quarta-feira, 30 de novembro de 2016

Eis que os deuses foram maldosos

Um belo dia a Deusa das quatro linhas resolveu beijar os pés dos maltratados, desprezados, excluídos. E desses pés nasceram vários jogadores, espelho de muitos meninos. Sem muita escolha, vieram abraçados a uma lata de 350 ml de Coca-Cola e com uma bola nos pés.

Mesmo antes de aprenderem a andar, sabiam jogar. Na várzea, davam show. Os amigos, claro, ficavam com raiva e começavam a apelar nas entradas. Mas os meninos, criativos que só eles, conseguiam escapar dos carrinhos maldosos dos amigos, que não foram escolhidos pela Deusa.

A bola os procuravam, os reconheciam. Ela precisava deles. Eles a tratavam com carinho, a chamavam para conversar quando todos pareciam tratá-la com desdém. No peito de seus pés, ela descansava. E se embalava no ritmo de seus gingados e molejos. Eles a davam brilho, a davam voz. E ela falava, e deste diálogo milhões de pessoas eram iluminadas com tamanha beleza.

Mas, na última terça-feira (29), os deuses do futebol resolveram ser cruéis. O avião que transportava a delegação da Chapecoense caiu próximo a Medellín, na Colômbia. A equipe disputaria a final da Copa Sul-Americana, na próxima quarta-feira (30), contra o Atlético Nacional. Pela primeira vez em sua história, os catarinenses chegaram à final de uma competição internacional.

O voo levava aproximadamente 72 passageiros, além de nove tripulantes. Desses, 22 eram profissionais da imprensa. De acordo com o portal Fórum, apenas um jornalista sobreviveu. Os outros seis trabalhavam na Fox Sports, emissora que possui os direitos de transmissão da competição.

A Federação Catarinense de Futebol (FCF) decretou luto de 30 dias por causa do acidente. Ao foram ao menos 76 vítimas, incluindo jogadores da Chapecoense. A tragédia ainda provocou a morte do presidente da Federação, Delfim Pádua Peixoto, que era um dos vice-presidentes da CBF.

“A diretoria da Federação Catarinense de Futebol manifesta pesar interminável aos familiares, amigos, cidadãos chapecoenses, catarinenses, brasileiros e a toda comunidade do futebol mundial pela maior tragédia do esporte brasileiro ocorrida com a delegação da filiada Associação Chapecoense de Futebol”, diz a entidade.

O jornalista Juca Kfouri, em seu blog, afirmou que todos os clubes deveriam doar algum jogador promissor para a Chapecoense. Ele ainda sugeriu que os times entrem em campo, na última rodada, com as cores da equipe catarinense.

Realmente, seria bonito e tocante, Juca. 

terça-feira, 29 de novembro de 2016

7 livros eróticos para se ler nas férias

Porque as férias estão chegando e nada melhor do que uma breve lista de livros eróticos para aquecer seus dias ociosos. Ou, por que não?, para abastecer-lhe com um repertório coerente quando for para o lesco-lesco com a moça. Literatura é a vida combinada, ensinou o realista Gustave Flaubert, autor de Madame de Bovary.

Chega de blá, blá, blá e vamos ao que interessa.

Sexus, de Henry Miller – Fenômeno da revolução do amor livre. Leia a trilogia Crucificação encarnada – Sexus, Nexus e Plexus – e nunca mais, como diz Xico Sá, você vai tirar a roupa do mesmo jeito. Garanto.

Delta Vênus, de Anais Nin – Se o cara aí acima não funcionar, encare uma escritora que foi casada com ele. Anais Nin percebeu que Miller tinha o dom da escrita do cacete, e o colocou no caminho da literatura. Caso se interesse, há um filme “Delírios Eróticos – Henry e June”, que conta o relacionamento dos dois, em Paris, no final da década de 1920. A fita foi baseada no diário pessoal da escritora.

A polaquinha, de Danton Trevisan – Equivocou-se quem sempre achou que o “Vampiro de Curitiba” manda bem apenas no conto. Neste romance, você vai se desfazer de sua convicção de que sabe tudo sobre as safadezas de alguém.

Mulheres, de Charles Bukowski – Clássico do dirty old man. Com este título e o velho safado destilando todo seu dom alcoólico, buceteiro e literário, não precisa dizer mais nada. E para completar: a tradução é de Reinaldo Moraes, autor do genial “Pornopopéia”.

Pornopopéia, de Reinaldo Moraes – Tradutor de gente como William Burroughs, Jean Cocteau e Charles Bukowski, o brazuca Reinaldo Moraes chacoalhou o puritanismo que rege a literatura brasileira. Num texto lírico, zoado e instigante, Zeca, o narrador, conta suas bravatas sexuais, repletas de pó, birita e putaria. Bizarro e indispensável.

Tanto faz, de Reinaldo Moraes – Mais um do Reinaldão. Escrito em Paris, num período em que o próprio autor estava curtindo uma bolsa de estudos, Tanto Faz narra peripécias sexuais, alcóolicas e canábicas de Ricardo, protagonista e uma espécie de alter-ego de Reinaldo. Fundamental.

Bonitinha mas Ordinária ou Otto Lara Resende, de Nelson Rodrigues - sacanagem à brasileira com uma pegada suburbana. Nelsão é obrigatório em qualquer seleção de sacanagem literária do planeta.

E você, raro leitor, do que sentiu falta? Deixe seu comentário.

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

O homem, a mulher e a pornografia

Antes de tudo: a pornografia é o erotismo dos outros. Vai que é tua, George Bataille.

Quando nos interessa, a sacanagem é tratada como material puramente erótico, sagrado, bonito e refinado. Se alheio, não passa de mera putaria, para parafrasear Reinaldo Moraes, em Pornopopéia, daquelas que a gente vê aos montes com apenas um clique na internet.

E chega de frescura literária. A não ser, claro, que o amigo insista na leitura de um capítulo da bíblia que deixaria Henry Miller cabisbaixo. Cantares, Cântidos de Salomão ou simplesmente Cântico dos Cânticos.

Esquece, porra.                                                              

Finalmente, vamos à sacanagem propriamente dita. Afinal de contas, essas teorias sobre a diferença entre erotismo e pornografia são de uma frigidez ou de uma paumolescência que deixaria qualquer um com a libido retraída.

Foda hein, tio Reich.

Acabei de descobrir, num exercício de pesquisa para conseguir finalizar esta crônica miserável, que o Brasil e as Filipinas lideram o consumo de vídeos pornôs por parte das mulheres. A pesquisa foi encomendada, pasme, pelos sites especializados “Pornhub” e “Redtube”.

Mas o tesão é tentar entender o barato, mesmo que este cronista bebum e mal-diagramado, apaixonado e escravo das moças nunca chegue sequer nem perto de tal façanha.

Obviamente, o macho é mais visual. Basta um toque para deixá-lo totalmente armado. O cara, na maioria das vezes, sente fetiche com o gozo na boca, com jatos irreais pela face, aquele clichê zoado que ainda não evoluiu desde a selvagem era das produções Buttman.

Se bem que há uns por aí que com apenas um trago num vinho tinto vagabundo e uma bola num beque mais ou menos conseguem jogar a autoestima das damas lá embaixo.

E outros, no ápice da cretinice, não toleram ver uma moça livre e dona de si.  

Falta um Henry Miller, um Bukowski, um Nelsão na vida desses seres desatentos aos sinais femininos. Ah, recomendo, também, a leitura do clássico Ofício de Viver, do Pavese, que cito pela enésima vez neste espaço solitário.

É, vou vagar por ai, amigos, aqui fica o beijo e admiração ao sexo feminino, mas antes teria de firmar Walt Whitman, o poeta que corria atrás dos marinheiros, em Nova Iorque, no século XIX, como testemunha do que tenho doravante a dizer. Com ou sem amor, evidentemente.

