terça-feira, 30 de junho de 2015

MAIS UM TRABALHO


Abri a porta, e entrei em casa. Mais um dia de trabalho. Eu trabalhava 8 horas por dia, de segunda a sexta. No sábado estava no serviço, também, mas pela manhã. Saía do trampo, e ia para a casa. Minha esposa, meu amor. Ela estava sempre assistindo televisão. Abraçava-a e perguntava como havia sido seu dia. As respostas eram sempre iguais . “Bem”, dizia ela. Era a vida que eu escolhera para mim. Meus amigos falaram que o casamento não seria uma merda. Mas eu ignorei-os. A vida de cônjuge me agrava.

Deixei meu paletó sobre o sofá. Fui ao banheiro, mijei e troquei de roupa. Desci à cozinha, e perguntei o que faltava em casa:

“Nada”, respondeu-me Jordana.

“Temos pão”, quis saber eu.

“Aham”, balbuciou ela.

Abri uma sacola e encontrei alguns pães. Comi-os, e avisei Jordana que iria dar uma volta:

“Trabalho, né”, constatou ela.

“Sim”, respondi. “Devo voltar lá pelas 22h”, avisei.

Entrei em meu Camaro. Liguei-o e dei a partida. Ouvi o ronco do motor e imediatamente uma sensação de vaidade me tomara. Ninguém na vizinhança tinha um carro esse. Eu era o único. Os vizinhos, certamente, haviam escutado o motor. Meu carro, idiotas. Podem babar.

Parei no semáforo. O céu estava claro, porque a lua o iluminava. Bela imagem. De repente, uma luz verde refletiu no vidro do carro. Era o sinal. Arranquei, andando a 60 km por hora.

Virei numa esquina, nada. Em outra, nada. Novamente, porra nenhuma. “Vai ver é por que está frio”, cogitei. E de fato, fazia uns 15 graus em Goiânia. Dobrei na 136, no Setor Marista. Pisei fundo no acelerador. Achei um crioulo na rua. Fitei-o, descaradamente. Saí. Dei uma volta na esquina e voltei para lá.

“E aí, brother”,  eu disse. “Não tem um desse aí, não”, perguntei, solicitando uma pedra de crack.

“Tenho, sim”, falou ele.

“Entra”, pedi.

Ele veio até a porta do carro. Apontei-lhe a arma, discretamente, e disse:

“Entra já, ou vai morrer”.

Sem pensar duas vezes, o cara entrara em meu carro. Saí dali.

“É o seguinte: nós vamos dar uma volta. E eu só quero conversar, beleza?”, avisei .

Mais calmo, ele perguntou se podia acender um cigarro. Disse-lhe que ‘sim’.
Demos três voltas na Praça do Cruzeiro. Descemos até a Praça Cívica e voltamos à Praça do Cruzeiro. Ele estava tranquilo.

Parei o carro numa rua deserta e escura.

Pahhhhh pahhhhhh pahhhhh.

Olhei para a cabeça dele. Vi só sangue. Tirei o corpo, e o joguei na rua.

Liguei Mozart no pen-drive do carro.

Cheguei em casa, Jordana estava vendo Jornal da Globo. “Tudo bem?”, falei, beijando-a. “Tudo”, respondeu.

É isso aí: mais um trabalho concluído.


quarta-feira, 3 de junho de 2015

Vamos


- dá um cigarro - me pediu o cara.

Fitei-o. Pensei, seriamente, se deveria dar-lhe um cigarro. Mas acabei o entregando.

O sujeito queria puxar conversa comigo. Eu nem o conhecia. Ele trajava uma camisa polo listrada; nos pés, uma bota típica de quem faz Medicina Veterinária. Pele escura. Sotaque do interior de Goiás:

"você faz faculdade aonde?" – perguntei, tentando iniciar um diálogo.

"na UFG" – respondeu ele, secamente.

Assenti com minha cabeça qualquer coisa. Por um instante achei-o um ser desprezível, daqueles que lhe pedem desde um simples cigarro até dinheiro.

- e você" – disse – faz o quê?

- jornalismo.

- onde?

- na PUC.

Ele olhou-me e pensou algo como “que cara estranho”. Eu sabia e percebia isso. Ou talvez um cara como ele não tenha inteligência suficiente para pensar algo. “Me dá outro cigarro”, pediu. “Cara espere. Estou sem grana para comprar outra carteira. Tenho que fazer essa aqui durar” – falei, apontando para meu Hollywood vermelho.

