegas. E fodemos. Ela tirou meu pau pra fora, e pagou um boquete sublime, sensacional, esplendido. Do caralho, literalmente. Após a copulação, ela foi embora. Enfim, sentei em minha máquina. Coloquei a folha, e bati a primeira frase. Saiu. Tá vendo, cara. É simples. Escrever esse curta é sossegado. Você o faz pra poder viver, lembrou? Tua vocação é a literatura. Acho que nunca escreveu um livro por que sempre ficou escrevendo peças e roteiros inúteis. Mas o que é que tem? Henry Miller começou a escrever aos 40. Primeiro ele viveu. Depois, escreveu. Rimbaud fez o contrário. Primeiro ele escreveu. Depois, viveu. Foi à África. Caceta, tô me sentindo um Stephen King. Escrevendo lixo pra viver. O desgraçado do publicitário que me pediu o curta deve tá transado com uma belezinha por aí. E eu aqui... fervendo meus neurônios, andando com um Puma 1978 há três anos. O carro já tá todo fudido. Motor saindo fumaça. Outro dia, Pedro, cê parou num sinaleiro e quem disse que o carro ia funcionar. Uma bela de uma merda, bicho. Cê sabe. Todos ficaram te olhando. Certeza que naquele dia cê sentiu vergonha de ser pobre.

O telefone tocou. Era Flávia:

- Alô – eu disse.

- Olá – respondeu ela.

- Como vai?

- Tô escrevendo um roteiro de merda.

- ahahahaha – ela riu. – Mais um desses trabalhos pra poder viver?

- É, né – falei. – Fazer o quê?

- Seguinte: eu queria te convidar pra beber uma, dar uns tiros, fumar um.

- Quando?

- Amanhã. Vou deixar cê terminar esse roteiro.

Gargalhamos.

Escrevi umas quinze páginas. Até que não ficaram tão ruins. Claro, não é nem de longe seu melhor trabalho, Pedro. Só que pra quem enfrentou um bloqueio criativo, tá ótimo. Melhor impossível. Agora, vá dormir. Amanhã, reunião. Dá última vez, cê tava chapado. Não conseguia formular uma frase. Dava risada à toa. Mordia a cara. Parecia um maluco que fugira do manicômio. Ginsberg ficaria feliz, ao ver aquela cena. Sempre vou, às reuniões, levemente fumado pra poder segurar a onda. E pra, também, conseguir ter paciência com o cliente. Eles sempre me acusaram de ser rude. Então, dou uns pegas e vou zen. Quando a maconha é boa, basta umas três bolas pra relaxar. Todos lá estavam prontos. Vestiam terno e gravata. Eu estava de all star, um blazer preto e uma camisa desbotoada, com os dois últimos botões e uma calça jeans surrada. Sentei-me e joguei na mesa o roteiro. João deu uma lida. Olhou pro diretor de marketing, que olhou pra gestora, que olhou pra mim com uma cara de bosta.

Foda-se. “Meu trabalho tá feito”, pensei.

É, teu trabalho tá feito, mesmo. Agora fique tranquilo, dê uma risada, converse com as pessoas como se fosse um cara normal. Pedro, cê é um cara normal. Às vezes cê dá uma rata, mas é normal. Qual maconheiro que não dá rata? Não existe.

Apertei a mão da galera. Eles estavam satisfeitos. João deu uma lida no roteiro. Gostou. Melhor fazer publicidade, do que pornô. Cê teve a oportunidade de mudar de ramo, porém não quis. Batia no peito, e dizia “sou diferente, sou artista”. Tá vendo. Eles com grana, e você contando-a.

Puta que pariu!

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Indispensável e essencial

Capa do LP 

Título: Maior Abandonado

Grupo: Barão Vermelho

Gravadora: Som Livre

Ano: 1984

Letras fortes e inteligentes. Estes são alguns ingredientes do disco Maior Abandonado, lançado em 1984, pelo Barão Vermelho. Alguns meses antes, Cazuza e Frejat compuseram a música-tema do filme Bete Balanço, que fora um verdadeiro sucesso radiofônico. Contudo, antes de o Barão ser executado nas rádios, Ney Matogrosso regravou Pro dia nascer feliz. A versão de Ney virara hit e logo em seguida as rádios passaram a tocar a versão original. Aí, o então jovem grupo carioca via o reconhecimento e o sucesso cruzar seu caminho.

Álbum de hit. Álbum poético. Álbum de rock. Maior Abandonado possibilitou ao Barão sentir o gosto do sucesso. A turnê do disco lotara as casas de show pelo Brasil, a ponto de a banda ser presa, após uma apresentação, em São Paulo. Os detalhes da prisão são contados em Por que a gente é assim, biografia da banda, escrita por Ezequiel Neves, Guto Goffi e Rodrigo Pinto. Após o show, os policiais foram atrás dos barões, e os prenderam com poucas quantidades de maconha. Frejat, Guto Goffi, Maurício Barros, Dé e Ezequiel Neves foram levados à delegacia. Cazuza não foi preso, e achou um absurdo.

Na delegacia, eles chegaram a dar autógrafos. Nas ruas, nos shows, o público bradava trechos de suas canções. No ano seguinte, o grupo tocara no primeiro Rock in Rio. A apresentação deu-se no dia em que o Brasil conhecia o primeiro presidente civil, em vinte anos. Frejat subira ao palco vestido de verde e amarelo. Anos depois, o guitarrista disse que nunca voltou a vestir verde e amarelo num show. Mas o que ficou marcado naquela apresentação, foi a célebre frase de Cazuza, ao fim de Pro dia nascer feliz: “Que o dia nasça lindo pra todo mundo amanhã/Com o Brasil novo/Com a rapaziada esperta/Valeu!”. 

Meses depois da apresentação no Rock in Rio, Cazuza comunicou sua saída do Barão. O grupo estava prestes a entrar em estúdio para gravar aquele que seria o quarto disco. O repertório foi dividido. Desnorteados, Frejat, Guto, Maurício e Dé não souberam o quê fazer. Lançaram alguns discos, que não tiveram sucesso. Em contrapartida, Cazuza brilhava e alcançava o céu, com sua carreira solo. Exagerado virou hit. E até hoje é tocada em bailes de casamento. 

Os anos se passaram. E o Barão voltou às rádios, somente em 1988, com Pense e Dance. O sucesso dera a oportunidade de o grupo abrir os shows de Rod Stewart, no Brasil, em 1989. No ano seguinte lançaram Barão Ao Vivo. Já Cazuza emplacou quatro discos solos, que foram bem recebidos pela crítica.

