quarta-feira, 4 de maio de 2016

Em casa, Corinthians sofre gols e é eliminado da Libertadores

 No brasileiro, o timão estreia contra o Grêmio, na Arena, em 15 de Maio, às 16h. Foto: corinthians.com.br
Mesmo com gol de Marquinhos Gabriel nos acréscimos, o Corinthians foi eliminado da Libertadores, nesta quarta-feira (4), na Arena, após empatar por 2 a 2, com o Nacional do Uruguai. Esta foi à segunda eliminação do time alvinegro na temporada, que no último dia 23 perdeu nos pênaltis para o Audax, no estadual.

Como houve empate sem gols no jogo de ida, os corintianos precisavam vencer. Mas o gol de Nico López, no começo do jogo, e Romero, no início do segundo tempo, colocaram os uruguaios nas quartas-de-finais da Libertadores.

O gol de Lucca, aos 14 minutos do primeiro tempo, chegou a dar esperanças ao Corinthians. Em seguida, André desperdiçou uma penalidade antes de Marquinhos Gabriel empatar a partida, já nos acréscimos.

No ano passado, a equipe foi superada três vezes em mata-mata. O timão perdeu para o Guarani – PAR (Libertadores), Palmeiras (Estadual) e Santos (Copa do Brasil).

O Jogo

A partida com atraso. Nas arquibancadas, acontecia uma festa que apenas a torcida alvinegra pode proporcionar.  

Mas quem começou melhor o jogo foi o Nacional. Pressionou o Corinthians ao impor forte marcação no meio-de-campo e saídas rápidas para o contra-ataque. O timão tentava se encontrar, mas errava passes. E faltava criatividade no último toque.

Mal na defesa, o Corinthians deu bastante espaço para o Nacional jogar. E, quando a equipe alvinegra subia para o ataque, sempre sobrava espaço para os uruguaios armarem um contra-ataque.

Pelo lado direito, com Fagner e Giovani Augusto, eram que as jogadas corintianas aconteciam. Aos 14 minutos, o gol de Lucca amenizou um pouco a má atuação do escrete de Tite.

O jogo era truncado, lento. Do jeito que o Nacional, com o regulamento embaixo do braço, queria. Quando o Corinthians ia ao ataque, tornava-se vulnerável. No final do primeiro tempo, Cássio salvou cabeçada de Fernandez.

O Corinthians bem que tentou pressionar, no início do segundo tempo. Só que a equipe não contava que o Nacional faria, aos 11 minutos, o segundo gol, com Romero.

No desespero, Tite fez duas substituições. Colocou Danilo, Marquinhos Gabriel e Romero. O time até pressionou o Nacional, mas abusou do chuveirinho na área e facilitou o trabalho da defesa adversária.

No fim, em pênalti mal batido, André desperdiçou a chance de igualar o confronto. Ainda assim, após o lateral Fagner ser expulso, o time alvinegro, finalmente, empatou o confronto, em cobrança de pênalti. Desta vez, o novato Marquinhos Gabriel anotou o tento.

Em seguida, o assoprador de apito decretou o final da partida. 

segunda-feira, 2 de maio de 2016

As coisas são como são

Porra. A birita. Sempre ela, cara. Quando a gente dá o primeiro trago, a coisa caminha a passos largos e efusivos. Vai-se prum destino desconhecido, que mais parece uma catarse dionisíaca. A prudência é uma solteirona chata, sedenta por prazer. Somos as peças do tabuleiro. O galã fala pra mocinha: dê-me as mãos. Eu sou o poeta. Eu sou foda. Eu sou, apenas, um aspirante a artista que já chegou à beira da loucura algumas vezes. Nesses momentos, temos apenas a garrafa e uma mulher – se der sorte. Levo as mãos ao bolso. Não encontro grana. Tenho apenas um cartão de crédito. E ainda falam em loucura. O sujeito que inventara este pequeno objeto de plástico é pirado. Com ele, faz-se compras, paga-se a foda, a breja, o ácido, o fumo. Mas esquecemo-nos de que somos responsáveis pela nossa liberdade. Os versos não são declamados, tampouco as ideias. Não há estilo. Conheci mais caras com estilo nas ruas, nos bares, na esbórnia da vida, do que no banco das faculdades. Hunter Thompson, quando estourou os miolos, tinha estilo. E Ginsberg ao escrever seus delírios nietzschianos. E Walt Whitman ao trepar com marinhos, em Nova Iorque, no século XIX. E Henry Miller que sentira o desespero, na França. Você, garota, tem o paraíso no meio das pernas. As coisas são como são, e não adianta merda nenhuma.

quinta-feira, 28 de abril de 2016

Após empate, timão decide em casa

Tite diz que confronto está em aberto. Foto: Globoesporte.com
O Corinthians empatou, ontem (25) em zero a zero, com o Nacional, em Montevidéu. A equipe alvinegra criou poucas oportunidades de gol, e foi pressionada, à maior parte dos 90 minutos, pelos uruguaios. Na próxima quarta-feira (4), o timão decidirá a vaga às quartas de final, na Arena.

Após a partida, o técnico Tite lamentou o erro de passes e a falta de chances que teve o time. “Foi um jogo difícil, com atmosfera importante. A bola gente teve, mas faltou a escolha do último passe”, diz o treinador. Na véspera da partida, Tite havia dito que a igualdade seria um bom resultado. “O jogo está aberto, temos a consciência que pela atmosfera do jogo contra o Nacional, pela qualidade deles, também nos credenciamos jogando em casa”, afirma.

Segundo Tite, a eliminação para o Audax não afetou a equipe. Para o treinador, apenas com maturidade o time conseguirá superá-la. No passado, o timão caiu no paulista – perdeu para o Palmeiras – e, em seguida, foi eliminado pelo Guarani, na Libertadores. Tite, também, destacou a forte marcação do Nacional. “Faltou o último terço, mas também pela marcação do adversário. No segundo tempo tivemos dificuldade também por dentro”, observou.

O resultado obriga o Corinthians a vencer, na Arena, no próximo dia 4. Qualquer empate sem gols classificará o Nacional. E um novo zero a zero levará a decisão para os pênaltis, complexo da equipe alvinegra na temporada No último final de semana, o timão foi eliminado pela Audax, nas penalidades.

Jogadores

O volante Elias, ao desembarcar em São Paulo, minimizou o empate corintiano, em Montevidéu. Ele ainda afirmou que o Grêmio está em situação complicada, após perder para Rosário Central, em casa. “Situação ruim está o Grêmio, que perdeu em casa de 1 a 0 e agora vai ter que ir lá resolver”, assegura. Elias disse que o timão conseguiu um bom resultado e, ainda alfinetou os jornalistas presentes no aeroporto. “Acho que vocês estão muito preocupados com a gente e esquecendo que outras equipes davam de tudo para ter empatado esse jogo, fora, em 0 a 0”, completa.

Já o goleiro Cássio afirmou que o ideal seria o time empatar com gols, porque o critério de tento fora contaria a favor do Corinthians. “Importante é não perder fora casa, porque é difícil jogar fora de casa. Melhor que ter empatado em 0 a 0 seria ter empatado com gols”, diz. O goleiro, ainda, lembrou que se o Corinthians perdesse em casa, jogaria com pressão a decisão da vaga. “Fizemos um bom resultado, porque se perdêssemos iríamos jogar com muita pressão em casa.”

quarta-feira, 27 de abril de 2016

Se Beatles é rock, Stones é roll

Os Beatles são rock. Os Stones são roll. Os Beatles são bonzinhos. Os Stones são malvados. Em suas letras, os Beatles cantam o amor adolescente. Os Stones o sexo, as drogas, a vida, a liberdade, a libertação, a revolta. Os Beatles são leves e comportados. Os Stones pesados e inquietos. Os Beatles são os garotos de Liverpool. Os Stones são os sujos e marginais; são bluseiros.

Em sua autobiografia, Keith Richards sugeriu a John Lennon que segurasse a guitarra mais embaixo para que pudesse sentir o ‘roll’. “Assim, você só consegue tocar o rock, e não roll”, disse, o velho pirata do rock. Companheiros de piração no final dos anos 60, Richards relata que o beatle tentava o acompanhar nas viagens de ácido, mas sempre passava mal. “Para mim era uma coisa normal, sabe. Eu tomava um pico ou tomava um ácido, e conseguia trabalhar”, relata, em Vida, sua autobiografia.