Continuamos a andar. O tempo estava congelado, os minutos pereciam que não passavam. Quando estávamos a uma esquina de chegar à Praça Universitária, ele pediu-me outro cigarro. Agora, demonstrando minha perplexidade, alertei-o de que eu não os tinha. “O gordo tem duas carteiras”, declarou, com a ingenuidade de quem não sabe nada. “Então peça para ele.”

Perambulamos um pouco por lá. Havia umas apresentações culturais. Ao chegar, notei uma banda cantando Bete Balanço, do Barão Vermelho. Parei, e prestei atenção no som. “Pode seguir a tua estrela, o teu brinquedo de estar”...

- os caras são estão aqui - disse.

Fiquei calado, procurando ignorá-lo.

- Bicho eu já vim pra cá com eles várias vezes – gritei - devem estar ali embaixo – apontei e saí, deixando-o imóvel - esse porra deve gostar de sertanejo universitário e essas merdas – pensei.

E depois soube que minhas reflexões tinham fundamento. Realmente, ele gosta de sertanejo universitário. "E você curte o quê?" - interrogou. "Rock, jazz, blues', respondi.

Meneou a face expressando uma falsa concordância e compreensão da realidade.

Levei a mão ao bolso. Contei as moedas. Tinha cinco reais.

- e aí Beck, como que tá? – disse João, estendendo a mão para eu felicitar lhe.

- e aí meu brother – cumprimentei – tranquilo e ocê?

- suave demais - respondeu, abrindo um sorriso na face, típico da vida alternativa.

- li seu texto. Achei genial - falou.

Imediatamente, fiquei surpreso. Se alguém lhe diz que leu seus escritos - e os achou bons - uma sensação de bondade se acende dentro de si. É inexplicável. E inacreditável.

Criamos um roteiro para um filme. Discutimos, divagamos sobre arte, jazz, filosofia. Saí dali com a convicção de que eu devo escrever um roteiro. “Você pode ser um roteirista. Tenho vontade demais de fazer algo contigo. Podemos fazer um cinema artístico, experimental”, afirmou.

João me avisou de que estava indo embora. Despedi-me deles e fui procurar Rogério. Andei pela praça toda. Não os encontrei. Comprei uma cerveja. Bebi-a em poucos minutos, em goles longos.

Observei, enquanto caminhava pela praça, várias tendas. PSOL, PT, MST e do movimento estudantil, organizado pela UNE, eram as que estavam disseminando suas propostas. Animei-me, porque na do PT, ouvi “Ela partiu” do Tim Maia. Agora, sem o cara a importunar-me, apreciei a música. “Ela patiu, partiu. E nunca mais voltou...”

Esbarrei em duas colegas de curso. Eu já estava pirado. Cogitei a hipótese de só balançar a cabeça e sorrir, era mais garantia de que a comunicação seria fluente.

- venha aqui conhecer o povo - disse, acenando para um pessoal que havia da tenda da CUT.

- que legal, só vou comprar uma cerveja é já volto - falei.

Virei as costas e fui embora. Definitivamente, eu não queria conversar sobre política. Todo aquele povo destilando empáfia doutrinadora, deixava-me assustado.

Ouvi uma moça berrando algo como “Paraná... Ceará, Ceará”. Sentei-me embaixo de um poste. Fumei um cigarro, vi uns hippies deitados na grama.

Após uma hora vi Rogério, com seu cabelo amarrado. Cheguei à roda. Estendi a mão para todos.

- vamos tomar um ácido? – perguntou Robson, colando-me numa encruzilhada.

Sorri, e disse “sim” com a cabeça.



segunda-feira, 25 de maio de 2015

A beleza da vida

Enquanto escrevo, a noite desponta no céu. Terminei a frase, deu-me vontade de fumar um cigarro, arejar o pensamento e colocá-lo em ordem. Saí de frente do computador. Enchi uma xícara de café, bebi-a e abri a porta de casa. Ao fechá-la, deparo-me com uma garota. “Olá” – digo. “Tudo bem” – responde ela. Abri um sorriso no canto da boca e segui até a guarita do meu condomínio.