Vai lá, Whitman: “Não falta nada, mas faltaria tudo, se faltasse o sexo”.

domingo, 13 de novembro de 2016

Cartilha amorosa

Namorar é bom. Isso é quase tudo que sei sobre o amor. Nunca soube muito bem como me comportar diante da mulher amada – ou qualquer outra mulher que me direcionasse um olhar cintilante e florescente. Os encontros com a dama pretendida eram um trabalho jocoso que transitava entre insegurança e excitação. Do tipo que me fazia pensar: “vou com a minha velha camiseta dos Rolling Stones, ou com uma camisa social que têm os botões todos em plena atividade?”.

Em minha inexperiente cachola de amante aprendiz pululam questões de cunho fervilhante. Por incrível que pareça, sempre surgem dúvidas e perplexidades relacionadas à vestimenta. Quando li Ofício de viver, do Pavese – um misógino doidão que não podia viver sem o charme feminino -, comecei a me atentar pros sinas práticos do corpo delas, como o olhar, por exemplo, a característica e o sinal mais sublime do ser feminino.

Foda mesmo é quando você tá na mesa, a conversa fluindo e, de repente, bate aquele tesão incontrolável. O maço de cigarro vai embora como se fosse a última musica do Let it be. Controlar o desejo sexual, pondero, é uma atitude que requer certa experiência do cara – e alguns diálogos consigo mesmo, digo, com seu desvairado psiquismo.

O que eu devo fazer? Devo cair de boca aqui mesmo? Ou na sala do seu apê, ou do meu apê, que é um lugar sossegado, pois meus velhos estão viajando? Dá pra pitar um du bão e ouvir um The Doors, ou qualquer outro som, cê que manda, gatinha.

Ou, também, a gente pode assistir àquele filme do Godard, sabe? Ah, cê não curte cinema cabeça? É chato, eu sei. Mas podemos, sem problemas, ver uma comédia romântica, estilo Woody Allen. O estilão dele é do caralho, né? Mas vamos evitar os clichês hollywoodianos, que como diz o Jabor, num raro texto em que achei bom, prostituiu Aristóteles, cuja mocinha morre de câncer no final, quando todos os obstáculos do casal pareciam superados.

Esses filmes fazem escorrer algumas lágrimas deste camarada bebum que vos escreve. Outono em Nova Iorque é um desses. Chorei pacas quando o vi. Tava meio bêbado, ainda. Imagine a cena. Dizem que homem que é homem não pode chorar em hipótese alguma. Lorota pra boi-dormir, cara. Homem chora, sim. Outro dia vi o Marcelo Rubens Paiva, numa crônica, falar que chora facilmente. Confesso que ao findar a leitura, senti-me livre como uma criança que joga bola com os amigos, após a aula.

Mas, e depois do filme? Fumaremos um cigarro? Ou vamos direto pro sexo?

Cansei de me perder em questões ridículas como essas. Ao mesmo tempo, intuía, no fundo do meu raso e superficial entendimento dos meandros femininos, que vestir as mais adequadas roupas, adotar rebuscadas maneiras, ver tal e qual filme, ouvir este ou aquele disco, comer neste ou naquele restaurante, beber naquele bar decente ou naquela espelunca, não ia mudar grandes coisas no psicossomatismo da mulher desejada. A química do amor é espetacularmente misteriosa. É um jogo cujo objetivo é ser subjetivo. Deu pra enteder? Porra nenhuma, não. Em todo caso, vale a pena ficar atento as dicas e conversas das amigas mais íntimas.

Dia desses, folheando uma revista feminina na sala de espera do meu médico, topei com uma “consultora sentimental” dando dicas primorosas sobre como um homem deve ser e estar ao lado da dama que ele corteja. A lista, meu amigo, é longa. Deveria tê-la lido alguns anos antes. Evitaria inúmeros transtornos.

Pra começo de conversa, nada de banho de loja antes de encontrar a mina. Nem de negligência indumentária. A regra básica é o meio-termo: arrumadinho, mas sem exibicionismo. E é bom maneirar com os palavrões, porra. Tampouco é recomendável jogar na conversa assuntos cujo entendimento se restringe a quem tem phd em Ciências Sociais, na USP. A puta da realidade fica pra depois – se houver um depois. O papo cabeçudo, quiçá, nem deve ser colocado em pauta, sobre a possibilidade de ela lhe deixar chupando dedo junto de sua dialética marxista.

Até de etiqueta sexual a tal da consultora falava. O recado era basicamente: não vá com sede ao pote, de modo que você deve respeitar o tempo dela, não invente posições que requerem certo malabarismo, não fique bradando sacanagens baratas ao pé do ouvido da moça na hora do lesco-lesco, jamais dispense camisinha, nem diga que é uma lúbrica merda transar com o pau revestido, não a induza a notas positivas sua performance sexual. Não demonstre, jamais, afoiteza em vazar depois da foda. E por aí seguia a preleção da consultora sentimental.

Fiquei, confesso, um pouco deprimido ao ler aquilo tudo, que me soava como um murro bem no meio das minhas convicções machistóides, jorrada, reconheço, aos borbotões na mesa do boteco e, inclusive, saudada e apoiada pelos companheiros de birita.

Por fim, corri os olhos sobre as dicas da consultora, com considerável pressa, pra ver se encontrava alguma coisa em que me sobressaísse.

Achei um, finalmente:

“O homem tem quer ser limpinho, de preferência emanando um discretíssimo perfume masculino à base de madeiras aromáticas.”

Bem, tirando as “madeiras aromáticas”, acho que posso ser considerado, tranquilamente, um cara limpinho. Não dispenso meu básico chuveiro diário. Ainda mais com esse calor surreal que faz em Goiânia. Calor este que deixaria Salvador Dalí cabisbaixo. Agora de uma coisa posso me gabar: as mulheres já me xingaram de tudo e mais um pouco, com e sem razão, mas nunca pintei de fedido. Não que eu tivesse ouvido, pelo menos.

Como cantavam os Beatles: “Something in the way she moves/Attracts me like no other lover”.


sexta-feira, 21 de outubro de 2016

Keroauc, o beat que não desejava ser beat

Escritor desprezava a cultura pop e não queria ser visto como ícone

Jack Keroauc

Ao longo de nove anos, Jean-Louis Lebris de Kerouac, mais conhecido como Jack Keroauc, viajou de Nova Iorque a São Francisco e do México ao Alasca. Quando não estava na estrada, ele passava seus dias com o poeta Allen Ginsberg e com o escritor junkey William Burroughs, autor de Almoço Nu, uma das obras mais importantes da geração beat.

Seus amigos já eram autores famosos nesta época, e Keroauc ainda trabalhava em seu primeiro romance. Pouco tempo depois de lançar On the road, sua oba mais famosa, o autor publicou a novela The subterraneans. Após o lançamento, o texto causou controvérsias pela forma com que relatou os afro-americanos.

Mesmo com todas as críticas que o acompanhavam, o potencial de Keroauc era inegável. Sobre efeitos de benzedrina, ele escreveu The Subterraneans em apenas três dias. Seus textos apresentava uma prosa espontânea, com frases longas, adjetivação empolgada e metáforas bem construídas, sobretudo em On the road.

Refugiado numa cabana nas imediações do Desolation Park, o autor passou dois meses sozinho. Nesse tempo, escreveu 12 novelas, produziu inúmeros haicais e escreveu cartas. De volta a São Francisco, celebrou seu retorno em um clube de jazz, gênero que esteve em sua obra principal.

Geração beat

Considerado um escritor delicado que desprezava a cultura pop, Keroauc é considerado o criador do termo geração beat. Quando On the road foi lançado, nove anos depois de ter escrito o esboço de The Weeks, um trabalho registrado em 36,5 metros de rolo de teletipo, que exigiu densa revisão, acabou sendo leiloado por 2,4 milhões de euros. Em seguida, ele se tornou o autor mais famoso da geração beat.

Na década de 1960, no entanto, Keroauc elegeu a bebida como uma de suas prioridades. E ela o levou a ruína. À época, deu várias entrevistas e provocou má impressão em todas. Declarou que os hippies eram um bando de comunistas. E causou ainda mais espanto quando afirmou que mulheres eram como demônios que deveriam ser mantidas em casa.  Chegou a falar, inclusive, que os negros e judeus eram problemas nacionais. Disse, também, que seu maior sonho era ter sido fuzileiro naval, na Guerra do Vietnã.