Ícones da mesma geração, Beatles e Stones tem sonoridade diferente. Os Stones representam a catarse, a libertação, a revolta, o caos. Isso fica evidente em Exile on main street, lançado em 1972, em Paris. O disco mistura elementos de funk, soul, gospel e blues. Anos depois, em entrevista à Rolling Stone, Richards afirmou que algumas músicas deram trabalho para ficar pronta. “O final de Tumbling Dice me confundia”, contou. “Não conseguia fazer aquela virada.”

Os garotos de Liverpool flertaram com o rock experimental em 1966, em Revolver. No ano seguinte, compuseram e gravaram o Sgt Peppers – considerado pelos fãs o melhor disco dos garotos de Liverpool. O álbum influenciou Caetano Veloso e Gilberto Gil, na Tropicália - que buscavam elementos para conceituar o álbum manifesto Tropicália ou Panis et Circencis, lançado em 1967. “Caetano me mostrou o Sgt Peppres, e eu achei sensacional”, disse Gil, no programa ao Som do Vinil, da Tv Globo.

Nesta época, os Stones estavam concentrados em Their satanic majesties request. Lançado em 1967, o trabalho conta com She´s raibow – tida como um dos clássicos dos vovôs do rock. O produtor musical Ezequiel Neves, que descobriu a banda carioca Barão Vermelho, afirmou que os assistiu, em Nova Iorque. 

“Depois do show, virei outra pessoa”, assegurou. Zeca adotara o codinome de ‘Zeca Jagger em alusão a Mick Jagger, uma de suas paixões. Em 1968, Richards e companhia compuseram o hino Street fight man. A música é uma alusão às manifestações que aconteceram em maio de 1968, na Universidade de Sorbonne, na França.

Já os Beatles caminhavam rumo à experimentação. Enquanto os Stones viram que não eram uma banda psicodelica, os Beatles trilharam este rumo. Foram à Índia e criaram um disco exótico: o White Álbum. Em 1969, veio Abbey Road, mas o fim estava perto. Não tinham mais o mesmo pique, nem a vontade de tocar juntos. Ainda assim houve mais um disco: Let it be, composto de sobras de estúdio. Para satirizá-los os Stones, porém gravaram Lei it bleed, no mesmo ano.

Os Beatles acabaram em 1970. Lennon seguiu carreira solo. Cantou os problemas do mundo. E ausentou-se da música por dois anos, em meados da década 70. McCartney também construiu uma bem sucedida carreira solo. Os Stones, por sua vez, estão aí. Setentões, eles ainda correm o mundo tocando rock and roll. E deixam muita gente nova pra trás boquiaberta. 

segunda-feira, 18 de abril de 2016

O mais carioca dos bares goianienses

“Bar recria áurea carioca. Clientes afirmam que espaço é “tranquilo e agradável”

Marcus Vinícius Beck

No chão, pisos Xadrez. Nas paredes retratos de Ângela Rô Rô, Noel Rosa e Miles Davis. O Glória, sem dúvida, é o mais carioca dos botecos goianienses. E não é à toa. A cerveja e o cigarro misturam-se ao clima democrático da casa. Uma hora o samba anima o público. Instantes depois, rock e blues ganham espaço da vez.

Nas segundas-feiras, a casa faz a famosa “dobradinha” – que são dois chopps pelo preço de um. Neste dia, a clientela é predominantemente jovem. O botequim, ainda, produz seu próprio chopp, em parceira com a primeira choperia de Goiânia, a cervejaria Goyaz.

Para o garçom José Martins, chamado pelos clientes de “seu Martins”, a diversidade do público é a marca registrada do Glória. “A diversidade de público e faixa etária é a nossa característica”, diz ele. “Aqui vem gente com os pais, mas o eles bebem chopp e o filho refrigerante”, brinca.

Mas o que leva o Glória a ser conhecido na capital? A gerente e sócia fundadora, Ludmilla, afirmou que o ambiente é propicio à família. Segundo ela, há clientes que antes vinham com os pais e hoje vem com a namorada. “Tinham crianças que acompanhavam os pais. Hoje sentam com a namorada e bebem uma cerveja”, conta.

Aos sábados, a casa ferve feijoada, além de filé à parmegiana. Contudo, o público sempre acaba preferindo os petiscos clássicos, como linguiça portuguesa caseira e sardinha portuguesa. O bar, também, possui várias opções de bebida. Há o mojito, rum com hortelã, bebida preferida do escritor Ernest Hemingway – autor de Adeus às armas.

“Moraes Moreira sentou e bebeu uma cerveja aqui, no meio do povo” diz o publicitário Mateus Correa, que frequenta o Glória desde criança. “O Glória é um espaço tranquilo. A música é boa. E a comida também.”  José Martins disse que a clientela do Glória é fiel. De acordo com ele, "há gente que frequenta aqui todos os dias.”

Espaço de poeta, professor e escritor, o bar foi premiado várias vezes pela Veja Goiânia.


sexta-feira, 15 de abril de 2016

Queremos o mundo, e o queremos agora

Resgatemos os mitos
Cultuemos os deuses
Adoremos os símbolos
O poeta trágico fecha seu livro
E dobra a esquina.

Fardados sádicos
Inventam discursos
Para justificar a barbárie.
Jovens vestem-nas
E vão para o campo de batalha
Sem ideias, mas querendo
Que sejamos presos ao futuro

Ao entrarmos dentro deste teatro insano
Propagamos a sabedoria das ruas, dos loucos, dos desvairados
A porta se abriu
Tudo é infinito
A música nos inflama e nos liberta

Onde está a catarse?
Ela nos foi prometida
Onde está o vinho, a embriaguez, a dança, o teatro, a poesia?
Cadê a revolta?
Dê-nos uma noite de luxuria e prazer

Manzarek toca seu teclado
Blake procura a sabedoria
Ginsberg se perde no emaranhado nietzschiano
Rimbaud fora à África porque não havia nada pra ele aqui
Jim Morrison cantou o fim

Homens e mulheres
Estão de mãos dadas
A vida chama
O sexo chama
O xamã aconselha
A gente quer o mundo
E o quer agora

Costumávamos acreditar nos bons e velhos tempos
Na porta que se abriu, na música do Doors, na poesia de Blake
Costumávamos acreditar no paraíso de bucetas e caralhos
Que libertam e revigoram o mundo
A liberdade existe apenas nos livros de História
Os loucos correm de nossas prisões
Você sabia que somos controlados pela TV?

Poderíamos inventar nossos próprios reinos
Nossos deuses
Nossos mitos
Nossos símbolos
Ao invés de querermos
Decorar as revistas com fotografias frívolas

Donzelas choram suas dúvidas em frente ao televisor
Ah, estou farto de dúvidas e questionamentos
(Estou farto de rostos melancólicos e monótonos
Olhando para mim do televisor)
Eu quero o mundo
E o quero agora

A morte vem sem avisar
Ela simplesmente bate à porta
Mas não como uma garota que levou-lhe à cama
Quando estava embriagado de divagações e contestações poéticas, existenciais e filosóficas
A morte faz-nos de anjos e dá-nos asas onde tínhamos apenas garras
Não há dinheiro, não há vestidos caros, não há bailes cheios de gente empunhando taças de champanhe

“O filme vai começar em cinco segundos”, anunciou a voz
Esperamos a luz apagar, e ouvimos:
“Todos irão aguardar o próximo espetáculo”, disse o ator
Mas não há próximo espetáculo

É o fim, amigo
É o fim, garota
É o fim da catarse, do dionisíaco, do apolíneo
É o fim

segunda-feira, 11 de abril de 2016

Alguma semelhança?

Aluno de Direito da PUC parte para cima de estudante de Jornalismo. No momento do bate-boca, ela segurava seu smartphone. O rapaz acusou-a de “petismo"

Marcelo Filho tem braço ferido em confusão. Foto: Blog Arquivo Direito

“Só podia ser petista”, esbraveja um estudante de Direito, com Vade Mecum em mãos. O sujeito aproximou-se de Maria Luíza, estudante de jornalismo da PUC (Pontifícia Universidade Católica), com o dedo em riste, as veias do pescoço saltadas e agredindo o vernáculo, com todo o chulismo que lhes são marca registrada. Um dos agressores, afinal, era fã de Jair Bolsonaro, a quem denomina como “mito”.