Após Maior Abandonado, Cazuza foi para um lado. E o grupo para o outro. Mas é inegável a importância deste disco para a carreira do Barão. Dé, anos depois, afirmou que Maior Abandonado foi o melhor trabalho da banda. “Foi o melhor disco que nós fazemos”, disse. 


MÚSICAS:
1 – Maior Abandonado (Frejat/Cazuza)

2- Baby Suporte (Cazuza/Ezequiel Neves/Maurício Barros)

3 – Sem vergonha (Frejat/Cazuza)

4 – Você se parece com todo mundo (Frejat/Cazuza)

5 – Milagres (Cazuza/Denise Barroso/Frejat)

6 – Não amo ninguém (Frejat/Cazuza)

7 – Por que a gente é assim (Cazuza/Ezequiel Neves/Frejat)

8 – Narciso (Frejat/Cazuza)

9 – Nós (Frejat/Cazuza)

10 – Dolorosa (Frejat/Cazuza)

11 – Bete Balanço (Frejat/Cazuza)

Link para ouvir do disco: https://www.youtube.com/watch?v=9e5mFjqsyb4

quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

Blues lisérgico

Eu sou o espião na rua do amor
Eu sou a voz que ulula de madruga
Eu sou o grito do poeta
Eu sou o poeta
E fechei o livro
E saí do quarto
E fui pra rua

Busco o autoconhecimento
Por meio do ácido. Escuto Doors
Enquanto o vizinho grita ao lado
Ele fala palavras ríspidas e agressivas
Eu aumento o som. Ele continua sua peregrinação
Pelos verbos e predicados chulos

Os homens perderam o lirismo
Os livros foram fechados
Os discos irão quebrar
Os filmes não foram escritos, nem filmados

Com meus versos quero que as pessoas pensem
E percebam a vida. E vejam o tempo que gastam com atividades deprimentes
Eu quero caos e inutilidade. Eu perpetuo no caos e na inutilidade
Ter estilo é fazer algo que ninguém faz
Arte pode ser estilo. Tolice pode ser estilo. Merda pode ser estilo

Blues lisérgico noite à dentro
Grito, sexo, drogas, loucura
O poeta busca o conhecimento
Experimenta a existência
E os homens continuam enclausurados em seus muros

Sinta o uivo da guitarra ecoar em sua alma
O mundo precisa de arte
O mundo clama por mentira
O mundo suplica por histórias

Ela passa ao meu lado
Puxo o ar para meus pulmões
E sinto seu aroma
Linda! Bela! Verdadeira pétala num jardim monótono
Alguém tem de apresentá-la à vida

Moça, você está na prisão que criou a si
Você precisa conhecer a poesia
Você precisa segurar minha mão
Você precisa me seguir para paraíso

Ouvi dizer que lá as pessoas são do caralho
Elas tomam ácido e ouvem Doors e Floyd e são todas malucas
E, além de tudo, a poesia é o combustível de suas vidas

Moça, posso declamar um poema ao pé do teu ouvido?
A qualquer momento bombas podem explodir
Os homens são ávidos pelo poder
Transformam-se, facilmente, em cães famintos por destruição
Com alguma grana em mãos
E caso você não queria entrar no jogo deles
O caminho será mais longo, dizem-lhe. Foda-se. Eu quero e anseio
Pelo trajeto mais longo

"A estrada do excesso leva ao palácio da sabedoria"

Rimbaud, Nietzsche, Blake, Ginsberg, Morrison, Bukowski, Leminski
Renunciaram a ordem imposta e foram viver suas vidas plena e unicamente
E a gente quer seguir
Sem ver a noite
A vida perde o sentido quando o sol nasce
Engravatados desfilam em suas fantasias
À noite os bêbados, os chapados, os loucos, os desvairados
Saem para viver, para pensar, para filosofar, para foder, para celebrar

Não há arte com engravatados
Ligue o som
Desligue o sol
E ouça o blues lisérgico do Doors

Marcus Vinícius Beck

sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

Ensaio sobre jazz, literatura e ócio

Frenético. Sôfrego. Inquieto. Estes são alguns dos adjetivos que qualificam o jazz. O gênero, que nascera na década de 1920, nos EUA, carrega o fardo da criminalização social e étnica em suas melodias. Vários músicos, como Thelonious Monk, incrementavam as canções em longas sessões de jam sessions. Django Reinhardt, violonista francês, morto nos anos 50, é considerado um dos maiores instrumentistas do século XX. Anos depois, o rei da guitarra, Jimi Hendrix, disse que Django foi um melhores músicos que viu tocar. Django não tinha um dos dedos em sua mão esquerda. Ele executava seus solos de forma autêntica e sublime, usando apenas três dedos.

No álbum Monk´s Dream, Thelonious Monk sentou-se em seu piano e criou uma nova atmosfera jazzística. Ao colocar o disco, somos introduzidos ao piano suave, simples e poético de Monk. O lirismo das teclas nos leva para ruas desertas, com homens fumando cigarro, prostitutas mal-encaradas nas portas dos puteiros e cafetões com camisas abertas. Na década de 1950, Allen Ginsberg afrouxou o nó da gravata da linguagem poética. Ele e Jack Kerouac – autor de On The Road – foram influenciados pelo jazz. A prosa deles é marcada pelo improviso, pelo fluxo de consciência. Os pensamentos não são censurados, são jorrados ao papel com uma espontaneidade poética que chocara os acadêmicos da época. Ginsberg mostrou que a poesia pode ser declamada no ritmo dos desajustados, dos excluídos, dos inconformados, dos loucos, dos célebres, daqueles que não conseguem ser um simples parafuso na engrenagem.

Chet Baker assoprava o saxofone. Miles Davis o trompete. John Coltrane comovia e impressionava a multidão. Ella Fitzgerald, com sua voz, sensibilizava os fãs. Jazz e literatura. Irmãos distantes. Se os escritores soubessem que as frases possuem ritmos, e eles estão enclausurados nos pontos, nas vírgulas, nas frases a literatura seria outra. Seria menos maçante. Acontece que poucos sabem escrever. A escrita é a música em palavras. Schopenhauer afirmou que a música é a representação sonora da vida. Segundo ele, através dos sons a gente acha um propósito à vida. Vivemos num emaranhado careta. Trabalhamos oito horas por dia. Bem, se pensarmos que há dois séculos os homens tinham uma carga horária de 16 horas, estamos em vantagem. Hoje, trabalhamos oito horas. E aí, chegamos em casa e ligamos a tv para saber o que aconteceu no mundo e temos contato com as novidades da indústria cultural, seus produtos pré-fabricados, sem elegância, sem estilo.