Final de tarde. Calor, preguiça e um texto para escrever. Sempre deixo meus afazeres para depois, e quando chega o dia de entregá-los, fico desesperado. Resmungo e nada resolve. Mas foda-se, a vida é assim. Alguns querem dinheiro, carros, status, eu quero apenas uma boceta e se possível um uísque original para adocicar a transa. Dei uma volta na esquina. “Podia beber hoje, né” – pensei, alimentando uma hipótese, que têm chances de se concretizar. Levei as mãos ao bolso, e encontrei uma cédula de cinco reais. Dava uma cerveja e um cigarro solto. Fui até a distribuidora de bebida e comprei-os.

Caminhando de volta à minha casa, eu pensava em como terminar aquele texto. Precisava pelos menos mandar algo para o jornal. Eles haviam me mandado um e-mail. Nem lhes respondi. Hoje, sem ter escapatória, sentei-me em frente ao computador e escrevi. O ensaio – sobre a contracultura que seria pulicado no caderno opinião pública do Diário do Cerrado – dava-me trabalho.

Levei minha mão ao trinco da porta e girei-a. Entrei em casa, tirei meu tênis e apaguei o cigarro no cinzeiro. Finalizei meu texto. Ele estava com forma e harmonia. “Agora está faltando a birita” – pensei. Recorri ao telefone. Nada. Todos tinham alguma desculpa. “Hoje não dá, amanhã tenho que trabalhar” – falavam sem entusiasmo. “E daí, eu também tenho” – afirmava caindo na gargalhada. Eu não iria ficar sem beber, disso tinha certeza. Estava buscando uma alternativa para biritar. Tudo é motivo para a bebida. Bebemos na alegria. Bebemos na tristeza. Bebemos para afogar as lágrimas. Bebemos para comemorar a solidão, a monotonia. Bebemos por porra nenhuma. A gente bebe, simplesmente.

Peguei minha mochila e coloquei dois livros dentro dela. Eu tinha de devolvê-los para Rogério. O cara cobrava-me em todo momento. Não podia me ver na rua que vinha com sua voz trêmula e rouca: “Cadê meus livros, filha da puta”. “Calma porra, estou lendo” – sussurrei com as cordas vocais repletas de tabaco, maconha e álcool.

Saí de casa por volta das 20h da noite. Rogério morava perto da Avenida Independência, no Setor Vila Nova. Em frente ao seu condomínio, havia um bar. O dono do boteco já me conhecia e sempre tinha um comentário na ponta da língua. “E aí corintiano safado. O quê você vai roubar?”. Quase sempre optava pela risada. “Me dá uma Antarctica” – pedi, enquanto esperava Rogério – “tenho de lubrificar a palavra”. Após dez minutos, o sujeito apareceu. “Estou sem dinheiro. Não consegui nada, nada” – disse com tristeza no olhar. “Acho que nem vou beber nada”. Balancei os braços demonstrando meus pêsames. “Pode deixar que vou beber por você, cara” – provoquei.

Rogério deu-me as costas e fora embora. Com 50 reais na carteira, eu não iria para casa sem mulher. Iria atrás delas. E falaria palavras de conforto. Eu sei o que elas querem ouvir. Talvez declame algum poema. Ou cante Touch Me.

Sinto o cheio de boceta.

- e aí Mano Jaynes – gritou Selton, com o sorriso que lhe era caraterístico no fundo do rosto – vamos chapar?

Como não havia outra escolha, aceitei o convite.

Selton pediu uma cerveja. Silas, rapidamente, trouxe-a. Selton morou em Portugal durante dez anos. Seu sotaque ainda é um pouco lusitano. Ele é uma figura rara entre os homens. Se colocar vinte pessoas ao seu lado, ninguém será igual a ele. A energia, a facilidade para protagonizar histórias bizarras, faz de Selton um cara único. Com ele é assim: ou você vira seu amigo, ou odeia-lhe. Ele fala ininterruptamente na mesa do bar. Selton carrega consigo o furor da boemia, a loucura da vida, a clareza à bebida e quaisquer tipos de entorpecentes.

Bebemos quatro garrafas de cerveja, e ele sugeriu:

- vamos num bar ali embaixo? Só tem bandido!

- claro, por que não?

Ele dera uma risada e emendara:

- vou buscar um uísque em casa. Daqui a pouco eu volto, de boa?

- de boa – repeti – traga para mim, por favor, uma blusa. Tá frio – pedi, tremendo o corpo, quando o vento do centro-oeste contagiavam meus ossos.

Coloquei as mãos no bolso da calça. Uma criança e uma senhora passaram por mim, e ninguém disse nada. Apenas fitaram-me.