Na última quinta-feira, 31, a Chapa 1 elegeu-se para comandar o C.A (Centro Acadêmico) de Direito. Não havia opositores. E nem o livre debate, fundamental para o exercício da democracia ou o Estado de Direito Democrático, que o agressor verbal e ameaçador se diz reverenciar. A Chapa 2 – que seria a oposição aos “mocinhos” do Direito – foi impugnada por “partidarização”. No tumulto, uma janela foi quebrada e cerca de cinco alunos não podiam sair da sala. De acordo com relatos, eles foram ameaçados.

Por alguns instantes, ficaram trocando olhares. Parecia que a qualquer momento alguém daria o primeiro golpe. E a pancadaria iria instalar-se sobre o pátio do bloco A, do Campus V da PUC. Ao perceber o tumulto, caminhei em direção ao rapaz que empunhava o Vade Mecum. Antes que eu raciocinasse qualquer coisa, um cara com óculos de grau redondo, brinco na orelha, camiseta preta e calça escura encostou a testa ante a do agressor. Raphael Ribeiro, estudante de Jornalismo, estava no cenário do fato. Ele perguntou ao segurança o que havia acontecido. O sujeito não lhe disse nada com nada, apenas enrolou, sem dar nenhuma explicação aceitável.

O integrante da comissão eleitoral reverberou que não houve dinheiro de partido em sua campanha. A baixaria corria solta, sem hora, nem local para acabar. Os gritos e xingamentos pareciam um show à parte, cujos atores eram estudantes, sem respeito, compaixão, amor, sapiência e sabedoria. Ler, apenas, o Vade Mercum e encher os bolsos de dinheiro não ajustará os problemas do Brasil. É preciso usar a lógica, sem fanatismo, muito menos pedantismo elitista.

No último dia 6, essas mesmas pessoas – acostumadas com os privilégios da Casa Grande e Senzala – saíram às ruas para protestar contra a corrupção. Eles reuniram-se, com camisetas verde e amarela da CBF (Confederação Brasileira de Futebol), em frente à Praça Tamandaré, no Setor Oeste, e caminharam à Delegacia da Polícia Federal, no Setor Marista. Gritaram e defenderam a Lava-Jato. "Deixem o Moro fazer seu trabalho", alardearam.

História

“Nosso maior patrimônio é a democracia. Não temos de aceitar o golpe”, afirmou Orlando Afonso, no último dia 11, na Faculdade de Direito da UFG, em ato contra o espírito golpista e reacionário que toma conta do País. Segundo o reitor, tem-se de relembrar o golpe de 1964, articulado pela FIESP (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo) e mídia, que levou João Goulart a renunciar. 

Jango – como era conhecido o então presidente – fizera discurso na Central do Brasil e prometera acelerar as reformas de base. Alguns dias depois, acontecera a Marcha da Família com Deus pela Liberdade que “defendia a democracia”. O desfecho todos conhecem. Foram intermináveis vinte anos de ditadura, com muito sangue derramado e escondido nos porões dos quartéis.

Em 2 de abril de 1964, o Jornal O Globo, em editorial, defendera o governo militar. “Graças à decisão e ao heroísmo das Forças Armadas, que obedientes a seus chefes demonstraram a falta de visão dos que tentavam destruir a hierarquia e a disciplina, o Brasil livrou-se do Governo irresponsável, que insistia em arrastá-lo para rumos contrários à sua vocação e tradições”, afirmava o veículo da família Marinho. Na televisão, a Globo narrava o que interessava ao governo e vendia à sociedade a existência de um milagre econômico. 

Em 1984, no ápice das Diretas Já, a emissora negou-se a cobrir as manifestações a favor da Emenda Dante de Oliveira. A reportagem que fora ao ar no Jornal Nacional mostrava que a população estava reunida na Praça da Sá para comemorar o aniversário da cidade. No impresso, Roberto Marinho nem fez questão de esconder sua veia antidemocrática. Em editorial, ele disse que o melhor ao país era continuar a ditadura. O atual Diretor de Jornalismo da Globo, Ali Kamel, gabou, em A Globo não fez campanha, fez bom jornalismo, da atuação da emissora na cobertura das Diretas Já.

“Não escrevo para elogiar o ‘JN’. Escrevo porque, em uma daquelas chamadas, uma pequena imagem do repórter Ernesto Paglia pode ter contribuído para rechaçar de vez uma das mais graves acusações que o ‘JN’ já sofreu: a de que não cobriu o comício das diretas, na Praça da Sé, em São Paulo. Uma acusação que está, inclusive, em muitos livros”, escreveu.

Contexto político

Ronaldo Caiado sequer foi visto em Goiânia, nas manifestações pró-impeachment. O deputado do DEM (Democratas) prefere ir a São Paulo, na avenida Paulista do que jorrar seu reacionarismo em sua cidade, capital do Estado que sua família mandou e desmandou no início do século XX, e que nomeou Leonino Di Ramos Caiado ao governo do Estado durante a ditadura militar. Os Caiados adoram um autoritarismo, sentem-se confortáveis na tirania. Quanto mais para poucos, melhor.

Em 11 de março, o Partido dos Trabalhadores (PT) e Movimentos Sociais – CUT, MST, Mtst, Fenaj – defenderam a democracia. A mobilização começara na Faculdade de Direito da UFG (Universidade Federal de Goiás) e contara com a presença do Reitor Orlando Afonso, do prefeito Paulo García, da vice-presidenta regional da UNE (União Nacional dos Estudantes) Deborah Evellin, além de líderes de movimentos rurais. Todos tinham na ponta da língua ‘não vai ter golpe’. 

Idolatrado por jovens direitistas, o deputado federal Jair Bolsonaro coleciona sadismo político e intelectual. Ex-militar, o parlamentar, todo ano, exalta o Golpe Civil-Militar de 1964. “O erro da ditadura foi matar, e não torturar”, esbravejou. “Pinochet devia ter matado mais gente”, disse, sobre a ditadura de Augusto Pinochet, uma das mais cruéis do cone sul. O ditador chileno fez do Estádio Nacional do Chile um campo de concentração aos moldes de Auschwitz, na Polônia, que incinerara milhares de judeus.

Eleições do C.A

Em nota, a União Estadual dos Estudantes (UEE) afirmou que repudia as eleições que aconteceram no Centro Acadêmico Clóvis Bevilacqua (CACB). Para a entidade, a comissão eleitoral dirigiu todo o pleito e beneficiou a chapa 1. “Nós, estudantes de Direito da PUC-GO, repudiamos todo o processo de construção da eleição do Centro Acadêmico Clóvis Bevilacqua (CACB), que ocorreu de forma antidemocrática, ilegítima e tendenciosa”, escreveu.

Heitor Soares ficou preso dentro da sala por várias horas. Para ele, os opositores não conseguiram inscreve-se e, por isso, tentaram impedir a eleição. Ele ainda denominou-os de “petista” e disse que não defendem a democracia. “Nesta escola política, além de ensinamentos filosóficos e sociais - que de nada servem, pois não são utilizados - são ensinados também táticas de confronto físico, que nada se aproximam do debate propositivo de ideias”, afirmou. 

O estudante Marcelo Filho sofreu um corte no braço direito e foi encaminhado ao hospital. Heitor Sores, amigo de Marcelo, afirmou que a estrela petista brilha cada vez menos, e os militantes, por isso, partem à violência. “A estrela petista brilha cada vez mais fraca dando-os a motivação necessária para atos unilaterais e violentos”, disse. “Não se enganem por aqueles que dizem lutar pela democracia.”

“A União Estadual dos Estudantes Goiás (UEE-GO) não compactua com a arbitrariedade como foi dirigido o processo eleitoral do CACB e não compactua com a falta de democracia e diálogo com as partes envolvidas. Repudiamos todo e qualquer tipo imposição de dirigentes no Movimento Estudantil”, afirmou Suellem Horácio, vice-presidenta da UEE. 