Os meios de comunicação de massa, diariamente, tentam nos vender uma realidade. A gente têm nossas mentes abertas e “informações” são implantadas nela. Digerimos um rock sem guitarra, um filme sem enredo e crítica, uma peça sem atores. Passamos a pensar menos, a consumir mais, a preterir o material ao espiritual. Mas eu quero ligar meu som, e ouvir um jazz. Não quero ouvir Cold Play. Quero escrever meus poemas, em meu quarto escuro e vazio e vácuo.

Jim Morrison disse que a porta é a metáfora para chegar ao conhecimento. “Há o conhecido, o desconhecido, e entre eles há a porta”, disse o líder do The Doors. Porém, quando acharmos o conhecimento pleno, o que iremos fazer com ele? Ah, talvez a vida perca a graça. A gente vive com a esperança de que terá o paraíso e todos serão perdoados e as pessoas serão todas felizes e sorridentes, em seus empregos de merda.  

Viva a sua vida. Viva o agora. Satre disse que “a essência precede a existência”. Só temos essa chance de viver. Vamos gritar. Vamos andar. Vamos amar. Vamos foder. Vamos beber. Vamos, simplesmente, viver. Que mal há nisso? Temos medo de pegar na mão de um desconhecido, e dizer-lhe que o amamos. Vivemos condicionados ao terror. Na tv, vemos imagens de sangue. Mudamos de canal, e o apresentador prega o ódio. Não temos para aonde correr. O livro está fechado. As palavras não vêm à folha todos os dias. O músico não se lembra dos acordes, todos os dias. O ator não decora o texto, todos os dias.

Precisamos da arte. Libertamo-nos na arte. Precisamos de inutilidade. Precisamos e angariamos por ócio, por vagabundagem, por atividades desprezíveis. Queremos rebeldia. Queremos poesia à prosa. Queremos metáfora à metonímia. Queremos sensibilidade à brutalidade. Queremos o amor ao ódio. Queremos o beijo, o abraço, o afago.

Os rebeldes foram embora. É mais fácil ser obediente. Se o fizer, irão falar-lhe sobre as oportunidades de ascender na vida. Mas essas oportunidades não chegam. E o discurso nunca muda. Como eu queria ouvir a voz de Ella Fitzgerald, o saxofone de Chet Baker, o trompete de Miles Davis, a guitarra de Hendrix, a poesia de Ginsberg.

Eles tinham estilo.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2015

Dias estranhos


Nunca me conformei com a rotina que nos foi imposta. Temos de ir ao trabalho, consumir, crer em Deus, não pensar sobre a política e seus rumos. Frases feitas, meias verdades, chavões; se faladas em excesso, melhor.

Recordo-me de estar em treinamento, ainda, em meu trabalho. Haviam algumas pessoas revelando suas expectativas com a empresa. Nada original. Tudo cópia. Eu não estava nem aí. Eu estava ali por que precisava. Havia escrito um livro e quando o terminei, pensei: “Bem, agora eu preciso arrumar um emprego”. Claro, não foi tão fácil assim. Primeiro: eu não tinha disposição para trabalhar. Segundo: por que as pessoas no meio corporativo nunca bradam uma frase autêntica? Será que é difícil para eles? Deve de ser. As garotas, lindas, caminham para o lado deles. Algumas ficam ao seu lado. E pegam em suas mãos. E dizem a você coisas que levam a alma ao êxtase. E questionam-no sobre o mundo, a vida, o amor, o sexo, a arte. Elas existem, acredite. E são poucas. 
Mas uma hora ficamos sozinho, porque temos de ficar sozinho. Deixem-nos com nossas frases, com nossos pensamentos, com nossas loucuras e devaneios, com promessas de que dias melhores virão.

Eu encontrava-me com um livro do Bukowski em mãos. Era Mulheres, cuja capa mostrava o corpo feminino despido. Então, o instrutor perguntou:

- O quê te levou a procurar um trabalho aqui? – indagou ele.

Permanecei lacônico. Fitei-o, e disse:

- Dinheiro.

- Dinheiro?

- Sim. Eu preciso de dinheiro.

- E você não pensa em crescer aqui dentro?

- Não.

Percebi que a aparência do cara mudara. Ele, de repente, ficou impressionado. Talvez eu tivesse sido sincero demais. Porém, eu senti que a maioria das pessoas, que estavam presente, queriam dizer aquilo, mas não conseguiam. Talvez tivessem medo do que pudesse lhes acontecer. Foda-se. Um cara com um livro na bagagem não quer ser condenado à monotonia, ele quer movimento, com confusão, caos. Ele aspira e prospera quando desponta no horizonte o barulho leve e sensual de uma guitarra. A gente liberta-se na arte. E ela é rebelde. E ela leva-nos para uma inspeção sobre a vida, sobre o mundo, sobre os detalhes que foram-nos impostos. É simples, meu caro. Siga as regras. Dance conforme a música. Sorria quando todos sorrirem. Interaja com idiotas. Seja um idiota. Sucesso garantido.

A receita para dar-se bem é simples. Contudo, dar-se bem não é sinônimo de inteligência. Um idiota pode ser bem-sucedido na vida. Eu conheci um par deles ao longo de minha breve trajetória. Eles gostavam de atrair olhares com suas retóricas murchas. E todos os olhavam. E eles sentiam-se num palco, cuja música causava-me asco e revolta e risos. Eu gargalho quando eles veem com seus ensinamentos. Ganhar dinheiro não significa nada. Quando somos contratados por alguma empresa, somos “beneficiados” com alguns cartões de crédito. Eles são aceitos em mercados e lanchonetes. Podemos comprar bebidas alcoólicas neles. Depois, reclamam que o consumo de álcool aumentou. Ora, o álcool é a droga que simboliza nosso estilo de vida. Alguém disse que podemos bebê-lo, e a gente passou a achar aquilo um máximo, sem pensar. Agora, experimente acender um baseado no meio da rua, às 13 horas. Provavelmente, a polícia chegará e irá lhe falar barbáries, e se você for um cara de sorte, poderá escapar sem levar nenhum murro na cara. Policiais, com uma arma na cintura, tem a errônea convicção de que são poderosos. Além de serem insensíveis.