Visto como alienado, ele foi à contramão de seus amigos pacifistas, como Allen Ginsberg. Após ser informado que seu amigo, Neal Cassady, que o inspirou a escreveu On the road, se tornou motorista do grupo de escritores Merry Pranksters, Keroauc disse que ele foi sugado pelos hippies e pelo LSD. Cadassy, quando soube da declaração do amigo, afirmou que era triste ver como Keroauc havia desistido de tudo. “Agora ele é apenas um bêbado famoso em seus próprios termos”, frisou Neal.

Vítima de overdose, Neal morreu nas montanhas mexicanas em 4 de fevereiro de 1968. Perto dele havia uma bíblia e cartas antigas de Keroauc e Ginsberg. No mesmo ano, Keroauc finalizou a produção da décima quarta novela biográfica – Vanity Duluz. Na obra, ele recorda que era chamado de Memoru Babe pelks colegas de classe por causa de sua memória privilegiada. “Vivendo novamente em Lowell, sua cidade natal, Keroauc não conseguia se recordar de seus ataques de fúria em decorrência do alcoolismo. Numa noite, ele arremessou uma faca na parede atrás de sua mãe”, relata Steve King.

Morte

Jack Keroauc deixou esse mundo em 21 de outubro de 1969, um ano e sete meses após a morte de Cassady. A causa foi hemorragia gastrointestinal provacada pela cirrose. Mesmo com altos e baixos, ele foi considerado pelo jornal The New York Times como o mais importante escritor moderno desconhecido dos EUA.

“Durante o funeral de Kerouac, o padre escolheu uma passagem bíblica que fala da reflexão de dois discípulos que acompanhavam Jesus até Emaús. ‘Não era como um fogo queimando dentro de nós quando ele falava conosco na estrada?’”, cita King.

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Assim nascem as crônicas

Algumas saem fáceis, como as de Rubem Braga. Outras são um pouco mais difíceis, e a gente tem de suar, digo, passear os dedos pelas teclas, para que a ideia baixe no papel.

Algumas são fáceis como beijos roubados de mulheres difíceis, que nos deixam encabulados, logo nós, homens, seres altamente limitados, cuja vida resume-se a porres no boteco manjado da esquina e comentários mordazes sobre o jogo do Timão.

Algumas, amigo, são crônicas de britadeiras, saem na marra, à força, como se fosse o último cigarro que há em tua carteira de Marlboro. Outras, cara, vão pro papel carregadas de lirismo, mas não podemos esquecer de que algumas, também, estão só o fiapo da narrativa, sem sustança, sem tutano. Aí se tem de apelar pra metalinguagem – a crônica sobre a falta de assunto.

Algumas vem ao mundo pra confundir a audiência, são crônicas-travestidas. Pois é, a gente não tem a mínima ideia se o troço é conto, crônica, ou poema em prosa.

Algumas não têm jeito, não. Ah, elas eram apenas notícia, mas aí vai um tal de Moacyr Silar e as transforma naquele texto precioso, que brilha como a lua numa rua deserta.
Algumas são de costumes, e até ficam como registro histórico, como as do João do Rio – já ouviu falar?

Algumas são aliterações. Outras paradoxos.

Algumas são metáforas. Outras metonímias.

Algumas roubamos dos mestres. Outras recorremos aos livros.

Algumas já nascem crônicas de rua, como arte de chutar tampinhas, como os sem-teto e malacos, como os mestres da sinuca, grande João Antônio, saca? Há, ainda, aquelas que são sobre os marginais, entenda, os poetas marginais, que não tão nem aí pra caceta toda.

Algumas são do louco amor, como aquela do velho Bukowski, o dirty old man da prosa americana, poeta genial e fodido pela vida.

Algumas, criatura sublime, querida menina que me acompanhou por estas linhas trôpegas, são como aquelas, que escrevi quando me viste pela primeira vez e poeticamente me deste.

Algumas são como as do tio Nelson Rodrigues, contam a vida como ela é. Outras são como as de Paulo Mendes Campos, transbordam lirismo, brotinho, maravilhosa, estonteante.

Algumas, cara, a gente nem sabe como começará, pois a coisa não caminha, em hipótese alguma, pra folha em branco, que fica encarando-lhe com olhar furioso.

Algumas nascem daquele diálogo pós-foda, onde os dois estão com um cigarro entre os dedos, conversando sobre a vida.

Algumas saem com um Lou Reed cantando Perfect Day, evocando-lhe múltiplos paraísos libidinais, cujos fluídos corporais ainda ecoam em teu ouvido. Outras ficam no ponto com aquele Fagner, ave María, que cê bota no rádio altas horas da madrugada.

Algumas vão pro papel como o trompete de Miles Davis, em Kind of blue, o clássico do jazz, de 1959, que eleva a energia orgástica de qualquer foda convencional.

Algumas nos emocionam já na primeira frase, como a Última crônica, de Fernando Sabino, que narra a história de uma família pobre, que entra num botequim na gávea, no Rio de Janeiro, e compra uma coca-cola pra comemorar o aniversário do filho.

Algumas são como um disco dos Beatles, leve e cheio de amor. Outras são como um disco dos Stones, rebeldes e pesadas. 

domingo, 16 de outubro de 2016

O Brasil dos gângsteres e o povo

No Brasil dos gângsteres peemedebistas, a ofensiva reacionária traz consequências danosas para o povo. Seria um equivoco atroz acreditar que o impiti irá parar as investigações da Lava-Jato. O governo passa, a polícia continua e a lógica burocrática segue nadando com braçadas voluptuosas, rumo ao tão sonhado neoliberalismo. Mídia, polícia e Judiciário podem divergir em muitas coisas, mas concordam com a trupe que chegara ao poder para defender os interesses da burguesia nacional e internacional, pois o inimigo do povo, José Serra, pretende entregar o pré-sal de mãos beijadas aos gringos.

A burocracia jurídica não pode ser considerada uma classe social, jamais. Organizada e centralizada no mesmo nível hierárquico do exército, ela atua conforme os interesses da elite brasileira e, às vezes, pode, ou não, agir de acordo com quem está no governo. Os burocratas ainda contam com a narrativa dos jornalões, que ludibriam a sociedade com reportagens chapa-branca, repletas de adjetivos nada lúcidos e coerentes. O objetivo do impiti, minha gente, é entregar de bandeja o petróleo às multinacionais.

Infelizmente, os governos petistas não brecaram o capital internacional. Todavia, a aliança entre PMBD e PSDB garante a longo prazo - sem falso otimismo, por favor – a travessia de uma matriz energética para outra. O poeta medíocre, Michel Temer, servirá de instrumento do capital internacional, cujos olhos estão voltados e antenados aos meandros tucanos, sobretudo de Serra, que garganteia na grande mídia falácias neoliberais, de sangrar os tímpanos.

Henrique Meirelles, superministro da fazenda, também é um burocrata da privatização, e que tem como alter-ego, com licença Gilberto Vasconcellos, o vende-pátria, Roberto Campos, que fora adversário da Petrobrás, num tempo não muito distante, no governo FHC. Hoje, o protagonismo de Meirelles será mais nocivo do que no governo Lula, quando ocupou o posto de presidente do Banco Central. Com o impiti, as nações que estão na ponta do capitalismo mundial serão proprietárias do sol e da água doce e, quiçá, do ar, como se cogitou no Peru, na década de 1990. Imagine?

Pois é. Enquanto isso, chego a conclusão de que a justiça é uma senhora altamente volúvel. O jurista do PMDB, o doutô em Constituição, como dele diz Lula, poeta com versos duvidosos, é a anticonstituição em carne e osso. A Carta Magna virou coisa para boi-dormir, sim. Temer não é o todo. Aliás, não é nada. É apenas uma fatia do pão que os gringos possuem, e almejam. Sábio mesmo fora Hugo Chávez, que durante o governo Lula, quando se descobriu o pré-sal, disse que o colega brasileiro estava milionário, com um Oriente Médio no fundo do mar. Chávez avisou: o tal do pré-sal despertaria a ganancia dos imperialistas. Dito e feito.