Reportagem originalmente publicada no Diário da Manhã, no último sábado. 

domingo, 10 de abril de 2016

O mito de Sisifo - Albert Camus

Capa

“Como as grandes obras, os sentimentos mais profundos sempre significam mais do que a própria consciência”. Este é Albert Camus. Este é O mito de Sisifo. Lançada em 1941, a obra é considerada a chave do pensamento de Camus. Ele fala a morte, a vida, a razão. Aliás, Camus desconfia dela. Ate aí tudo bem. Hume a questionara, na Idade Moderna. 

Se não há Deus, se todas as filosofias falham em trazer a felicidade, se a morte é o fim de tudo; qual é o sentido vida? Não pode-se negar a influência e a sutileza de Camus, em O mito de Sisifo. Mesmo sem crer em Deus, o artista consegue trabalhar emoções que tendem ao místico. Um poeta não precisar acreditar em Deus, por exemplo. Ele mostra que há beleza no mundo, por meio de sua obra.

Camus oferece-nos, como resposta, o homem absurdo. E divide-o em três sujeitos: o Don Juan, o Ator e o Conquistador. Todos estão à mercê da derrota final, mas agem para firmar-se. Todos estão condicionados a tarefa da repetição. A Morte de Sisifo é a metáfora que abraça este problema.

Sisifo era o mais astuto dos mortais. Vivia a desafiar os deuses. Enganou a morte por várias vezes. Driblou Tânatos e Hades. Ao morrer, fora considerado um rebelde e fora condenado, pelos deuses, a empurrar uma pedra até o pico da montanha. Toda vez ela caí, Sisifo tem de começar o trabalho de novo.

Por este motivo, a tarefa que envolve estes esforço passou a ser chamada de “trabalho de Sisifo”. A eterna busca do homem por sentido à vida, eis um esforço inútil. Há outros esforços inúteis no mundo, como as teorias que pretendem transformá-lo.

Equivocadamente, denomina-se Camus um autor pessimista.Sua obra tem como pano de fundo o absurdo e uma proximidade com autores que o antecederam, como Dostoievski e Kafka. Outros importantes escritores e dramaturgos que pertenceram a este movimento, conhecido como estética do absurdo, foram Samuel Beckett e Eugene Ionesco.

O homem absurdo, que reside na tradição filosófica do bom costume, não se ilude e tem o fim como certo. Isto traz-lhe a vantagem de não enganar-se. Segundo Camus, ele age como Don Juan:

Para entender bem Don Juan, é preciso referir-nos sempre ao que ele simboliza vulgarmente: o sedutor comum e o mulherengo. Ele é um sedutor comum. Mas com uma diferença: é consciente, e portanto é absurdo. Um sedutor que adquiriu lucidez não mudará por isso. Seduzir é sua condição.


Sobre o ator, Camus disse que ele nos deixará apenas uma fotografia, caso não tenha reconhecimento:

O ator escolheu, portanto, a glória incontável, aquela que se consagra e se experimenta. É ele quem extrai a melhor conclusão desse fato de que, um dia, tudo tem de morrer. Um ator tem sucesso ou não o tem. Um escritor mantém uma esperança mesmo se é desconhecido. Supõe que suas obras testemunharão o que ele foi. O ator nos deixará, no máximo, uma fotografia e nada do que ele era: seus gestos e seus silêncios, seu fôlego estrito ou sua respiração no amor não chegarão até nós. Não ser conhecido dele é não representar e não representar é morrer cem vezes em todos os seres que ele teria animado ou ressuscitado. (É digno de nota ressaltar que ele escreveu sobre o ator do teatro)

E, por último, Camus discorreu sobre O conquistador. Nesta metáfora, ele alardeia que o homem tem de viver seu tempo:

É necessário viver com o tempo e morrer com ele ou se subtrair a ele para uma vida maior. Sei que se pode transigir e que se pode viver no século acreditando no eterno. Isso se chama aceitar. Mas essa palavra me repugna, e eu quero tudo ou nada. Se escolho a ação, não pense que a contemplação me seja como uma terra desconhecida.

Camus considera que autores existencialistas, como Kierkgaard e Satre, fracassaram em tentar resolver o conflito entre o ser humano racional e irracional. 







terça-feira, 5 de abril de 2016

Ode ao amor

O golpe pode até dar certo. Há muita grana da FIESP e a narrativa da grande mídia, com seu lead condenador. Mas nada é tão bom como ver Luís Fernando Veríssimo escrever suas crônicas dominicais no Estadão e O Globo e Juca Kfouri abordar o contexto político utilizando o futebol como metáfora na Folha. A gente pensa que já viveu tudo, que já viu tudo, que já leu tudo, que já escreveu tudo. Ledo engano, caro leitor.

Que bom. Estamos vivos. Estamos com desejo. Estamos com vontade de aprender a entender o desvairado cenário político que assola-nos. Pelo menos assim tinha de ser. Letícia Sabatella, em encontro com a presidenta Dilma Rousseff, na última sexta-feira, disse que não compactua com os ideais do governo petista, e nem por isso apoia o golpismo. “Sou oposição ao seu governo, presidenta Dilma”, afirmou a atriz. Que maravilhosa! Letícia, além de encantar-nos com seus personagens e beleza, ainda interpreta com sensatez o momento político.

Gente raivosa e odiosa comenta as notícias na internet e destila as mais manjadas interpretações dos fatos. Soa-nos estranho ver sensatez e sensibilidade. Kfouri fez isto, na Folha, no último domingo. “Se você acha que vale arriscar só para ver o rival derrotado, lamento dizer que não estamos no mesmo time", escreveu. Com o estilo e delicadeza que lhes são característicos, Kfouri chamou a atenção ao Fla x Flu que toma conta da cena política. Discursos conhecidíssimos. Gritos ensandecidos e histéricos. A velha e conhecida verborragia petista e tucana, confrontam-se diante do preocupante revés político. Quem é a vilã e o mocinho?

Eduardo Cunha, o guru da moral e dos bons costumes, verdadeiro símbolo da ética parlamentar, acelerou o impeachment para escapar de processo que tramita no STF. Ele é acusado de desviar dinheiro para a Suíça, e levá-lo. Este sujeito, cujos ideias são a chantagem e a barganha, vai julgar a presidenta. Dá para acreditar? Além dele, Aécio Neves – que construíra aeroporto em Minas Gerais com dinheiro público – e Ronaldo Caiado – símbolo da Casa Grande - são ferrenhos apoiadores do impeachment. Caiado, dispensa comentários. E Aécio achega-se em Michael Temer com o propósito de arrumar um cargo no possível governo dele.

AMOR

Cada vez menos a gente o vê. Ninguém o prega. Quando mais chulo e raivoso, melhor. Todos falam as mesmas coisas, nos mesmos lugares. Nos pontos de ônibus. Nas universidades. Nos bares. Eles estão aí, ao seu lado, e não tem compaixão alguma. Não entendem de arte. Não sabem que a mulher tem cerca de 8 mil terminações nervosas no clitóris. Não sabem satisfazê-la, nem adorá-la. “Essa Dilma é uma vaca, e tem que sair”, bradam, em plenos pulmões, das sacadas de seus milionários apartamentos. E, no bar, condenam o machismo. Paradoxal, né?

A beleza emociona-me. Sinto-me revigorado ao contemplar um Dali. Ou a assistir um Traffaut. Ah, já que toquei no cara que nascera para filmar o amor, Uma mulher para dois (Jules et Jim, em francês) é um dos filmes mais sensacionais da sétima arte. Verdadeiro ode à fraternidade, à benevolência e ao afeto – tão em falta nestes tempos de repulsa, raiva e ódio. Uma mulher para dois é o que falta para esta galera que saí por aí saudando o militarismo e empunhando teorias fascistas.

Se o lead da grande imprensa mata-nos, o amor liberta-nos. Reich – discípulo de Freud – afirmou que uma boa gozada é libertador e revolucionário. A gente expressa um contentamento ou reivindica algo, ao gozar. Eu queria que gozássemos mais. Que deixássemos a futilidade de lado. E olhássemos para dentro de nós. Avaliássemos nossa existência. Vamos abraçar o mundo, e vamos abraçá-lo agora, como cantou Jim Morrison.