Agora o natal chegou. E nas ruas o maluco quer um tostão para encher a cara. Uns compram e compram e compram e compram. Outros saem de suas camas, pela manhã, pensando em como irão se alimentar. A realidade é dura. Não podemos parar. Não podemos pensar. Sempre temos de estar preocupados com algo. Vivemos impulsionados pelo medo. Temos medo de apanhar o ônibus. Temos medo da polícia. Temos medo de ladrão. Paralelo a isso, precisamos nos alimentar, dormir, copular, beber, fumar. E no final não há tempo. O dia acabou, e a gente vai à cama dormir. E no dia seguinte o roteiro se repete.

Os dias são estranhos.

sábado, 19 de dezembro de 2015

Um ensaio ao longo de L.A Woman

O mundo da criação. A gente o quer, e o quer agora. A gente não quer ir para nossos empregos monótonos. A gente quer escrever poesia, para ser declamada na rua, de madrugada. A gente quer viver, pura e simplesmente. Já que vocês ficaram com as melhores mulheres, deixem-nos em nossos quartos escuros, sozinhos, com as damas que sobraram e apenas uma folha em branco e um cigarro e um baseado e uma caixa de cerveja para nos acompanhar no emaranhado criativo e poético.

Ao caminhar pelas calçadas, percebo nas pessoas um semblante pálido. Ninguém mais quer viver. Todos querem ficar conectados, para poder postar fotos nas redes sociais. Tudo é fático, frívolo, superficial. Parece que a conversa olho-a-olha sumiu. As pessoas pegam seus celulares, e teclam. Resolvem problemas pessoais, com alguns cliques. Nos ônibus, na fila do supermercado, no taxi, na rua, na calçada; todos carregam um aparelho.

Jonathan Franzen, em Como ficar sozinho, contou que há vinte anos as pessoas tinham maços de cigarros nos bolsos. Hoje, ninguém fuma. O mundo virou careta. Allen Ginsberg soltou o nó da gravata da linguagem poética, nos anos 50, quando lançou Uivo. Van Gogh pirou, enchendo a cara de absinto. Nietzsche afirmou que deveríamos pensar a existência de Deus. Só que não pensamos a existência de Deus. Preferimos engolir Deus, o governo, a ordem, o sistema sem digeri-los.  A gente não pira mais.

Coloco L.A Womam, do The Doors. Jim Morrison diz para nos soltarmos no início do disco. Eu tento. Eu sinto que estou num daqueles textos. Toda ideia quando vem à cabeça tem pressa para sair. Ela pede incisivamente para ser jorrada para fora. Quando Morrison e Ranzarek decidiram fundar o Doors, em Venice, Los Angeles, em 1967, era uma ideia que precisava sair. Quando Henry Miller, aos quarenta anos, escreveu Trópico de Câncer, era uma ideia que tinha pressa em sair. Quando Rimbaud abandonou a poesia, era uma ideia que explodira.

O mundo é constituído por ideias. Porém, não as pensamos. Estamos preocupados com o amanhã, enquanto o agora passa bem em nossa frente e não fazemos nada, porque assistimos ao show de horrores, mostrados na televisão e propagados na internet. Hoje, crianças compram armas com os cartões de crédito dos pais. Hoje, as pessoas são seduzidas pela violência. E matam para ver o sangue escorrer.

Temos tanta preocupação. Temos que pensar em assalto, em comida, em dinheiro, em como sobreviver a mais um dia. E no final não há tempo para a criação. Mas precisamos da criação. Precisamos libertar a alma, e a libertamos através da arte, do ócio, das ideias. Viver é criar. O mundo clama por música, por cinema, por fotografia, por teatro. O mundo não precisa de novos Crepúsculos a serem escritos. O mundo angaria por energia. O mundo não aguenta ficar de gravata. É... fomos jogados nesse tabuleiro, sem saber. E não nos ensinaram como deveríamos montá-lo. Acontece que não queremos jogá-lo. Queremos abrir a janela, e olhar o horizonte e fumar um baseado, ouvindo o barítono de Morrison. Queremos transar, sem preocupação.

Poético Morrison. Ele fundou o Doors, depois de ver que a faculdade não lhe acrescentou nada. Estudou cinema, na UCLA (Universidade da Califórnia). Os professores admiravam-no, por conta da percepção que nutria sobre a natureza humana. Então, formou uma das melhores bandas de rock da história. Lançaram cinco discos memoráveis. Poesia, teatro, filosofia foram misturadas à bossa nova, ao flamenco e ao jazz. O resultado não poderia ser diferente: do caralho!

Em 1969, o conjunto teve de enfrentar o sistema judicial americano. Segundo Jerry Hopkins, em Ninguém sai daqui vivo – biografia de Jim Morrison -, o Doors chocava os bons costumes americanos em suas apresentações. Ray Manzarek, em Mrs Mojo Risin, documentário exibido pelo canal BIS, relatou que eles foram perseguidos depois do julgamento de Jim, em 1969, por exposição indecente. “O sistema nos prejudicou”, disse o tecladista. Eles tiveram, após o incidente, vários shows cancelados.

Morrison foi julgado. E nesse período, final dos 60, começo dos anos 70, escrevera alguns livros de poesia. O poeta e amigo Michael McClure os lera e disse que eram geniais. Jim gostara de ouvir aquilo. Morrison Hotel fora lançado. Era o retorno ao blues. Era o retorno às origens, que iniciaram em Morrison Hotel e que culminaram em L.A Woman.

Que puta som!

Bem, o que quero dizer com essas referências é: o mundo da criação não precisa de suas regras, de suas ordens, de suas imposições. Precisamos de sossego. E do caos. Queremos nosso quarto escuro. Queremos nossa guitarra. Queremos nossos discos. Vocês têm duzentas curtidas em suas fotos nas redes, vocês têm as mulheres mais belas, os melhores carros, os melhores celulares. A gente tem apenas uma carteira de Marlboro e, se der sorte, um baseado para fumar enquanto a ideia não bater à 
porta.