Selton apareceu após alguns minutos, com uma dose, gentil, de uísque em mãos. “Tome um gole” – ofereceu. A bebida desceu leve, suave e bravamente pela minha traqueia.

Bâbados, andávamos no meio da rua, gargalhando e falando palavras misteriosas para os ares. 
Chegamos ao bar. A música que saía da jukebox era um sertanejo universitário. Comecei a sentir os sintomas de náusea. Então Selton, brilhantemente, dera-me cinco reais e disse:

- coloque um som pra nós.

Eu peguei o dinheiro e fui até a máquina. Permanecei por alguns minutos tentando entender como se faz para manuseá-la. Quando descobri, chegou um cara ao meu lado e encarou-me profundamente. De fato, o lugar dava medo. As pessoas, todas, tinham uma expressão brava e triste. Eles simulavam feições de durões, mas não passavam de seres ensandecidos, monótonos e solitários – que assim como eu, estão na noite, atrás de bebida e mulher. Selecionei Tim Maia, Planet Hemp e Raul Seixas; Selton pediu mais um litro de cerveja. “Viva, viva, viva a sociedade alternativa/Viva a sociedade alternativa” – cantava Raul. Tive a impressão de que tudo mundo soltou-se quando a canção entoou no boteco. No intervalo de uma música à outra, um amigo de Selton chegara. O sujeito tinha aparência comportada. Falava pouco e quase nunca fazia uma brincadeira. Era o tipo de pessoa que a qualquer momento pode tirar uma arma e pôr em sua têmpora. Tinha o aperto de mão forte e robusto. “Há umas garotas na mesa ali, vamos sentar lá?” – propôs o cara. Sem pestanejar, levantamo-nos e fomos. Distribuí beijos nos rostos das moças e sentei-me ao lado de uma delas.

Sem falar nada, minha mão roçou as pernas da moça que estava sentada próxima de mim. Então tardei a falar junto ao ouvido. As palavras soavam ofensivas. Porém, ela retribuíra. Tocara em meu pau, e ele subira. “Aqui não” – murmurou em meu ouvido, com as mãos dentro de minha calça. Uma garota que sentava-se em meu lado, olhara com espanto. Nada disse.

- vamos sair daqui – disse, enquanto sinalizava para Selton – a gente pode conversar num lugar mais a vontade.

- tudo bem.

Andamos cerca de duas quadras. Ela parou e beijou-me. Enquanto eu sentia seus lábios, suas mãos agarravam meu caralho. Em pouco tempo, ele estava duro, pronto para a foda. Ela notou a ereção e logo desabotoou o zíper da calça, mergulhando em minha rola. Eu só via o movimento de sua cabeça, sendo iluminado por um poste que havia em cima de nós. Quando saciou um pouco, eu virei-a de quatro e enfiei meu pau naquela bocetinha e um cara passou rindo. Eu a bimbava, ali mesmo, na rua. Um guarda parou. 

Tentei tirar o caralho de dentro da boceta, mas não dera tempo. O policial observou-me e falou:

- dando uma trepada no meio da rua, cara?

Sem graça, concordei com a cabeça.

- mas você sabe que é crime, né – disse com segundas intenções. – eu posso levá-los para a delegacia – completou.

Eu acendi um cigarro e pensei em como iria sair deste problema. Cogitei várias desculpas. Depois cheguei à conclusão de que nenhuma o convenceria.

- seria bom se você molhasse minha mão, não? – sugeriu o policial de forma sarcástica. – a vida tá difícil para todo mundo. Com a crise financeira, a gente não sabe o que fazer para viver com dignidade.

Por um momento considerei mandá-lo à merda. Contudo, entreguei ao guarda uma nota de 20 reais. Ele a principio resmungara. Eu vesti as minhas calças, a garota também vestiu as suas e fomos caminhando, devagar.

“Você é maluco demais, mocinho” – disse-me ela. – “Cê não viu nada ainda, não” – completei.

Olhares, risadas e beijos para todos os lados.

As mulheres são a beleza da vida.

quinta-feira, 14 de maio de 2015

Sinônimo de vida pública

Iris Rezende vestia camisa Lacoste listrada e usava calça jeans de brim escuro. Calçava sapatos sociais pretos e lustrosos. Em seus pulsos havia um relógio prateado. Ele falou para nós o seguirem. Imediatamente, Iris perguntou qual sala era melhor. Respondemos que seria a última. “Ela é melhor mesmo. Aqui ficamos escondidos” - disse entre sorrisos e ligeireza.