O golpe que se sacramentou no Brasil têm suas particularidades, típicas de um país que padeceu de três séculos e meio de escravidão, e cuja casa-grande continua de pé, firme e forte. Dilma, na cartada final do impiti, ao invés de colocar sua defesa num Congresso que tanto a desrespeitou, deveria ler a ficha-corrida de seus acusadores, que, naquela ocasião, tinham plena convicção de que eram paladinos da moralidade. Pasme, o que vai ser do futuro?

Pergunta meio óbvia, mas vamos lá. O Brasil têm tradições em golpes. Em 1889, proclamou-se a República com golpe. Getúlio Vargas chegara ao poder, em 1930, por meio de um golpe. E depois dera outro golpe para se perpetuar no Poder e transformar o país numa ditadura, Estado Novo, com inclinações fascistas. Vargas voltara ao poder, em 1954, através do voto popular. Com o lema “o petróleo é nosso”, Vargas, desta vez eleito democraticamente, fizera um governo nacionalista, que visava o capital nacional em detrimento da dinheirama dos gringos.

No final dos anos 50, o que se sucedeu foi a democracia yô-yô-yô que escancarou o País à farra das multinacionais. Os governos depois de Vargas foram o prelúdio para o neoliberalismo de Fernando Collor e Fernando Henrique Cardoso. Em 1964, o desfecho, no entanto, fora totalmente trágico. Os militares, com a ajuda cúmplice da burguesia nacional, chegaram ao poder e levaram o País a uma bad, sem precedentes na história tupiniquim, que durou 20 anos.

Mas o cúmulo foi, em editorial, o jornal dos Marinhos, O Globo, que sucumbe ante a crise que assola a imprensa, sugerir que para as classes mais baixas terem acesso as universidades seria preciso privatizá-las. O Globo, todavia, esqueceu-se de que os pobres teriam uma única opção: bolsas de estudo. Caso contrário, babaú possiblidade de ascender social e intelectualmente. A saída, na visão mimética deles, não é facilitar o acesso de quem vem das escolas públicas, projeto que o PT, tem-se de reconhecer, concretizou nos últimos anos.

Recentemente, o governo lançou uma campanha publicitária cujo lema é “vamos tirar o Brasil do vermelho”. A oligarquia midiática e os burocratas abriram um sorrisão, claro. Lembrei-me do tempo em que se acreditava que os esquerdistas, sobretudo os comunistas, eram devoradores de criancinhas. Ora, ser de esquerda é pretexto para se fomentar discursos repletos de adjetivos equivocados e substantivos inexistentes?

O Brasil, parece, voltara à estaca primária. Multiplicam-se cidadãos com preocupante capacidade de acreditar nas lorotas que são propagadas pelos porta-vozes da casa-grande & senzala. Vocês, senhores que se auto-intitulam nobres, deveriam correr os olhos pelo livrinho homônimo de Gilberto Freyre.

Tenho certeza de apenas uma coisa: sair do vermelho para essa trupe que está no poder é simplesmente entregar o Brasil para os gringos. Queria estar errado, porém atesto com ardor os meandros demente e alucinado do chanceler José Serra, que, certamente, pelo volto direito não chegaria à presidência tão cedo.

Eles, digo, os reacionários, querem transformar o Brasil nos Estados Unidos, mas num Estados Unidos, meu amigo, que já era. Num Estados Unidos onírico e fantasmagórico.

sábado, 15 de outubro de 2016

Bob Dylan, ícone da cultura do século XX



William Blake e Baudelaire, Rimbaud e Walt Whitmann, Allen Ginsberg e Bob Dylan. O que eles têm em comum? A poesia. E mais: transgrediram, como todo bom artista, os costumes e tradições da métrica poética. Mas na última quinta-feira (13), o prêmio Nobel da Literatura entregue ao compositor e cantor Bob Dylan causou espanto entre os romancistas e escritores “de ofício”.

"Se Dylan pode ganhar o Nobel de Literatura, então acho que Stephen King deveria ser eleito para o Hall da Fama do Rock and Roll", ironizou o autor norte-americano Jason Pinter em seu perfil no twitter. "Esse é o Nobel mais sem graça desde que Barack Obama foi premiado por não ser o George W. Bush", provocou o romancista britânico-indiano Hari Kunzru.

Provavelmente, essa não vai ser a última vez que Bob Dylan se envolverá em polêmica relacionada ao conservadorismo artístico. Em meados da década de 1960, ao deixar o violão de lado para segurar guitarras elétricas, Dylan passara a conviver com vaias e, inclusive, incomodou a cantora folk Joan
Baez e outros nomes do gênero ao se apresentar com conjunto de blues elétrico.

Neste período, no Brasil, Elis Regina liderara a criação da “Frente única da MPB” e organizara passeata contra o imperialismo cultural norte-americano, cujo símbolo era a guitarra elétrica. O rock era visto nos circuitos intelectuais como uma simples manifestação adolescente sem conteúdo.

Caetano Veloso e Gilberto Gil, por exemplo, sofreram na pele o preconceito musical por usar, no início do movimento Tropicalista, instrumentos elétricos. Durante turnê nos EUA, em 1966, Dylan chegou a ser chamado de “Judas” por um fã de seu repertório tradicional.

A secretária da Academia Sueca, Sara Danius, comparou Dylan aos poetas William Blake e Arthur Rimbaud, e celebrou a contribuição do músico à cultura. Danius, ainda, lembrou a tradição dos poetas gregos, que Dylan mantém viva.“Eles escreveram textos poéticos para serem apresentados em público, e com Dylan é a mesma coisa. Ainda lemos Homero e Safo, e gostamos até hoje”, afirma.

As letras de Dylan
Como exemplo da genialidade do compositor, Sara citou o disco Blonde on blonde, de 1966, que, de acordo com ela, demonstra brilhantemente a maneira de Dylan pensar e rimar. Aliás, Sara recomenda que para conhecer a obra do artista é necessário começar por esse disco.

Inside the museums, infinity upo on trial

Nos museus, a eternidade vai a julgamento
Voices echo ‘this is waht salvation must be like after a while’
Vozes ecoam ‘é assim que a salvação deve ser, depois de um tempo
But a Mona Lisa musta had the highway blies
Mas Mona Lisa com certeza sentiu a tristeza da Estrada
Visions of johanna” – do disco Blonde on blonde (1966)

A letra de “Tangled Up in Blue” é considerada uma das mais ricas narrativas de Dylan. Ele conta a história de uma mulher que conheceu e ajudou a escapar do ex-marido problemático. A única repetição está no verso que dá nome a canção – o resto da letra se desenrola como se fosse um conto.

Fã e estudioso da obra de Dylan, o escritor e poeta, Fabrício Corsaletti, afirma que Dylan é um “grande poeta narrativo”.“ Suas letras são cheias de sequências rímicas, aliterações e assonâncias, entre outros recursos técnicos. Também é capaz de fazer letras curtas e longas e tem, ao longo de suas obras, muita variação de tons e vozes - o que mostra a sua versatilidade. Mas, além disso, “conta histórias como pouquíssimos sabem fazer”, diz Corsaletti.

“É um tema que todo mundo conhece”, afirma Corsaletti, ao comentar “Idiot Mind”. “Mas a quantidade de coisas que ele cria, o quanto ele é capaz de ir a fundo em coisas que você pensava que conhecesse, é impressionante”. “Ele é um grande criador de imagens poéticas.”

Em “Black Diamond Bay”, de 1976, Dylan constrói a narrativa em fragmentos. “É como se fosse um conto de Júlio Cortázar”, compara Corsaletti.

Prêmio que faltava
Robert Allen Zimmermam nasceu na cidade de Duluth, Minnesota, nos EUA, em 1941. Ganhou o primeiro violão aos 14 aos e começou a se dedicar a música folk e ao blues. Nos anos 1960, descobriu a literatura beat e foi fortemente influenciado pela escrita de Jack Keroauc e Allen Ginsberg, além dos versos de Rimbaud.