L.A Womam é um disco foda.

domingo, 13 de dezembro de 2015

Estou farto

Estou farto
Das torres televisivas
E seu discurso persuasivo
Estou fato
Das falácias
Estou farto
De mediocridade
Estou farto
Das falsas ideias
Estou farto
Dos chavões e frases feitas

Eu quero flores em meu jardim
Eu quero sentar num banco na praça
E conversar qualquer coisa com o velho
Que viu toda a vida passar

Eu quero o ócio
Eu quero a luz
Eu quero viver
Eu quero o caos
Eu quero a confusão
Eu quero a cidade do amor
Eu quero a rua do amor

À noite saio de casa
E vou em direção à incerteza
De dia os homens de poder
Estão em seus trabalhos monótonos
Ninguém tem tempo. Todos vivem
Apressados, desvairados, frenéticos, lunáticos
Em seus ternos de mil reais

O burocrata chega em casa. Liga a tevê
Assiste o noticiário, e reclama:
“Porra”, grita, “tá tudo uma merda”
Mas ele esqueceu-se de que a merda
É apenas um detalhe na engrenagem

A torre televisiva contou-lhe sobre o mundo
E ele, sem questionar, achou a história convincente
O trabalho tomou-lhe todo o senso. O amor já não conhecia
Era um amigo distante, desconhecido



quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

O resto que se foda

Loucura. Falam tanta essa palavra. Mas quem são os verdadeiros loucos? O artista que procura a solidão, o sossego, a tranquilidade? Ou o homem moderno, cuja vida é sem graça, sem esperança, sem perigo, sem tolice, sem emoção. O homem moderno prefere ficar trancado sob quatro paredes a estar na rua às três da manhã. O homem moderno não sabe o quê é conquistar uma mulher pelo diálogo. O homem moderno acha que sua vida é perfeita e sublime. Então, a escancara na internet. O jantar com um amigo. O beijo na namorada. O grito de bêbado, na madrugada. Tudo está lá, para todos se deleitarem, a qualquer hora. A vida tornou-se um espetáculo, mas não se sabe quem é o protagonista. Ninguém faz tolice. Ninguém tem estilo. Esses homens, reféns tecnológicos, são controlados pelos aparelhos celulares, e não sabem o quê é pegar a carteira e só encontrar uma cédula de dois pila. Nesses momentos só há você e sua velha máquina de escrever e seus discos de vinil e uma mulher – se der sorte. E ela observa-o, com as pernas cruzadas. O sujeito vem em sua direção. Senta-se em sua companhia. Começa a conversar qualquer coisa. Eles se entendem. Ela o entende. E ele pega a mão dela, e dá-lhe um beijo. Olho com olho. Perna com perna, embaixo da mesa. Os dois tentavam celebrar a vida. Os dois queriam a vida, e queriam-na agora. Mas não há dinheiro na carteira. Há apenas sonhos e devaneios na cabeça. Ele chega em casa, fétido da vida boêmia. Sua mulher mandou-o à puta que pariu. Ele pensou. E pensou. E pensou. Contudo, nada podia ser feito. Ele acendeu um cigarro. Fumou-o com a mente carregada de constatações. As palavras que habitualmente escrevia eram constatações sobre a vida. “Careta”, pensava ele, “o mundo é careta demais”. “Meus heróis morreram de overdose”, completava, cantando. As pessoas têm medo do amor. As pessoas querem segurar seus aparelhos de merda, querem falar sobre merda, querem ser uns merdas com alguma grana no bolso. Porque ser um merda com grana no bolso, não é como ser um merda liso. Um homem sem dinheiro sabe que o materialismo patético deixou-nos tolos e idiotas. Agora, a gente acredita que nossas vidas são interessantes, que nada ao nosso redor vale a pena. E aí, um sentimento de medo nos ganha. Somos direcionados à mediocridade, à tolice, às frases feitas e chavões. Sócrates não era medíocre. Nem Nietzsche, nem Rimbaud, nem Henry Miller, nem Kerouac, nem Bukowski; eles tinham consciência, por isso viviam a vida plenamente e unicamente. Não há outra vida. Há o aqui e o agora. Essa é a única certeza de nossa existência. Satre era sábio: “A essência precede a existência.” Primeiro, devo existir. Depois, viverei.  O resto que se foda.

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

O Brasil é preto e branco

O Timão entrou em campo com oito jogadores diferentes. Time misto. Tite estava tranquilo. E o jogo começou calmo. Nós, os corintianos, tivemos de conviver durante o ano todo com falácias sobre do futuro da equipe. Quando Emerson e Guerrero saíram, setores da imprensa esportiva diziam que o Corinthians brigaria para ir à Libertadores. Que engano! O time evoluiu. Melhor campanha em casa. Melhor fora. Melhor defesa. Melhor ataque. Time mais disciplinado. A primeira penalidade máxima que o Timão cometeu na competição foi contra o São Paulo, no último domingo. O pênalti, uma invenção do assoprador de apito, foi defendido por Cássio.

Contra o Vasco, na última quinta-feira, 19, o Corinthians não tinha pressa. Rodava a bola de um lado para o outro, tentando envolver a equipe cruzmaltina. Em um lampejo de descuido da defesa corintiana, os cariocas marcaram o primeiro gol e correram para o abraço. O Timão saiu atrás no marcador, mas não por muito tempo. Tite mexeu na equipe, e logo em seguida o jogo estava empatado. E o São Paulo surrava o Galo, sem saber que seria surrado no final de semana. Bem, a taça – que já tinha dono – caminhava, sedenta, às mãos de Ralf.

Dei um gole em minha cerveja, quando o Vasco fez o primeiro gol, e disse:

- Que merda!

- Gol? – perguntou minha mãe.

- Sim... e do Vasco – falei, com minha lata de Bavaria em mãos.

Nesta partida Renato Augusto aparentava cansaço. O meia havia jogado pela Seleção, 48 horas antes. Eliás, também. Ambos encontravam-se esgotados, aturdidos. Erravam passes que não eram habituais. Então, o brilhantismo de Tite veio à tona. Ele sacou Renato Augusto e colocou Rodriguinho. Imediatamente, o Timão mudou a postura. Parece que de repente o time acordou e gostou do jogo e queria fazer o placar e conquistar o título. O São Paulo fazia a sua parte, no Morumbi. O brasileirão é nosso. O triunfo é nosso. A glória é nossa. O grito é alvinegro. As ruas são alvinegras, noite à dentro.

- Festa na favela! – gritei, na janela de casa.

Um cara berrou:

- Roubado!

- O choro é livre, amigo – eu disse.

Ele parecia não simpatizar com Corinthians. Depois eu descobri o porquê: o sujeito era santista. Eu, bêbado, bradei-lhe:

- Santos o caralho, lugar de peixe é dentro do aquário.