Vivamos o amor. 

terça-feira, 29 de março de 2016

Rock se faz com lirismo e poesia

O Martin Cererê estava lotado. Havia gente por todos os lados. A dualidade Dionisíaca e Apolínea não era encontrada na estética das bandas. Aproximadamente 150 pessoas foram conferir os cinco grupos que se apresentaram na última quinta-feira, 24, no festival Goiânia Rock City.

Quando os Sheena Ye caminharam em direção ao palco, milhares de pessoas dirigiram-se ao teatro. Mandaram o primeiro acorde. Era um punk-rock clássico, com a linha de baixo alta e presente, guitarras com riff pesado e monótono. Pelo menos, os Sheena Ye faziam bem aquilo se propunham: som pesado, com pegadas à lá Punk e Pós-punk inglês.

“Que som repetitivo”, constatei a Gabriel.

“Verdade”, disse ele. “Percebi.”

“Punk, né”, redargui. “Todo Punk é repetitivo.”

“Aham”, respondeu de forma fática.

Levei um cigarro à boca. E sentei num banco que encontrara próximo ao bar. Aproveitei o momento para beber uma cerveja. Quando me dirigi ao balcão, assustei-me com o preço: R$ 5,00 a Heineken. A Kaiser estava mais barata: R$ 3,50. Levei as mãos ao bolso da camisa, e encontrei apenas uma cédula de R$ 10,00.

Aproximei-me do cara que comandava o bar, e disse:

“Cê não tem um Cantina da Serra, não?”

“Vinho?”, respondeu ele, com outra pergunta.

“Sim”, assenti, balançando a cabeça e chamando-o, mentalmente, de “babaca”.

“Não”, sussurrou. “A gente não vende vinho aqui.”

“Porra”, resmunguei. “Me dá uma breja, então.”

“Qual?”, desejou saber.

“Kaiser”, falei.

Retornei à mesa. Acendi outro cigarro. E esperei alguns minutos. Percebi um fluxo de pessoas indo em direção ao teatro para ver o próximo show. Eram os Chimpanzés de Gaveta, cuja apresentação estava marcada às 21h. Fiquei sentado no bar, bebericando meu cantil de uísque e observando aquele movimento.

“E essa nova banda?”, questionou Gabriel.

“Sei lá, bicho”, respondi.

Entre tragos e tragadas, um sujeito com cabelos ao estilo Jimi Hendrix, que vestia uma camiseta do The Wall do Floyd, e outras pessoas chegaram à mesa. E, logo, tiraram um baralho do bolso. Ficamos jogando truco e conversa fora. De repente, sumiram. Provavelmente, foram ver o show.

Uma garota atraente, com longos e sinuosos cabelos loiros, perguntou se podia pegar a cadeira de nossa mesa.

"Pode", indagou, apontando para a cadeira.

“Não tem ninguém aqui, não”, afirmei.

“Ah, tá”, disse. “Obrigada”, agradeceu, linda e educadamente.

Ela abrira um sorriso. Lábios beijáveis e lascivos, pensei. Ruminei uma piada, e desisti. Pareceu-me infeliz e inoportuna para o momento. Mais uma vez, beberiquei meu uísque.  Eu encontrava-me levemente embriagado, já. Por acaso, lembrei-me de um verso de Charles Baudelaire: “Embriagar-se é preciso,.” Mais de um século depois, este versos fora musicado pelo Barão Vermelho e lançado no álbum homônimo, de 2004.

Expoente da poesia em prosa do século XIX, o francês escrevera um livro de ensaios, intitulado Paraísos artificiais: O haxixe, o ópio e o vinho. Além de ser um consumidor assíduo de absinto – a fada verde – e outros entorpecentes, Baudelaire mudara a estética da poesia moderna. Simbolista, o poeta francês Paul Velary disse que Flores do Mal está ausente de engajamento político, mas encontram-se música e sensualidade na obra. “As descrições, escassas, são sempre densas de significado. Mas no livro tudo é fascinação, música, sensualidade abstrata e poderosa”, discorreu o poeta e colga de Baudelaire.

Peguei meu velho e precário LG, e olhei a hora.  Era 22h e 30 mim. Daqui trinta minutos, Overfuzz subirá ao palco para mostrar à plateia seu trabalho. Bem, dizem que o som dos caras é interessante. Sinceramente, nem estou a fim de vê-los.

“Aonde é o banheiro?”, perguntei a Gabriel.

“Só ir reto”, disse ele.

Segui na direção indicada. Andei um pouco, e encontrei-o. Acendi um cigarro. Fumei-o e prestei atenção na conversa alheia.

“A próxima banda é do satã”, alardeou um sujeito, cuja veste o denunciara.

Ressonância Mórfica vai subir ao palco à 0h. Era 23h e 57 min.

Voltei à mesa. Já era mais de 0h, e não encontrei ninguém. Fui para dentro do teatro. Realmente, o som era pesado. Parecia que a estrutura iria desabar. E o cara gritava ao microfone umas coisas muito esquisitas. Na verdade, eu nem o entendia. E os fãs dele aparentavam serem todos estranhos, com feição fechada e postura neonazista. Talvez eu tivesse em algum devaneio alcoólico e canábico. Sem compaixão, fui praticamente empurrado para dentro do teatro para “prestigiá-los”. Confesso que quase mandei um cara ir à merda, mas achei melhor manter-me em silêncio, após fitá-lo.

Saí de lá. Respirei ar puro. Três caras conversavam sobre rock and roll. Um deles disse que os Stones eram a melhor banda do mundo. Inteirei-me da conversa, e escutei:

“Stones é foda, sim”, disse um sujeito, que estava com uma camiseta cuja capa era o LP L.A Woman do Doors.

“Meu”, eu disse. “Essa tua camiseta é, simplesmente, do caralho.”

“Massa, né”, disse.

“Sim”, respondi. “Sou fã de Doors. Morrison era um vocalista do caralho.”

“Ele tinha uma puta presença de palco”, emendou.

“Não só presença de palco”, alardeei, embriagado e tentando manter-me em pé. “Morrison era poeta, cineasta. O Doors, na verdade, misturou uma porrada de elementos que os transformaram em uma das bandas mais fodas da história do rock”, discorri.

“E ele era fã de William Blake”, continuou o cara, em sua retórica igualmente bêbada e roqueira.

“E de Rimbaud, Artuad e outros gênios”, completei.

1h.

Os Mechanics de Goiânia, que segundo o vocalista é “uma banda com nome e sobrenome”, já estavam no palco.

Entrei no teatro.

Sentei no lugar mais escondido que encontrei.

Eles tocavam um som que se aproximava do hard rock americano de AC/DC e Aerosmith. Os riffs eram sincronizados. E os guitarristas, também. A música dos Mechanics tinha seus atributos. Quando acabou a passagem de som, o vocalista disse, em tom efusivo: “Só canto se tiver mais cerveja”. E eu vociferei um “vá toma no cu, seu filha da puta”.

“Não existe rock and roll sem sangue, e vocês devem saber disso”, gritou o vocalista, bêbado, confirmando minha premonição de que o ambiente era, de fato, meio esquisito. Fiquei com medo da verborragia desse demente. Até a aparência dele era assustadora. Cabelo meio grisalho. Camisa social preta, que escondia a barriga de cerveja.

Parei em frente ao Martim. Comprei um latão de Antarctica e dei um longo gole.

“Me vê um palheiro”, pedi para um senhor, que estava na porta.

Ele os esticou. Entreguei-lhe uma moeda de R$1. Agradeci e fui embora.  

Rock não se faz com sangue. Rock se faz com poesia e lirismo. Doors está aí e não me deixa mentir. 

terça-feira, 22 de março de 2016

Delírios literários ao longo do barítono de Jim Morrison

Entrei. Eu não fazia a mínima ideia de como levantar o banco. Mercedes-Benz. Pensei na canção de Janis, escrita por Michel McClure. O Banco era de couro. Preto cintilante. Pra variar, o suor escorria em minha face. Nada pra fazer. Nada pra dizer. Os homens passam a maior parte do tempo apenas executando tarefas, sem pensar. Nessas horas, fumar um baseado ajuda a colocar os pensamentos em ordem. Beber também. Como escreveu William James - o sujeito que conceituara o fluxo de consciência, imortalizado na prosa de James Joyce, Marcel Proust e Jack Kerouac: “A sobriedade diminui, discrimina e diz não; a embriaguez expande, une, e diz sim.”