Seu primeiro disco foi lançado em 1962. Ao longo de cinco décadas de carreira, Dylan criou 37 álbuns de estúdio. Considerada obra-prima, sua música se focou em questões social, além, claro, de narrar o amor, política e religião. Já escreveu livros, um em dois volumes sobre a própria vida, chamado “Crônicas”, e lançou compilações com suas próprias letras.

Mas o que faltava mesma na galeria de prêmios de Dylan era o Nobel. Ele já fora laureado com Oscar, Globo de Ouro pela canção do filme “Things Have Chaged, da trilha de Garotos Incríveis , em 2001).

Dylan ainda possui um Pulitzer, que é dado a autores relevantes na área de jornalismo e literatura. O Pulitzer veio em 2008 por seu “profundo impacto na música popular e na cultura americana, marcado por composições líricas de força poética extraordinária”.

Link: https://www.nexojornal.com.br/expresso/2016/10/13/O-que-há-de-diferente-em-Bob-Dylan-Nobel-de-Literatura
http://www.cartacapital.com.br/cultura/bob-dylan-o-aedo-moderno

sábado, 8 de outubro de 2016

Divagações ontológicas numa noite qualquer de trabaio

O lugar: um ponto próximo a Cuiabá, que é conhecido como Chapada dos Guimarães. Há cachoeiras correndo no meio das trilhas, um casal de animais caminhando pelo gramado, uma fogueira que iluminava meus pensamentos entre tragos filosóficos de cerveja e divagações ontológicas profundas, que deixariam Schopenhauer, Nietzsche e todos os filósofos do século XIX de cabelo em pé.

Às vezes o frio me ganhava, e eu apelava prum Campo Largo, vinho tinto que custa aproximadamente 15 paus, mas não deixa nada a desejar aos importados, que custam os olhos da cara. Num lugar desses, geralmente levo um monte de coisas pra ler, como Thomas Mann e Dostoievski – autores que todo escritor alardeia que leu, porém nunca correu os olhos pelas frases deles. Ah, deve-se, também, acrescentar Proust – o cara que escreveu Em busca do tempo perdido (este, sim, posso falar que li, numa tradução complicadíssima do poeta Manuel Bandeira.). Na Chapada dos Guimarães, fiquei cinco dias sem celular, nem internet. Saí da patética virtualização, literalmente.

Outra coisa que fiz, em meio a tamanha solidão, porque Zé, meu camarada, estava com sua mulher, foi pensar. Andávamos juntos, contávamos piadas, riamos das coisas banais. A vida parecia ser mais fácil do quando estamos trancafiados num cubículo, ouvindo frases feitas e pensamentos desconexos dos manda-chuvas da sociedade. Não importa. Deixe isto de lado. O fato é que a Chapada dos Guimarães lhe coloca dentro de uma máquina introspectiva.

Pra escrever, por exemplo, é necessário pensar, mesmo que eu ache a maioria das coisas que escrevo um emaranhado de palavras boiando entre metáforas carregadas e metonímias sacanas. Ao pegar um texto meu no dia seguinte, vejo que muito pouco, ou quase nada, houve de pensamento. Deve ser meus critérios literários, cujos autores que me inspiram têm de enxugar uma birita, tecer trocadilhos desvairados e delirantes, além discorrer sobre alguma foda, em algum lugar qualquer. É um critério literário como qualquer outro, simplesmente. Já li muita gente equilibrada. Agora procuro a esbórnia verbalizante, o hedonismo literário e a festa entre as páginas ginsberguianas.

É preciso mergulhar profundamente no pensamento. Ou seja, é preciso pensar o pensamento. Por exemplo: tem-se de entender o que há por trás dos versos do poeta, dos parágrafos do ensaísta, do romancista, do cronista, do crítico literário e musical que destila nas páginas dos jornais suas frases de efeito pra impressionar os leitores ávidos por alguma opinião contundente, sobre o produto cultural do momento.

Escrever é um ofício maluco, amigo.

Pois bem, como tô em busca da minha identidade, que ficou perdida na estrada temporal, ocorreu-me lembrar das crônicas que escrevi pro Diário da Manhã. Na faculdade, os colegas não eram grandes entusiastas dos textos publicados. Eles rotulavam meus escritos como inelegíveis, subjetivos demais e outros adjetivos tão equivocados, quanto idiotas. Sim, idiotas porque a subjetividade é uma das características do ser-humano, é tudo aquilo que forma nossos valores e norteia nossa visão de mundo – que pode ser, ou não, ancorada em livros, filmes, músicas, educação escolar, mas que tem uma forte influencia de sua casa, digo, família.

Outro dia, acho que foi há umas duas, três semanas, eu conversava com Zé sobre os meandros masculinos e bradava frases paveseanas aos borbotões. Invariavelmente, cheguei a conclusão de que eu quero – e preciso – me perder, na vida, no texto, na cama. Me parece intuitivo que temos uma única identidade na vida, e me parece saudável pro psiquismo transgredi-la. É fundamental, pondero, seguir os conselhos de Roberto Freire, que num livrinho porreta, disse que o tesão da vida é você poder fazer várias coisas, e que “sem tesão não há solução”. Freire, um dos maiores intelectuais, criador de uma técnica chamada somatepia, desenvolveu suas habilidades em várias áreas do conhecimento, como a psicanálise, a psicologia, a psiquiatria. Ele, ainda, afirmava que o capitalismo mascara os sentimentos humanos, dando-lhe remédios que controlarão suas emoções, de modo que você consiga dançar a música capitalista, cuja nota musical é uma cifra de 100 paus.

Com o propósito de encontrar minhas identidades, formulei a seguinte questão: o que eu estava fazendo há 15 minutos?

Então, veio-me outra pergunta à mente: por que 15? Por que minutos? Asseguro-lhes, que a indagação, inclusive, não têm quaisquer ligações ou alusões, por mais banal que seja, ao PMDB. E não sei por que pensei em minutos, e não anos. A única coisa que sei que é se trata de uma bizarrice assaz. Eu estava, todavia, apenas pensamento. E como disse Millôr Fernandes livre-pensar é só pensar – e é justamente o que tô tentando fazer agora, com Paraísos Artificiais, Le fleurs du mal e Tanto Faz em minha frente.

Paro o texto. Vou à janela, acendo meu último cigarro e beberico meu café. Dou um trago, volto e coloco Monk´s dream, do pianista Thelonious Monk, a todo volume. Jazz é a música da perdição. Do nada, senti um estranhamento póstumo, como o narrador de Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, que narra sua história de vida, após morrer. Como se vê, a solidão pode resultar em metafísica, facilmente. Basta um sujeito querer pôr no papel seus pensamentos, como são, sem censurá-los.

Veja, portanto, como é o psiquismo. Há 15 minutos eu tinha certeza de que estava vivíssimo, mas bastou poucos instantes pra eu entrar num lampejo existencial satreano. Entre ser e não ser, eu apostaria todas as minhas fichas no ser. E seguiria os preceitos do pai da fenomenologia, Heidegger, e tentaria influenciar e ser influenciado pelo outro. Eu piraria na cama, no texto, na vida e seria acolhido por qualquer rabo de saia que passasse sobre mim com algum sorriso acolhedor estampado nos estonteantes pômulos femininos. Creio ter sido feliz esse momento filosófico-cafeínico-nicotínico.

Satre tinha razão: a imaginação é infinita.

Ok, vamos trabaiá, que eu preciso terminar a porra da pauta do documentário sobre rock goiano. O professor disse que temos de mudá-la para que o filme seja exibido num cinema, aqui de Goiânia. 

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Clássicos da literatura etílica



Tradicionalmente, jornalismo e literatura sempre apoiaram os cotovelos nos balcões dos bares. Mas lembre-se, caro leitor: Bukowski era um bêbado, porém nem todo bêbado é um Bukowski. 

Todo mundo sabe do velho mantra de que álcool faz mal, todavia o que faríamos para suportar a existência sem ele? Jaguar, um dos fundadores do Pasquim, disse que se sentiu traído pelo próprio corpo, quando tomou a decisão de parar de biritar.

“Fui corneado por meu fígado”, afirmou ao Marco Aurélio Canônico, em entrevista à Folha de São Paulo, em 2012. Jaguar, que segundo o jornalista biriteiro, Xico Sá, era um dos maiores beberrões que já viu, cuja energia era algo impressionante de se ver.