O cara não respondeu nada. Acendi um cigarro, e segui contemplando a televisão. E logo eu que não assisto tv estava vidrado na tela. A massa preta e branca. Meu time. Time do povo. Time da democracia. Os malucos são corintia. Os maloqueiros, que não tem dinheiro para pagar a passagem de ônibus, são corintia. O tio do bar é corintia. O cara na esquina, que fuma seu baseado, é corintia. Ser corintiano é ser contaminado pelo corintianismo. E não há cura! Fazemos um tratado. Mesmo que a bola não entre. Mesmo que o estádio se cale. Mesmo que o centroavante erre o gol. Mesmo que a zaga falhe. Nunca vou te abandonar, porque eu te amo. Eu sou Corinthians. Como diz Adoniran Barbosa: “É bom ser alvinegro”.

Analisei a conjuntura, após a partida. Peguei a tabela do campeonato, visualizei que o Timão enfrentaria, no jogo da taça, um de seus maiores rivais. O São Paulo briga por vaga na Libertadores. E não vai querer amolecer para um Corinthians sem ambições na competição. Para completar: Tite vem a campo com o time misto.

Eu estava no trabalho. Não podia fazer quaisquer manifestações futebolísticas. Mas como não fazê-las? Meu time era campeão. A massa alvinegra estava nas ruas. A massa alvinegra grita, das ruas. E eu, em meu trabalho, não podia dizer um ”vai corintia”? Porra, tenha dó. Fiquei todo o jogo vibrado na televisão. Meus colegas não entendiam aquele ritual corintiano. E nem vão entender. Apenas os loucos conhecem-no.

- Eles querem mostrar serviço – comentou um colega, corintiano, sobre os reservas.

O Timão pressionava o São Paulo.

- Vai dar corintia – falou um outro.

- Não tenha dúvida – disse-me ele.

Não conseguíamos concentrar-nos no diálogo. Ambos estávamos com os olhos presos à televisão. Todo lance, toda jogada, era um suspiro dado. E um grito preso na garganta, que pedia para sair.
Quando marcamos o primeiro gol, após cobrança de escanteio, vociferei:

- Aqui é coríntia – e apertei a mão dos colegas sofredores.

- Vai ser seis – um constatou.

Não acreditei. Seis no São Paulo? Não é possível.


E não é que foi. O Brasil é preto e branco.  

(Texto publicado no Diário da Manhã, em 27/11)

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Que música!

A música. Consolo da alma. Inspiração do poeta. Refúgio dos desajustados. Ouvimos e produzimos, em todos os instantes, algum barulho. O grito da mulher chegando ao clímax. O solo de guitarra do músico que encontrou a nota certa. A chuva que cai no chão. O miado do gato pedindo comida. O quê seria do mundo sem música?

Outro dia, eu caminhava pelas ruas à procura de um bar. Havia um cara, tocando violão, no meio-fio. Ele mandava O dia em que a terra parou, do Raul. Parei, e observei-o. Os acordes penetraram em minha alma.

Quando acabou a música, ele pediu-me um cigarro. Dei-lhe:

- Valeu – disse ele.

- De nada – falei. – Cê toca pra caralho, bicho.

Era um maluco. O cara tinha uma bandana à lá Hendrix na cabeça, anéis no dedo e um violão folk todo esfarrapado.

- Todos acham que sou louco.

- Os melhores são loucos – falei.

Acendi um cigarro. Ele também.

Terminei de fumar. Apertei a mão dele, e despedi-me. Como pode haver pessoas que conseguem ficar sem ouvir um som? A música é a reprodução da vida, disse Shopenhauer. Não há como evitá-la. Não podemos evitá-la. Mas a evitamos. O mundo submete-nos a situações robóticas. Temos, todos os dias, de cumprir horário. Segundo pesquisa divulgada pela Globo News, 92,5% da população brasileira não costuma ir a exposição de arte. E o mais trágico: 70,1% não leem sequer nenhum livro.

E o maluco veio em meu encontro, e perguntou:

- Cê pode me arrumar mais um cigarro?

- Claro, bicho – falei.

Eu podia ver em seus olhos a gratidão. Ofereci-lhe o isqueiro. Ele acendeu, jogou a fumaça para o ar 
e seguiu sua caminhada. Então, perguntou:

- Tá indo beber uma?

- Sim – respondi.

- Aonde?

- Porcão.

- Eu também.

Jamais cogitaria a possibilidade de que aquele maluco, que mandava um Raul, encostado no meio-fio, iria ao Porcão. Somos induzidos a crer em dogmas falaciosos sobre as pessoas. Não podemos olhar um negro, ou um maluco. É imediato: “Marginal. Filha da puta. Bandido”, pensamos.

Deplorável.

Viramos a esquina. Um cheiro familiar veio das mesas. Era maconha. Procurei Raphael, porém não o encontrei. Então, pedi uma cerveja e esperei-o. De repente, ele chegou. Sentou à mesa e fez algumas de suas piadas habituais. Eu falei-lhe sobre o maluco que tocava Raul, no meio-fio.

- Vamos chamar o cara pra fumar um? – sugeriu ele.

- Acho que não vai dar. Olha lá – respondi, meneando a cabeça.

Ele tocava Stairway to Heaven. Todos admiravam-no. Que música!


segunda-feira, 23 de novembro de 2015

As mulheres

Mulheres. Uma beleza! Elas arrastam olhares ao caminhar. Os cabelos balançam com o ritmo do andar. E os homens ficam vidrados. Seres desprezíveis, insensíveis, os machos. As mulheres sabem o quê fazer, sabem o quê tem de feito, sabem que os machos olham-nas, sabem que são poesia em carne e osso. Os machos olhamos mesmo. Olhamos porque não há nada melhor. Não há nada melhor que uma dama neste mundo. “Elas equilibram o mundo”, disse Truffaut – o cara que nasceu para filmar o amor.

Todas são especiais. Elas guardam dentro de si algo que as diferenciam uma das outras. As mulheres são seres únicos. Elas vêm ao mundo para sofrer. E sofrem. Além da pressão da sociedade, os homens fazem-nas sofrer, com seus discursos de quem durante séculos foi o beneficiado. Elas começaram a votar no Brasil, em 1932. E ainda dizem que a luta por igualdade é pura balela de feminista. Discurssão que bradamos no bar, no final de semana. Eu penso o contrário. O feminismo busca igualdade de gênero. Não podemos condená-las, por quererem igualdade de gênero. Segundo reportagem de O Globo, as mulheres recebem 35% a menos que os homens. E, se ainda não bastasse, elas têm de enfrentar a lógica dos empresários, que preferem não contratá-las, por serem, simplesmente, mulheres. “Elas não sair em licença maternidade, e a gente que terá de arcar com os custos”, pensam.