Puta frase. William James – um doidão que tornou-se filosofo e psicólogo. O cara sacudiu a arte, sobretudo a literatura. Os bons são fodas, e morrem cedo. “Mesmo que o preferido dos deuses morra cedo, eles sobrevivem eternamente”, filosofou Nietzsche, em A origem da tragédia no principio da música.

Tô viajando, já.

Os vidros estavam abertos, e eu sentia o vento bater em meu rosto. E também, o incomodo sonoro. Um funk carioca triplicava o calor. E, claro, o humor se transformara rapidamente. Pensei em Hunter Thompson – o pai do jornalismo gonzo: “A música certa faz um carro sem gasolina se mover à noite.”

Thompson saiba das coisas.

“Abaixe a música, por favor”, pediu Gabriel.

“Não”, respondeu o motorista. “Nesse carro tem de ouvir funk ou sertanejo.”

Meneei minha cabeça, expressando desconforto e negatividade.

O motorista e os outros dois eram calouros de Direito, na PUC. Percebi isso, quando fitei um livrão de História do Direito na mão de um dos passageiros. Devia ter umas 400 páginas. “Cursa direito, tem carrão e cérebro minúsculo”, pensei.

Alguém comentou algo. Nem prestei atenção. Quero fumar. Quero beber. Quero meter. Quero declamar e escrever poemas. Quero, simplesmente, viver. Livre e solto. Sem regras, nem compromisso. Eu e minha mochila e alguns tostões e livros e garrafas e garotas. Pra que uma Mercedes de R$ 200 mil? À merda.

Não é você que a controla, e sim ela te controla.

O som balançava minha mente. E bagunçava meus pensamentos. Num momento, pensei que iria esquecer as coisas básicas da vida, como beber uma breja, ler um jornal e redigir um textão de putaria lírica. Psique peniana essa minha, meu. Ah, porra. Nem sei por que aceitei essa merda de carona, cara. Eu podia apanhar o coletivo, como todos os dias. Desde que entrei na faculdade, apanho-o. Qual seria o problema de apanhá-lo hoje?

Pensei na grana mesmo, bicho. Lembrei-me de uma cena de On the road, em que Keroauc e Dean abastecem o carro sem pagar pelo combustível. A mãe do vagabundo beat estava presente e ela ficara espantada: “Como diz o Presidente Truman: precisamos reduzir os custos da vida.”

“Nem dá pra correr, caralho”, esbravejou o motorista, cujo nome nem dei o trabalho de perguntar.

“É claro, né”, disse Gabriel. “Tá cheio de carro na rua.”

Gabriel até que era sensato.

“Cê vai ficar aonde?”, perguntou ele.

“Na Praça Universitária”, sussurrei.

“Aonde?”

“NA PRAÇA UNIVERSITÁRIA”, reverberei, desta vez, com veemência.

“É que o som tá alto”, justificou.

Optei pelo célebre e louvável laconismo.

Gabriel dera uma risada. Também ri, cortesmente. E segui olhando pra rua. Paramos no semáforo e um morador de rua estava deitado embaixo de uma árvore. Fiquei com meus olhos vibrados nele. Tenho apreço pelos excluídos, pelos que não gozam de uma Mercedes de R$ 200 mil, pelos que sabem que o mínimo é o excessivo. Creio que ninguém teve a sensibilidade de perceber o que se passava no outro lado da rua. Um morador de rua, sem grana, sem vergonha estava deitado às 12h. Burocratas destilam, às 12h, suas frases clichês e arrogantes, dentro de seus ternos de R$ 2,000.

Uns têm uma Mercedez. Outros um Gol. Outros, a rua. Então, digo-lhes: viva o dionisíaco e o apolíneo. A verdadeira arte necessita destes elementos. A arte necessita da psicologia do poeta trágico.

"Valeu", agradeci.

"Por nada", disse o motorista.

Delírios literários ao longo do barítono de Jim Morrison.

domingo, 20 de março de 2016

“Hoje você ouve um sertanejo que não é mais sertanejo, que não é mais samba”, diz sambista

Beth Carvalho em seu apartamento. Foto: Eduardo Zappia

“Essa coisa com Lula me preocupada”, diz a cantora e compositora Beth Carvalho, em entrevista ao EL País. Nascida em 5 de julho de 1946, ela mora em condomínio de alto padrão na zona sul do Rio de Janeiro. Vê, corriqueiramente, seus vizinhos bateram panela quando a presidente Dilma aparece em rede nacional. Um deles durante os panelaços olha em sua direção. E ela acha engraçado. Beth Carvalho é o samba. É a bossa-nova. É um traço da cultura brasileira. “Hoje você ouve um sertanejo que não é mais sertanejo, que não é mais samba.”

A cantora conversou com o EL País três dias depois de a Polícia Federal (PF) levar o ex-presidente Lula para depor, no último dia 4 de deste mês. Ela chamou a atenção para supostas conspirações dos EUA. Contudo, o centro do diálogo fora o samba. “O samba é do povo, que sofre, que sabe o que é fome”, afirma. Ela disse que o gênero é de esquerda. “O samba é da esquerda, do povo, os compositores são do povo.”

Questionada imposição de uma nova cultura, ela acredita que fora colocado hip-hop e rap nas favelas. E, com isso, parou-se de ouvir gêneros brasileiros, como o samba. “Hoje você não vê uma criança tocando tamborim, hoje você vê uma criança vestida de garoto americano, com a calça bem baixa, capuz, uma roupa que não tem nada a ver com o clima brasileiro”, diz. Beth ainda afirmou que a direita tentou ridicularizar esta declaração, mas ,como boa esquerdista que é, ela não está nem aí.

Seu último álbum, Nosso samba tá na rua, fora lançado em 2011. Recentemente, a cantora comemorou 55 anos de carreira. E teve de amargar um ano no hospital. A jornalista Maria Martín relatou que Beth, durante a entrevista, estava em cadeira de rodas – ela ainda recupera-se de grave problema na coluna.

A entrevista foi publicada neste sábado, 19, no site do EL País.

Pergunta. O que a Beth Carvalho comemora no aniversário dos 100 anos do samba?

Resposta. Comemoro os cem anos do samba e os 50, agora 51, da minha carreira. Houve um evolução grande, sobretudo. A gravação ficou muito melhor. Antigamente o som do samba era mal gravado, tecnicamente falando. As gravadoras pensavam que era botar um bando de negros lá dentro e diziam: “vamos lá, batuca aí”. As pessoas não tinham noção de que você tem que ter um microfone para o surdo, tem que ter um microfone para o tam tam, entendeu? A coisa era mal tratada pelas gravadoras. Elas não entendiam o samba. Eu,Martinho da Vila, nossos produtores, os técnicos, fomos responsáveis por essa melhora.

P. Faltava profissionalização das produtoras ou havia um certo desprezo pelo samba?

R. Tinham desprezo também. Como tudo o que é popular é alvo de desprezo. Mas tiveram que engolir, tiveram que nos engolir, porque nós fomos durante muito tempo os tentáculos das gravadoras. Podia ter disco de elite, que não vendiam nada, por causa do samba. É a mesma relação que vemos no povo brasileiro, que sustenta este país com seu trabalho, é a mesma coisa. O samba é uma coisa da esquerda, do povo, os compositores são do povo, que sofre, que sabe o que é a fome, então eu me sinto muito honrada de formar parte disso tudo.

P. O samba é um gênero machista?

R. O Brasil é machista, né? Não é só a música, mas está melhorando muito. Dona Ivone Lara se tornou a primeira mulher a fazer samba-enredo numa escola. Antes não tinha nenhuma possibilidade de mulher fazer. E, mesmo assim, ela fez sem aparecer, só depois que o nome dela foi destacado. Da minha parte também houve uma revolução. Nos anos 70, eu, Clara [Nunes] e Alcione [Nazareth] fomos as primeiras mulheres a vender muitos discos. A gente quebrou um tabu que existia. Nós fizemos esse sucesso todo e lançamos novos compositores. Eu tinha moral na produtora, podia lançar os novos e resgatar os velhos.