Já o Poeta marginal curitibano, Paulo Leminski, não teve a mesma sorte e morreu em decorrência do consumo excessivo de vodca. Outros, meros apreciadores anônimos da melhor invenção russa, também ficaram pelo caminho.

Mestres da prosa americana como Fitzgerald, Hemingway e William Faulkner escreviam com um copo do lado. Eles precisavam de uma garrafa, sobretudo Hemingway que contara suas memórias alcóolicas, em Paris é uma festa.

Aficionado pela orgia verbal e etílica, este que vos escreve adora enxugar algumas cervejas nas horas vagas. E não é de hoje. Desde a adolescência, ele pita e bebe com rara desenvoltura, dizem os amigos, companheiros da maldita vida noturna, digo, boêmia.

Vou lhe falar logo sobre os livros, porque preciso ir ali na esquina comprar uma:

1 - Diário de um jornalista bêbado (L&PM) – História do gonzo no caribe. Mergulhado no humor ácido, característica de Hunter, a obra lhe embriagará logo no primeiro capítulo. O protagonista Paul Kemp diz que “sentia a cerveja correr pelas veias” antes de entrar no avião que o levaria a San Juan.

2 - Pornopopéia (Objetiva) – Em cada esquina reside uma saideira. Reinaldo Moraes, autor do clássico Tanto Faz, obra que mudara a cara da literatura brasileira, descreveu o ciclo dos boêmios, em Pornopopéia, que semanalmente – ou melhor, diariamente – perambulam de bar em bar, atrás de “cerveja e mulher”. Reinaldo domina como poucos a arte de embriagar o leitor com palavras. Fora o trabalho que o escritor faz com a linguagem, repleta de neologismos e gírias. Texto instigante.

3 - Crônicas de um louco amor (L&PM) – Poderia ser qualquer livro do Bukowski, mas acabei escolhendo este por causa do primeiro conto, A mulher mais linda da cidade. Lírico e poético, o texto é um dos melhores do eterno velho safado, o bêbado mor da prosa em língua inglesa.

4 - Paris é uma festa (Bertrand Brasil) – O papa das letras americanas conta suas memórias parisienses neste livro que vai lhe deixar impressionado com a disposição etílica dele. Numa parte da obra, Hemingway descreve uma situação em que estava com Fitzgerald – autor de O grande gatsby. Hemingway, claro, biritou todas e mais um pouco.

5 - Paraísos artificiais: O haxixe, o ópio e o vinho (L&PM) – O poète malditi, Charles Baudelaire, considerado um dos caras que mudaram a forma de escrever poesia, no século XIX, era famoso por frequentar os cafés parisienses e enxugar absinto – a fama verde. Neste livro de ensaios, Baudelaire discorre sobre os efeitos do vinho sobre a percepção do ser-humano, além dos efeitos do ópio e haxixe.

Olhe que nem molhei a palavra, ainda.

Diante dessas obras, convém citar o alter-ego do velho Buk, Henry Chinaski: “É este o problema com a bebida, pensei, enquanto me servia dum copo. Se acontece algo de mau, bebe-se para esquecer; se acontece algo de bom, bebe-se para celebrar, e se nada acontece, bebe-se para que aconteça qualquer coisa”, discorre Chinaski, em Mulheres.

Sem dúvida, tenho de concordar com o cartunista Jaguar, que afirmou que as maiores obras literárias, provavelmente, não existiriam se seus autores não cultuassem o hábito de se embriagar. “A maioria das obras-primas da literatura universal não ­exis­tiria se os seus autores fossem abstêmios”, disse em entrevista à Revista Galileu, em novembro de 2015.

O poetinha, Vinícius de Moraes, outro beberrão notório, coleciona uma das melhores frases sobre bebida. Admirador de um bom scotch, o poetinha escreveu: “O uísque é o melhor amigo do homem, ele é o cachorro engarrafado”.

Lima Barreto, autor do clássico O triste fim de policarpo quaresma, foi indicado por Machado de Assis para ocupar seu posto no antigo jornal do Commercio. Mas o escritor era um biriteiro profissional, e não conseguiu se estabelecer na redação.

Agora acho que vou ali na esquina comprar um goró. É justo, né?

quinta-feira, 29 de setembro de 2016

O livro que fará sua vida parecer um tédio

Capa da edição lançada pela L&PM

Pai do jornalismo gonzo, Hunter Thompson vai fazer sua vida parecer um tédio. Rum: diário de um jornalista bêbado narra as peripécias de Paul Kemp, jornalista que desembarca em San Juan, Porto Rico, para trabalhar no Daily News, um jornal americano que está prestes a fechar. A obra foi traduzida por Daniel Pellizzari e publicada na L&PM.

Ao mostrar um grupo de jornalistas rodeados por um ambiente caótico, Hunter Thompson criou personagens que não são complexos. Logo no início, o protagonista descreve sua sôfrega embriaguez antes de embarcar no avião que o leva ao caribe. “A cerveja corria pelas minhas veias”, conta.

Na cena, o leitor gargalhará com as cômicas e hilárias descrições de Hunter, cuja escrita é altamente feroz, com humor ácido, banhada a cerveja e mergulhada ao rum. “Selvagem, inteligente, furioso e cínico”, diz crítica da Scene.

Segundo romance de Hunter Thompson, Diário de um Jornalista foi escrito durante o período em que ele trabalhava num jornal de San Juan, como repórter. O criador do jornalismo gonzo já tinha, àquela altura, início da década de 1960, dois anos de profissão. Mas ele ainda encarava o ofício com certo romantismo, que foi reconhecido pelo próprio anos depois.

Hunter e Kemp tem em comum o gosto pelo jornalismo, pelo rum e pelas mulheres. Certamente, você vai se deliciar com as tiradas inteligentes e perversas do cara que inventou a forma mais louca, como diz Xico Sá, de se contar uma história. "Porto Rico parece aquela pessoa que você comeu e ainda não saiu debaixo de você", afirma Hunter, que usa e abusa, com elegância e estilo, das metáforas.

O jornalista evocou o legado de Hemingway, mestre da prosa americana, de quem era fã. Ambos mataram-se com um tiro na cabeça. O jornalista aos 68 anos, em 2005. E Hemingway aos 61 anos, em 1961.

Estrelado por Johnny Deep, Diário de um jornalista bêbado chegou às salas de cinema em 2011. Apesar de Deep ser um bom imitador de Hunter, o filme é considerado razoável pela crítica.  

sábado, 24 de setembro de 2016

A hora da demência

Parece um enredo kafkiano, mas não é. O que me intriga, destroça e ofende é o comportamento de muitos que se mostram incapazes de entender o grau da parvoíce atingido pelo Brasil da Casa Grande & da Senzala, cada vez mais próximo da era Medieval. Gilberto Freyre e Florestan Fernandes não compõem a biblioteca deles (o que é uma biblioteca mesmo?).

Não me refiro ao quociente de inteligência a que o País se deixou reduzir, aludo ao quociente de delírio, propagados aos borbotões pelos oligarcas dos três jornalões, desculpe Mino, que mandam e desmandam nas investigações judiciais e ditam os rumos da esfera pública de discussão. Crime de lesa pátria ao exercício do bom jornalismo, e péssimo para a democracia – que respira com ajuda de aparelhos, e onde residem os fundamentos da imprensa.

A denúncia do ex-presidente Lula não passa de uma pregação desvairada e perversa, articulada por barões ensandecidos por impunidade, vibe o larapio engravatado, Romero Jucá, “o astuto” como lhe alcunhou a revista Época.

Inexplicavelmente, Lula virou inimigo público número um, para parafrasear o cineasta Rogério Sganzela, em Bandido da Luz Vermelha. Primeiro, foram as escutas vazadas por Moro, em março deste ano. Agora, o indiciamento por causa do famosíssimo tríplex, no Guarujá.