Sábio Bukowski - o velho safado: “As mulheres vêm ao mundo para sofrer”.

Mudando de assunto. Lembrei-me de uma canção do mestre Jorge Ben Jor. “A crioula é a soma de todas as riquezas”, diz Jorge, em Crioula, canção que íntegra o álbum Jorge Ben, lançado em 1969. A crioula tem o molejo, a ginga, o sorriso, que fisga-nos e deixa-nos paralisados. A ruiva é o verdadeiro fogaréu. A morena têm cabelos negros cintilantes, que protegem-nos da escuridão. A loira – clichê -, mas bela, tem a postura de rainha. A coroa a experiência, o olhar lascivo, o laconismo de quem muito viveu. Todas são belas. O poeta abre o livro, escreve versos, declama-os porque há uma mulher. O bêbado dá um tempo em seu trago, para uma mulher. O mundo para, de queixo caído, ao ver uma mulher.

Em L'Homme qui aimait les femmes ( O homem que amava as mulheres), Bertrand diz que toda vez que olha uma mulher feia entende que não é possível ter todas. O filme é famoso pelos ângulos de câmera do diretor francês, cuja devoção pelos sexo feminino fica evidente em várias entrevistas que concedeu ao longo da carreira. Bertrand, ainda, questiona: “Por que ter apenas uma, se posso ter todas?” O personagem morreu no final da obra, por causa de uma dama. Ele estava internado num hospital e entrou uma enfermeira em seu quarto. Bertand ficou em êxtase, caiu no chão e em seguida morreu.

Não há a mulher. Há as mulheres. 

sábado, 21 de novembro de 2015

Equilíbrio do mundo

E eu que a vi cruzar meu caminho. Estava sentado, matando o tempo, fumando um cigarro atrás do outro e bebendo uma cerveja atrás da outra. Ela chegou, e sentou-se. Fiquei olhando-a. “Quanta beleza”, pensei, medindo seus um metro e cinquenta e cinco de formosura e delicadeza. Ela tinha uma voz leve e afável. Sua alma também era de uma garota sensível. Quanta beleza! Ela foi esculpida a dedo, avaliei. Porra, enquanto algumas são grandes nos lugares errados, ela era perfeita. Pequena nos lugares que tinha de ser. E grande nos lugares certos. Cabelo negro cintilante. Pele branca. Sorriso espontâneo no canto da boca. Eu apenas ouvia-a. Suas queixas, seus medos, suas amarguras, suas angústias. Ela não sabia como lidar com estes problemas. Não sou muito bom em dar conselhos, mas senti-me com o dever de falar-lhe algo. Logo eu - que sempre tenho alguma piada na ponta da língua. Só que eu conto-as para vê-la sorrir. Eu gosto de vê-la sorrir. Eu gosto de penetrar em suas pálpebras. Eu gosto de tentar sua desvendar a alma.

Ela continuava sentada. Aproximei-me, puxei uma cadeira e ofereci uma bebida. Ela disse que não bebia. Compreendi, e não insisti. Pensei em acender um cigarro. Mudei de ideia. Se ela não bebia, provavelmente não fumava. E depois, descobri que estava certo em minha constatação. Ela não fumava. Ela cantava. Ela cuidava da voz. Parabenizei-a, e falei que escrevia e por isso não tinha muitos cuidados físicos. Expliquei-lhe que tinha apenas cuidados intelectuais. Na verdade, a parte boa de um escritor vive no papel. A outra é desprezível. Se jogá-la fora, ninguém dará falta. Percebi no fundo da retina dela um olhar curioso. Ela queria perguntar-me algo, mas não o falara. Talvez por sentir-se retraída. Talvez por que não queria. Foda-se. Eu queria apenas prestar atenção nela. Pouco me importava o quê o cara da mesa ao lado falava de mim.

A gente conversou. E conversou. Demos voltas por vários assuntos. Perambulamos em música, cinema, literatura – arte em geral. Ela revelou-me que é fã devota de artes plásticas. Mencionei alguns nomes. Disse que Salvador Dalí desafiava a mente humana. Ela acenou, concordando. Abriu um sorriso, e falou:

- Tenho de ir embora.

- Mas já? A conversa tá boa.

- Concordo.

- A gente se vê.

- Espero – disse eu.

Fiquei sentado ali, por alguns minutos. Pensei na vida. Pensei nas escolhas que fiz. Pensei nas escolhas que não fiz. Pensei nas mulheres que passaram pela minha vida, e de alguma forma marcaram-na, fazendo valer a pena cada segundo vivido. Lembrei-me da primeira foda. Lembrei-me da primeira chupada que ganhei. Lembrei-me da primeira vez que chupei uma mulher. Lembrei-me da primeira vez que fiz uma mulher gozar. Sensação inenarrável. O momento dos momentos. 

Naquele dia, senti a plenitude feminina. Como as mulheres se libertam ao transarem. Elas se entregam. E gemem. E são carinhosas. Elas equilibram o mundo, com seus andares melódicos e lastros, como ponderou Truffaut – o sujeito que nasceu para filmar o amor.

Então, levantei-me da mesa. Paguei a conta. O preço da cerveja havia subido. Resmunguei alguma coisa. O cara não gostou, e deu de ombros. Agora, sim, acendi um cigarro. E segui minha caminhada solitária. Um bêbado que ama as mulheres. Um bêbado que grita os versos de Jim Morrison, às duas da madrugada. Um bêbado que busca a melhor frase, o melhor verso, o melhor momento. Um bêbado que vive e ama e admira o sexo feminino. Simplesmente, um bêbado qualquer.


As mulheres vêm ao mundo para sofrer. 

(Texto originalmente publicado no Diário da Manhã, 22/11)

sábado, 14 de novembro de 2015

Dom Corlene do futebol enfrenta justiça americana



José Maria Marín sente a justiça americana em seu pé. Mandatário do futebol brasileiro, seu currículo é invejável. Durante a ditadura, foi acusado de contribuir com a morte do jornalista Vladimir Herzog – morto em 1975, em circunstâncias misteriosas, na sede do DOPS, em São Paulo. Na época, ele era deputado estadual pela ARENA - partido que sustentava a ditadura. Alguns anos depois, em 1978, chegou a ser vice-governador de São Paulo. E na década de 1980 viveu nos bastidores da política paulista.