P. Sua filha seguiu seus passos e faz parte de uma nova geração de talentos. O que estão trazendo as novas gerações à música brasileira?

R. Está muito boa a nova geração. A Luana é compositora, sabe tudo de samba porque viveu a vida inteira comigo, mas ela não é sambista. A nova geração, e no caso da Luana, traz coisas mais sofisticadas. Mais minimalista. Não é uma música tão popular como a que eu faço, mas tem chance de acontecer.

P. Como você, defensora do popular, vê essas músicas mais sofisticadas, mais minimalistas?

R. Eu também pertenci à bossa nova durante muito tempo. A bossa nova é um braço do samba que tem sua sofisticação também. Não é que o samba não seja sofisticado, mas.... a bossa nova louvou a Zona Sul, não se falava em subúrbio, não se falava em Zona Norte. Eu sempre fui da Zona Sul, então me emocionava com aquelas músicas porque tinham a ver comigo, só que não me bastavam. Eu também quando ouvia um samba de raiz, um samba do Cartola ou do Nelson [Cavaquinho] eu me emocionava tanto quanto. Ou mais.

P. Você sente saudades da época do Cartola e do Nelson?

R. Sinto. Nelson para mim era o maior de todos. Eles sofreram muito, eram pobres, melhoraram, modéstia à parte, comigo. Muita gente pensava que o Cartola estava morto e ele veio à tona e a minha gravadora contratou ele, e passou a ter um disco por ano. Com Nelson Cavaquinho foi a mesma coisa. Não ficaram ricos, mas a vida deles melhorou bastante. Que é o justo, né?

P. Você voltou a encontrar talentos parecidos?

R. Parecidos. Mas todos da velha guarda. Há jovens bons, mas não com a capacidade deles. Mas eu sou pelo jovem, viu? Tanto que eu lancei muita gente nova. Se não o samba ia parar, né? Como vai seguir o samba então, sem inovação? Não podemos parar, por exemplo, no Paulinho da Viola, que é maravilhoso. Depois do Paulinho tem Jorge Aragão, Arlindo Cruz, Sombrinha, Zeca Pagodinho, Wanderley Monteiro... E agora já tem outra geração que é a do Alfredo Del-Penho, Sérgio Marques, Teresa Cristina... Tem muita gente aí.

P. Sua escola de samba, a Mangueira, foi campeã do desfile neste ano. O que significou isso para você?

R. Foi lindo, estávamos há tantos anos sem ganhar. A Mangueira mereceu, a [Maria] Bethânia também. O samba pegou, né? Foi o samba mais cantado da Avenida, isso já faz ganhar. Estava pensando quanto as escolas ficaram diferentes. As escolas de samba eram um lugar onde os compositores tinham sua própria ala, davam o sangue pela escola e durante o ano todo eles cantavam seus sambas. Eu cansei de gravar músicas indo na quadra, ouvindo o compositor cantando... A coisa foi mudando, acabaram com o ala dos compositores, desmotivaram eles... Já perdeu todo o sentido a escola de samba. É um absurdo não dar moral para o compositor. Os enredos eram sobre a história do Brasil, que era uma obrigação que o Getúlio Vargas impôs pelo bem da nação, e a gente estudava através do samba-enredo. Mas agora mandam os patrocinadores. Ter uma escola patrocinada por uma marca de iogurte é brincadeira. Falar sobre iogurte! Veja bem! O que que é isso? Deturparam tudo. Cartola deve estar se mexendo lá...

P. O que há de verdade nessas histórias que contam sobre o mundo das escolas ser a maior lavagem de dinheiro transmitida pela televisão?

R. Eu não posso te falar isso porque eu não sei. Mas... Tudo é possível. O [Leonel] Brizola fez a maior homenagem ao samba que foi o Sambódromo. Porque o Sambódromo era também uma lavagem de dinheiro danada, porque era a arquibancada todo ano montada. Imagina a grana que era isso. Ele não só fez um lugar fixo, como transformou em escola, em CIEP [Centro Integrado de Educação Pública] durante o ano inteiro. Havia horário integral, as crianças tinham quatro refeições, saíam da escola de banho tomado… Acabaram com isso. Hoje nossa geração deveria ser de CIEP’s e não de garotos de rua como está agora.

P. Em uma ocasião, anos atrás, você disse que a CIA pretendia acabar com o samba. O que você quis dizer?

R. A CIA está em tudo lugar, no mundo inteiro. Para dominar um país você tem que acabar com a cultura dele, essa é a teoria dos fascistas, dos Estados Unidos, principalmente. E, em termos de música, a coisa mais forte do Brasil é o samba. Melhor, é o forró, o sertanejo, o samba e o chorinho. Eles começaram a deturpar isso tudo. Hoje você ouve um sertanejo ou um samba que não é mais sertanejo, que não é mais samba.

P. Mas qual é a relação com a CIA?

R. Ela colocou o rap, o hip-hop nas favelas. Hoje você não vê uma criança tocando tamborim, hoje você vê uma criança vestida de garoto americano, com a calça bem baixa, capuz, uma roupa que não tem nada a ver com o clima brasileiro, aliás. E muitas igrejas evangélicas que são contra o samba, são contra o candomblé, contra a macumba, contra o espiritismo. E o samba vem disso. Não conseguiram acabar com essa nossa riqueza, mas a intenção é essa: um país que perde sua cultura é um país dominado. A CIA faz esse papel em todos os lugares do mundo. É claro que a direita ridicularizou essa minha declaração, mas eu continuo dando.
P. Você acha que antes as opiniões eram mais respeitadas?

R. Acho. Está muito desrespeitoso, muito violento, está uma coisa assustadora. Eles [a direita] não se conformam com perder o poder. Há discursos homofóbicos, racistas, uma coisa que a gente não via antes dessa maneira. Talvez poderia ser igual que hoje, mas a gente antes não percebia que era tanto.

P. O que você opina do chamado do Lula para sair às ruas? Isso não promove ainda mais tensão?

R. Tem que ser. É preciso lutar. Veja o que fizeram com o Chico Buarque.

P. Você gostaria que a elite musical do país fosse mais engajada politicamente?

R. Sim. Mas estão oprimidos. Tem uns que são alienados mesmo, outros que temem portas fechadas. Mas a gente vai ganhar essa luta. 2018, Lula lá.

P. Você tem várias referências ao Che Guevara e Fidel Castro na sua casa. Como você avalia o processo de abertura que está vivendo a ilha?

R. Acho justo, pelo amor de Deus. Cuba é um exemplo para a humanidade. É engraçado quando você vê que há shows em solidariedade a Cuba... Cuba é quem tem sido solidária com o mundo inteiro, inclusive com os Estados Unidos!

P. Imagino que você já deve ter visto que em Cuba há pessoas que passam fome?

R. Não vi. Estão melhores que nós, com certeza. Lá não tem miséria, não. Mas não podemos esquecer que eles são uma ilha, o embargou piorou... Não dá para fazer milagre, mas todos estão na escola, não tem uma criança na rua.

P. Falando de Lula o que te preocupa?

R. É um absurdo o que esta acontecendo. É inconstitucional. É um tiro no pé da direita, porque o povo se comoveu com isso. Então vai ter povo na rua. Se me chamarem, e eu puder, eu vou também. Me preocupa a inconstitucionalidade. Como é que faz uma coisa dessas? Não podem te levar da tua casa com a Polícia Federal sem te comunicar. Foi arbitrário. Eu não temo as investigações, Lula é inocente.

P. E o Rio dos Jogos Olímpicos, como você está vendo a preparação do evento e o futuro legado?

R. Aff! Estão fazendo de tudo para derrubar o Rio de Janeiro, né? Botaram até mosquito aqui dentro. Isso é guerra bacteriana, na minha opinião. Os Estados Unidos são capazes de tudo. Eles fazem isso na água de Cuba, botam dengue aí.