E Cunha e sua mulher? Ah, deixem eles pra lá, ora pois. O charlatão cristão recebeu apenas 52 milhões de reais, e os transferiu para paraísos fiscais. Temos de lembrar que o cara é amiguíssimo do nobre Temer, pô. Jeito peemedebista de resolver as coisas. Fazer o quê?

Depois do golpe que usava a veste do impeachment, tudo tem sido permitido. Uma farsa tirara o filme Aquarius da corrida pelo Oscar; uma emboscada noturna do Congresso tentara fazer do “Caixa 2” uma atividade primorosa e honrosa e o governo, numa canetada do “poeta”, que deixaria Millôr Fernandes entristecido, reformulou o ensino médio.

Adiós espanhol, Filosofia, Sociologia. Adiós à Educação Física, no país, que até ontem, orgulhava-se das Olimpíadas, mesmo sem ter uma assertiva política esportiva. Dançamos, amigo, no ritmo do polichinelo. Que lindo! Sem falar no famigerado projeto de 12 horas de labuta, que tentam botar goela abaixo da população. Querem que acreditemos que será opcional – a tal da jornada de 12 horas. 

Dá pra crer?

Ponto. Parágrafo. E mais uma cerveja, por favor.

Todo boteco, do sujo ao metido a chique, tem um elenco de Nelson Rodrigues. Nas mesas do Bar da Tia, ponto de discussões acaloradas sobre o contexto político, não se falava de outra coisa, a não ser da prisão estapafúrdia do ex-ministro da Fazenda, Guido Mantega. O mineiro, digo, brasileiro não é menos solidário no câncer, amigo Edgar – personagem da peça Bonitinha, mas ordinária, do Tio Nelson Rodrigues, clássico do teatro brasileiro.

Todo bar tem, ou deve ter, alguém que assobie, Três da madrugada, da Gal Costa, o hino dos famigerados boêmios invertebrados. “Três da madrugada/Quase nada”. Tentarei concertar minhas ressacas morais, políticas e poéticas com poema do mestre do modernismo brasileiro, Oswald de Andrade:

Negatividade histórico-materialista
Uma criança não tem defesa
Nasceu no morro
É fêmea
O que ela vai ser?
O que a sociedade mandar
Será feita a sua vontade
É destino
Das classes
Menos favorecidas

É, meu nobre Oswald, as classes menos favorecidas estão condenadas ao ostracismo mesmo. Quem dera se os gênios que bateram panelas no alto de seus privilégios tivessem conhecimento desse teu poema. Ou, pra pedir demais, fossem capazes de exercitar a empatia – aquele conceito inútil da psicologia, “muito bonito na sala de aula, mas sem sentido algum no mundo real”.

Todo boteco, vai por mim, tem aquela equivocada tese de que todas as instituições da democracia estão funcionando, nada fora da normalidade, tudo o que os gregos gostariam de ter visto.

Agora deixo com Bertold Brecht: “Desconfiai do mais trivial/ na aparência singela/ E examinai, sobretudo, o que parece habitual.”

Não adianta nem disfarçar, os homens de preto jamais prenderam um grandão do outro lado, digo, tucano. Um peessedebista no xilindró, nem no fim dos tempos, seu cronista. Você tá louco?

Mais ou menos assim falaram esses trutas. Ou quase, dependendo das tretas que andam rolando por este Brasil. Relaxa. Bom mesmo é seguir o conselho de Dalton Trevisan, o Vampiro de Curitiba, que num livrinho porreta, diz assim: “O amor é como uma corruíra no jardim — de repente ela canta e muda toda a paisagem.”

A literatura sempre será melhor que a realidade. Não adianta.  

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

“Obama acabou se ornando o grande contemporizador”, diz poeta

O poeta americano, em seu estúdio, com quadros que pintou neste ano

Lawrence Ferlinghetti é um poeta beat. Publicou seu primeiro livro de poemas, Um parque de diversões da cabeça, na década de 1950. Em sua poesia, é comum abordagens de temas políticos e sociais. No início da década de 1980, lançou o romance Amor e revolução, que narra a história de um banqueiro que vive conforme o espírito burguês.

Aos 98 anos, ele se diz “cansado” e “descontente” com Barack Obama. “Obama acabou se ornando o grande contemporizador”, diz. Questionado sobre o candidato à presidência dos EUA, Donald Trump, o poeta comparou-o ao ditador italiano Benito Mussolini. “Ele me lembra Mussolini. Todos acharam que Trump era apenas uma piada, mas seria um desastre ele ser presidente dos EUA”, afirma.

Na infância, Ferlinghetti era um garoto tipicamente americano que virou escoteiro nos subúrbios. Anos depois, desembarcou na Normandia, com as tropas aliadas na Segunda Guerra Mundial, e viajou em vagões de carga com gente desconhecida. Viu a explosão da bomba de Nagasaki – que vitimou aproximadamente 1 milhão de pessoas, no final da Segunda Guerra.

Após o término da Guerra, Ferlinghetti se estabeleceu em San Francisco. Lá, ele abriu a City Lights Book, livraria e editora que fora o epicentro da poesia beat. Ferlinghett, ainda, editou e publicou, em 1958, Howl and Other Poems, de Allen Ginsberg, que foi censurado e tornaram ambos famosos.

Em entrevista à Folha de São Paulo, o escritor disse que o papel do poeta é mostrar o quê o poder esconde. “Por definição o poeta é um inimigo do Estado. Sua função é contar a verdade que é distorcida”, afirma.

Durante a entrevista, Ferlinghetti afirmou que nunca foi entusiasta dos escritor de William Burroughs. “Tive a chance publicar Almoço Nu, mas não gostei do livro. Achei que expressava uma mentalidade de doidão, cheia de morte e ódio”, avalia.

O poeta contou que ainda vive em San Francisco, e guarda seu último livro numa caixa com 78 cadernos pequenos, cujo texto ele chama de “romance-memória.” Na obra, Ferlinghetti narra sua trajetória da infância a velhice.

Café, letras e poesia disponibiliza a entrevista com o poeta que concedida à Folha de São Paulo. Confira:

Folha – O senhor está escrevendo um livro parcialmente autobiográfico. Pode falar mais sobre ele?
Ferlinghetti – Não é só uma autobiografia, eu o chamo de romance-memória e o título é “One Stream of Consciousness”. A parte autobiográfica vai desde quando sou menino e segue até tudo o que eu tenho a dizer como adulto. No fim das contas, sou uma criança que ficou velha e está quase cega. Esse é fim. Não é ficção, é vida real. Não gosto do termo ficção, você diria que “Cem anos de Solidão” é uma ficção?

Naquele tempo o sr. era um anarquista?
O anarquismo sempre foi um ideal, não uma ideologia. Ele nasceu no século XIX, e nessa época o mundo não tinha um terço das pessoas que tem hoje. O anarquismo era possível quando não havia populações tão grandes.
Mas hoje, a não ser que você tenha alguma forma de governo, as pessoas vão acabar matando umas às outras. De qualquer forma, é isso que começa a acontecer.

O sr. parece ter poucas esperanças com soluções políticas coletivas.
O mundo nunca esteve tão ruim. Encontrei Günter Grass após ele ter passado um ano nas favelas de Calcutá. Sua visão do futuro da humanidade era que, em nosso século, países como são conhecidos hoje não vão mais existir; as fronteiras serão mais porosas; e o mundo vai acabar ser tomado por hordas étnicas em busca de comida e abrigo.
Acho que já estamos vendo o começo disso. É claro que do ponto de vista anarquista, pequenas sociedades ou comunas fora do estado talvez venham a ser realizar. E sem grandes nações não haveria guerras mundiais.

Como começou a escrever poesia? Como foi escrever “Um parque de diversões da cabeça?”
Não me dei conta de que eu era poeta, me dei conta de que eu tinha algo a dizer. Eu havia acabo de voltar de Paris, onde vivi por 4 anos, fazendo um doutorado. E vem direto para San Francisco, onde nunca tinha estado.
O que escrevi nos meus primeiros anos foi influenciado por autores franceses. Mas o que acontecia em San Francisco passou a afetar diretamente minha escrita.
Os anos 1950 foram uma época revolucionária. Havia mais oportunidades em São Francisco do que em Nova Iorque, que já estava vendida, onde tudo já havia sido tomado. Em São Francisco você podia fazer qualquer coisa, ainda havia uma última fronteira na América, e era um lugar excelente de se estar.