Na juventude, jogara no São Paulo, como profissional, por cinco anos. Só que ele não tinha aptidão para o esporte bretão e, então, elegera-se vereador, nos anos 1960. Aí começou sua carreira política. Depois, passou para o futebol e foi presidente da Federação Paulista de Futebol (FPF), entre 1982 e 1988. Neste período, foi chefe da delegação da seleção brasileira na Copa do México, em 1986. Após o mandato de Ricardo Teixeira, na CBF( Confederação Brasileira de Futebol), sucedeu-o à frente da entidade, chegando a acumular o cargo de presidente da entidade e membro do COI (Comitê Organizador Local).

Em 12 de janeiro de 2012, foi alvo, novamente, de piada. O mandatário embolsou uma medalha durante cerimônia de premiação, após a final da Copa São Paulo de Futebol Júnior. O ato foi flagrado pelas câmeras da tevê Bandeirantes, e transmitida em rede nacional. Em 27 de maio de 2015, não teve como escapar. Segundo o The New York Times, policiais à paisana invadiram o hotel em que Marin estava hospedado e prenderam-no. Os investigadores chegaram a dizer que os acusados – e entre eles estava o ex-mandatário – movimentaram cerca de 150 milhões de dólares – algo em torno de 470 milhões de reais –, em esquema que existia há 24 anos. Os negócios do grupo envolviam diretos de transmissão em campeonatos na América Latina.

Nesta terça-feira, 3, Marin foi deportado para os Estados Unidos, depois de permanecer cinco meses preso, na Suíça. Ao desembarcar em Nova Iorque e foi acusado, oficialmente, de fraude, lavagem de dinheiro e conspiração. A pena pode chegar a 20 anos.

O julgamento aconteceu no Tribunal Federal, no Brooklin. Vestindo um suéter azul claro, Marín aparentava cansaço. Ele declarou-se inocente da acusação de que havia recebido 15 milhões de dólares, em propina. Ao sair do tribunal, acenou para jornalistas, dizendo que não iria dar entrevista.

PRISÃO

Cercado de grifes e vizinhos famosos. É assim que José Maria Marín vai enfrentar seu julgamento. Contudo, desta vez sua chegada aos EUA se contrasta com a que teve em 2011 e 2012, quando a Casa branca homenageou-o -  porque era o poderoso da Copa do Mundo. Agora, o enredo é diferente. O Dom Corleone do futebol brasileiro tem, em seu enlaço, o FBI.


Com vista para a Quinta Avenida, seu imóvel em Nova Iorque é estimado em 2 milhões de dólares. Ele possui o apartamento desde 1984, quando ainda era Presidente da Federação Paulista de Futebol. O prédio têm 68 andares, e é um dos mais cobiçados da cidade. Segundo jornalista Jamil Chede – Repórter do Estadão e colaborador dos canais ESPN -, Marín vai ter como vizinhos o ator Bruce Willis e o astro português Cristiano Ronaldo. De acordo com o jornalista, na Suíça, Marín dizia que queria apenas dormir em sua cama. “Vou dormir na minha cama e tomar um banho de ducha”, dizia o ex-chefão.     

(Texto originalmente publicado, ontem, no Diário da Manhã)

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

“Há coisas que são conhecidas e coisas que são desconhecidas, e, entre elas, há portas", dizia Jim Morrison

Capa do livro "Ninguém sai daqui vivo", escrito pelo jornalista Jerry Hopkins

“O melhor poeta da sua geração”. Assim o poeta e dramaturgo beat Michael McClaure descreveu Jim Morrison. Leitor voraz, Jim era uma criança tímida e acima do peso. Ao entrar no curso de cinema da UCLA (Universidade da Califórnia), o seu mundo mudou. Perdeu peso, deixou os cabelos crescerem e ganhou uma áurea sensual. Na faculdade, os professores admiravam-no. Jim despontava como intelectual. Os colegas diziam que ele tinha um conhecimento acima da média sobre a natureza humana. Conheceu Ray Manzarek, colega de faculdade, e o resto é história do rock and roll.

Ray Manzarek, Robby Krieger, John Desmonre e Jim Morrison formaram o The Doors. Manzarek ouviu Jim cantar Moonlight Drive, em Venice, Los Angeles, e disse que aquela era a melhor letra de rock que escutara. "Esta é a melhor letra de música que eu já ouvi. Vamos começar uma banda de rock e ganhar um milhão de dólares", disse o tecladista, no verão de 1965, quando Jim havia desistido da faculdade de Cinema. E eles iniciaram uma banda. E começaram a percorrer o circuito underground de Los Angeles. E começaram, também, a chocar os espectadores, sobretudo quando os Doors executavam The End – clássico edipiano -, cujos versos “Pai, sim filho ? Eu quero te matar”, “Mãe, eu quero te foder”, causavam asco e revolta no público. Estes versos remetem a Édipo Rei – clássico da tragédia grega.

Eles lançaram o primeiro disco, The Doors, em 1967. No álbum tinha Light my fire – primeiro single dos Doors. A música foi escrita por Robby Krieger (guitarrista). Aí, eles foram aos programas de televisão, e arranjaram um problema com Light my fire, na CBS. A direção da emissora sugeriu que a banda alterasse um verso da canção que fazia alusão aos alucinógenos. A princípio, os quatro aceitaram a proposta, chegando a cantar a letra alterada num ensaio, antes do programa ir ao ar. Mas na hora agá, Jim cantou “Hey garota, nós não podemos mais ficar chapado.” A reação não podia ser diferente: A direção da emissora disse que os Doors não tocariam mais na CBS. E eles ficaram sem ir a programas de tevê por anos. E eles nunca venderam uma música para comercial de automóvel. Mesmo assim, os Doors venderam 100 milhões de cópias por ano. E ainda vendem 80 milhões de cópias por ano.

Jim era erutido. Sabia frases de William Blake, Nietzsche e Rimbaud na ponta da língua.  Talvez o destino colocou-o no mundo da música, por acaso. Mas o fato é que seus versos transcenderam os anos, tornando-se eternos. Alguns veem Jim apenas como uma estrela do rock, que um dia queimou e foi embora. “Há coisas que são conhecidas e coisas que são desconhecidas, e, entre elas, há portas." Jim passou abriu a porta, e passou para o outro lado.

Texto publicado em 23/11/2015 no Diário da Manhã