P. Você acha que o Zika é....

R. É para desmoralizar o Brasil. O pior é que a gente fica com a porra do mosquito aqui, né? Eles querem a Olimpíada para eles, não para um país como o nosso. É uma briga eterna. O legado estou achando bom, a população vai poder aproveitar algumas coisas, só não pode tirar pobres do seu lugar. Tira, mas coloca em outro lugar.


quarta-feira, 16 de março de 2016

O antes e o depois de Cabeça Dinossauro



Há 30 anos, os Titãs lançavam Cabeça Dinossauro. O disco revolucionou o rock nacional com letras fortes e estética punk. “Com Cabeça Dinossauro os Titãs encontram uma maneira objetiva”, disse Paulo Miklos. “Devo confessar que quando falamos em fazer um arranjo ou uma canção à la Titãs, é no Cabeça Dinossauro que pensamos”, afirmou Sérgio Britto, autor de Homem Primata, Aa Uu, Porrada e Bichos Escritos. De fato, o Cabeça está presente na coleção de vinil de todo fã de rock nacional que se prese. No primeiro acorde do disco se constata o porquê o álbum entrou para a história da música nacional.

Em 1986, Cabeça Dinossauro trouxe ao rock nacional temas polêmicos, de uma forma direta e simples. Os integrantes procuram Liminha, que deu uma aula de rock ao grupo. À época, ele era responsável pelos maiores sucessos da indústria fonográfica, além de ter sido integrante de Os Mutantes, na década anterior. Liminha mostrou como um produtor pode mudar a imagem de uma banda, sem fazê-la perder a identidade. Assim, a pegada new wave, presente nos dois primeiros trabalhos do grupo, foi substituída pela linguagem punk.

Em entrevista à Folha de São Paulo, Sérgio Britto reconheceu o trabalho do produtor. “O Liminha foi o responsável pela realização do nosso maior sonho: gravar com qualidade, liberdade e em altíssimo astral”, disse. Durante as gravações do álbum, Arnaldo Antunes e Tony Belloto foram presos por porte de heroína e compuseram Polícia. “Polícia para quem precisa/ Polícia para quem precisa de polícia”, canta Sérgio Britto. O conjunto também criticou a igreja e o estado, em Igreja. “Eu não gosto de padre/Eu não gosto de madre/Eu não gosto de frei/ Eu não gosto de bispo/Eu não gosto de Cristo/Eu não digo amém.”

Outros estilos foram explorados pela banda. Canções como Família, Bichos Escrotos, O quê e Cabeça Dinossauro sinalizam como seriam os próximos trabalhos do conjunto. Sérgio Britto revelou que a música que mais deu trabalho para ser gravada foi O quê. “A última a ser gravada foi ‘O quê’ e também a que deu mais trabalho. O arranjo mudou totalmente no estúdio, e o Liminha, aqui, teve participação decisiva: programou bateria eletrônica, sugeriu a linha de baixo, tocou guitarra e deixou a gente fazendo uma jam interminável durante dois dias até chegar o resultado final”, contou.

A gravação de Polícia também teve alguns detalhes revelados por Sérgio Britto. “Outro detalhe curioso é que gravei a voz de Polícia no primeiro take, enquanto Liminha conversava sobre pesca submarina com o Evandro Mesquita. Talvez isso tenha me ajudado a ficar mais puto ainda. Quando fomos ouvir o resultado, eu queria regravar a voz, a qualquer custo, porque tinha sido muito fácil. Todos acabaram me convencendo de que estava bom”, revelou.

Cabeça Dinossauro, obrigatória nos shows, também precisou da participação crucial de Liminha. “A percussão na faixa ‘Cabeça Dinossauro’ foi o Liminha que tocou. Depois de várias tentativas mais elaboradas, ele começou a improvisar, tocando nas paredes, no chão e nas colunas do estúdio, num espécie de transe”, disse.

Em 1997, a revista Bizz elegeu Cabeça Dinossauro o melhor álbum de pop-rock nacional. 

Texto publicado no Diário da Manhã

terça-feira, 15 de março de 2016

Olá, sou Leila Diniz

Leila Diniz com barriga à mostra. 

"Toda mulher quer ser amada. Toda mulher quer ser feliz. Toda mulher se faz de coitada. Toda mulher é meio Leila Diniz”, canta Rita Lee, em Todas as mulheres do mundo. Ela conseguiu, como poucas, através do seu comportamento libertário, mostrar que as mulheres têm de ser livres. E isso em plena ditadura militar. Tanto a atriz quanto a cantora balançaram as estruturas da moralista sociedade brasileira, na década de 1970.

Leila Diniz nasceu em 25 de março de 1945, no Rio de Janeiro. Quando tinha sete anos de idade, seus pais se separaram. Ela passou a viver com os avós paternos, e pouco tempo depois voltou a morar com o pai, que tinha casado de novo. Aos 15 anos, começou a trabalhar como professora. Nunca completou o segundo grau – hoje ensino médio –, por não se adaptar as regras dos pais dos alunos e da escola. Dois anos depois, teve sua primeira experiência como atriz, na peça “Dirigida pela tesouro”, dirigida por Domingos de Oliveira – seu marido.

O casamento de Leila e Domingos, no entanto, durou apenas três anos. Nesse momento, ela passou a trabalhar como atriz, atuando em novelas da Globo. Mas tarde, casou-se com o cineasta Ruy Guerra, com quem teve uma filha, Janaína. Gravida da menina, Leila pôs um biquíni e foi à praia de Ipanema, no Rio de Janeiro.Com a barriga à mostra chocou a todos, mas depois se viu que a atitude significou rompimento de um tabu comportamental.

A antropóloga Mirian Goldenberg, autora do livro Toda mulher tem um pouco de Leila Diniz, disse, à Agência Brasil, que o comportamento da atriz ainda continua atual. “A Leila, simplesmente, queria viver a vida dela com liberdade, com prazer, com vontade. Não foi uma militante, nem feminista. É por isso que ela é tão contemporânea. Vivia a vida com liberdade, coisa que as mulheres não fazem até hoje”, afirma. Para a antropóloga, Leila não expressava uma sexualidade para ser sexy ou sensual. “Era uma sexualidade para o prazer dela. Não é que ela não tinha preocupação, sabia que os outros julgavam e condenavam, mas ela não abria mão de viver a própria liberdade. É isso que é considerado revolucionário até hoje.”

A representante da Rede Mulher e Mídia no Conselho Nacional dos Direitos da Mulher, Raquel Moreno, afirmou que a exposição da barriga foi um marco porque mostrou para as mulheres que elas não precisavam temer a gravidez. “Saiu uma turminha de feministas no Rio, entre as quais a Leila Diniz, de braços dados na calçada. Elas estavam em cinco ou seis andando e dizendo, sozinha, eu? Como assim? Que história é essa de que a mulher está sozinha na rua? Assim contestaram também a fala recorrente de que as mulheres tinham que andar acompanhadas por um homem, porque senão estavam pedindo alguma forma de violência”, lembrou Raquel Moreno.

Em 15 de novembro 1969, chegava às bancas uma edição de O Pasquim, com uma entrevista de Leila. Jaguar, que foi um dos entrevistadores, disse que Leila, de maneira natural, falou vários palavrões durante a conversa. “Era o jeito dela falar. Aí optamos por manter as características. Decidimos colocar um asterisco, entre parênteses, no lugar do palavrão. Então, a entrevista parecia uma via láctea”, disse. Após a publicação, o regime militar instaurou o decreto Leila Diniz. Perseguida, ela se escondeu no sítio do amigo e apresentador Flávio Cavalcanti. A Globo, alegando razões morais, não renovou seu contrato.

Leila Diniz morreu em 14 de julho de 1972, em acidente de avião. Ela sobrevoava Nova Délhi, na Índia, quando houve a explosão da aeronave. O falecimento da atriz causou comoção nacional e deu inicio ao mito da mulher revolucionária. “Eu sou uma explosão, mas com 100 anos vou estar maravilhosa, vou estar cada vez melhor”, acreditava a atriz.

Jaguar cogitou o que Leila poderia ter feito, se não tivesse morrido aos 27 anos. “Que legado teria deixado? Ela era absolutamente inocente e tudo que dizia era de maneira cândida. Não tinha intenção de escandalizar. Todo mundo a admirava. Mas imagine como era isso em pleno regime militar. Ela era uma mulher solar”, constatou.

As declarações foram feitas à Agência Brasil