O contato com a Filosofia Oriental é muito comum em sua obra.
Não sou budista, nem faço meditação. Na verdade, no inverno sou budista, e no verão sou nudista.

Para que serve a poesia hoje em dia?
Por definição o poeta é um inimigo do Estado. Sua função é contar a verdade que é distorcida pelos políticos.

Como você vê a possibilidade de Trump ser presidente?
Ele é muito perigoso. Ele me lembra Mussolini. Todos acham que Trump era apenas uma piada, mas seria um desastre ele ser presidente dos EUA, seria um regime ditatorial. Se ele escrevesse sua própria autobiografia deveria se chamar “Mein Trumf” (trocadilho com “Mein Kemf”, autobiografia de Hitler. Ontem ele fez um discurso em que, pela primeira vez, levanta seu braço direito com o punho fechado. Sempre foi o gesto de luta dos oprimidos. É um sinal muito ruim.

Qual é a sua opinião sobre a administração Obama?
Obama foi uma grande decepção. Mas, desde o principio, eu dizia: você não pode esperar que uma pessoa faça algo revolucionário se ela nunca foi um revolucionário.
Obama gostaria de ser como Abraham Lincoln, esse era seu modelo. O grande conciliador. Mas Obama acabou se ornando o grande contemporizador.
Mas ele fez muitas coisas boas, como a retomada das relações com Cuba. Acho que ele irá para a suprema corte e que seria um grande juiz.

Como era sua relação com o poeta William Burroughs?
Nós publicamos muito pouco de Burroughs, nunca fui um entusiasta de seus primeiros escritos. Tive chance de publicar “Almoço Nu”, mas não gostei do livro. Achei que expressava uma mentalidade de doidão, cheia de morte e ódio.
Burroughs era “el hombre invisible”, veio a livraria mais de uma vez para fazer leituras, mas você via que ele não estava lá. Era como tanto outros velhos doidões, que estão presentes fisicamente, mas não estão presentes de fato. Eu nunca entrei na mesma onda que ele.

Como foi ler “Uivo, o grande poema de Allen Ginsberg, pela primeira?
 Quando você lê um poema como esse, a única coisa que pode pensar é que nunca viu a realidade dessa maneira antes. E esse é o teste, se você está lendo uma grande obra, a impressão é de nunca ter visto um mundo como esse antes. Era uma visão totalmente nova que nunca havia sido expressada na poesia americana.

Como você se sente com 97 anos?

Como eu mostro no meu novo livro, estou quase cego, esperando pelo blecaute final. Não é divertido.

Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2016/09/1809631-estou-quase-cego-esperando-pelo-blecaute-final-diz-ferlinghetti.shtml
http://www.lpm-blog.com.br/?p=27628

Tempos irritantemente modernos

Não sei se você já encontrou a clássica garrafa de rolha, comum nos filmes americanos, com um papel dentro. Pois eu acabo de encontrá-la, e em terra firme, não banhada pelo mar. Foi hoje de manhã, durante minha caminhada até a banca de revistas pra comprar o jornal do dia. Na praça, havia alguns skatistas, ciclistas e malandros (todos com o smartphone em mãos, teclando sem parar) e caçadores de Pokémons – aliás, de onde vem esse cômico acento agudo se o troço é coreano?

Se há algo em comum entre as pessoas hoje, é o fato de todas estarem com o celular em mãos. Eu reproduzia em meu iphone mental Gimme Shelter, dos Rolling Stones, andava distraidamente pelas ruas, sob o calor matutino goianiense, que evaporava a cerveja consumida ontem. Olhei pro lado. Todos estavam “whatsapeando”, caçando os absurdos pokemons (sem acento, gente), vendo pornografia ou sei lá o quê, o aparelho era uma extensão natural, caro Mcluhan, do corpo humano. Só não vi nenhum cachorro ou bebe com smartphone em mãos. Ainda.

Tempos atrás era comum ver pessoas com livro e gibis. Lia-se quando dava, seja no ônibus, no banco das praças e em outros lugares públicos onde a leitura, com um certo conforto, se tornava possível. Depois, os livros foram substituídos por fones de ouvido, iPods e outras caixinhas eletrônicas de música. Hoje, a telinha do smartphone – que, inclusive, tenho um enorme pânico quando a vejo – está repleta de informações pessoais, turbilhão de imagens e passa-tempos loucamente estranhos. Tempos modernos, diria o Chaplin. Tempos irritantemente modernos, desculpe Reinaldão Moraes, atestamos nós – eu e você.

Mas, sossegado, beleza. Entrei na banca de revista, comprei O Popular do dia e pedi um maço de Free vermelho. Foleei o jornal, e resmunguei alguma coisa aleatória. Nestes tempos, abrir um periódico com inclinações conservadoras não é uma tarefa, digamos, nada fácil. Primeiro: o editorial já lhe deixa entristecido. Segundo: as reportagens têm enfoque que beira a cretinice. Terceiro: os articulistas, com raras exceções, redigem sobre o quê interessa a uma determinada classe social – a elite – e pouco se importam com os anseios da maioria da população, que tem de enfrentar os deficientes serviços públicos, como transporte público, todos os dias.

Quem escreve tem de lubrificar o psiquismo com uma boa caminhada, uma boa foda, um bom porre na esquina e com um bom tempo coçando o saco até criar pentelhos na ponta dos dedos. O ócio é o material de um escritor minimamente decente. Desconfie se o cara gargantear afazeres inúteis, como passar boa parte do dia com o smartphone em mãos. Inevitavelmente, penso nos grandes das letras. Penso em no velho bucetudo, Charles Bukowski, penso em William Burroughs, o junkie mor da geração beat, penso em Baudelaire caminhando bêbado pelas ruas de Paris. Penso nos bons, nos mestres, nos que não repetem frases feitas e chavões, mas queimam, queimam como se fossem fogos de artifícios pela noite.

Fechei o jornal. Acendi um cigarro. E percebi que minha mente caminhava mais rápido que meu corpo. Viajava por múltiplos paraísos libidinais – coisas que um cara habitualmente faz ao caminhar pelas ruas de uma cidade – quando dei com o pescoço num galho de arvore que estava solto. Só percebi qual objeto era quando arranhei levemente o pescoço e bati a testa numa garrafa de vinho tinto. Tirei a tampa e abri. Dentro havia um texto, escrito em caneta esferográfica preta, numa letra feminina e com  linguagem culta – como você poderá ver.

Dói, né? Dói ficar pagando o mico do orgasmo que não vem. Às vezes o cara não tem a manha. Ou é rápido demais, ou é lerdo demais. Isso, quando simplesmente não tem graça nenhuma. Sei lá. Sem contar que alguns, muito fresquinhos, têm medo de engravidar. Camisinha pode estourar – e outras paranoias do gênero. Pode, aliás, até não acontecer nada: o cara pode broxar na hora H.  

Desisti do sexo. Tento me valer desta escolha minha todos os dias. Pelo menos eu terei mais tempo para dedicar-me a aprender alemão e ler romances longos. Poderei ir ao supermercado, sair à noite e pensar na vida, nas escolhas que deixei de fazer. Escreverei um romance, que planejo há, mais ou menos, uns 10 anos dez.

Só não sei, e prefiro nem saber se o sexo desistiu de mim. Eis a questão. Aliás, quem tiver achado essa mensagem e quiser vir trocar uma ideia comigo pode me...

Pode me – o quê? O texto morria ali. A mulher, provavelmente, deve ter se enchido dos homens e agora optou por viver uma vida sem, talvez, aquilo que a maioria de nós busca: o prazer corporal, o fluído dos corpos, o gosto da vida, do amor, do desejo. Ela, não. Já deu. Quer um tempo livre, ela com ela.

Peguei o papel, coloquei dentro da garrafa e fui caminhando em direção à minha casa. Senti em frente ao computador, botei Let it Blee, dos Stones e redigi.

Cada coisa que a gente vê e lê por aí, né?