Iris contara sobre o começo da vida política, quando ainda era presidente do Grêmio Estudantil no Colégio Liceu. Formou-se em Direito pela Universidade Federal de Goiás (UFG), na década de 1950. Segundo ele, o curso de Direito é o único que pode auxiliar um político. Paralelo ao Liceu, Iris concursava Contabilidade na Escola Técnica de Comércio de Campinas. Foi presidente dos dois grêmios. Decidiu, neste período, que a trilharia o caminho da política.

Nailton de Oliveira, ex-prefeito de Bom Jardim de Goiás, afirmou que Iris Rezende é “patrimônio vivo e histórico” de Goiás. “Sempre terá eleitor que o respeitará” – reconheceu -  "o adversário sabe de sua força”.

Por conta do sotaque interiorano, tinha vergonha do modo como falava. Aprimorou a retórica e a oratória durante a faculdade. Candidatou-se ao grêmio, no Liceu, sem nem saber o que fazia o presidente da agremiação. Participou do movimento estudantil dos estudantes secundaristas. Viajou a Fortaleza e Rio de Janeiro, com aviões da FAB. “Viajávamos com aviões da FAB. Aqueles que andavam pelo céu” - detalhou.

Em 1958, elegeu-se vereador de Goiânia, pelo PTB. “Na época a Igreja Católica era detentora da maioria dos fiéis. Eu fui o primeiro evangélico a destacar-se na política. Nunca neguei a minha condição de evangélico.” - contou.

Neste instante, seu telefone tocara:

- estou dando uma entrevista para uma comissão de estudantes de Jornalismo. Mas o senhor pode vir aqui, não tem problema - disse Iris ao Dr. Walter, que em poucos minutos chegara ao escritório, onde fazíamos a entrevista.

- vou a Brasília. Venho aqui, amanhã cedo, para tomarmos um café - falou Dr. Walter.

- tudo bem - respondeu Iris.

“Em 1962, elegi-me deputado estadual. Fui o mais votado da História, até então. Quando eleito, apoiei o governador Mauro Borges” - disse. Iris era deputado quando os militares deram o golpe. Ele dissera que Mauro Borges e Leonel Brizola – então governador do Rio Grande do Sul – levantaram a “bandeira” ao João Goulart (Jango) e queriam que ele assumisse a presidência.

Jango assumira a presidência, e o sistema parlamentarista fora instituído no Brasil, com Tancredo Neves como Primeiro Ministro. Porém, o regime perdurou pouco. Jango retornara a ter plenos poderes, após plebiscito. Segundo especialistas, o erro dele deu-se no Comício da Central do Brasil, no Rio de Janeiro. Lá, afirmara que iria acelerar as Reformas de Base (urbana, agrária e educacional). A elite, obviamente, se preocupou e saiu às ruas, pedindo intervenção militar. Na Praça da Sé, em São Paulo, milhares de pessoas protestaram, no episódio que ficara conhecido como “Marcha com Deus pela Família”.

Ele afirmou que toda ditadura é trágica. “Seja de direita ou de esquerda” – ressaltou - “o ideal mesmo é a democracia”. No decorrer da conversa demonstrou-se inconformado com a falta de politização do jovem. “O jovem tem de se interessar por política. Através dela é que se muda. Seja como candidato ou simplesmente na militância, eu aconselho os jovens a participarem da política” - assegurou.

“Esse pouco interesse por política” - continuou - “é herança da ditadura. Ditaduras, geralmente são elitistas, e a militar nem se fala”- completou. Para Iris várias gerações foram prejudicadas por conta do autoritarismo que vigorou no Brasil de 1964 a 1985. Os reflexos, de acordo com o ex-governador, se estendem até os dias de hoje. “Quando eu estudava no ensino secundário, nós éramos todos juntos. Sabíamos das falhas um do outro. Aí vem a ditadura e muda tudo. Ninguém tinha contato com ninguém” - frisou.

Iris elegeu-se prefeito pela primeira vez, em 1966, pelo MDB - partido de oposição ao regime militar. Neste governo, idealizou o mutirão de limpezas que trouxe da “roça”. Asfaltou os principais bairros de Goiânia, como os setores Oeste, Sul, Aeroporto e Bairro Popular. Criou o parque Multirama, cujos brinquedos vieram da Alemanha e dos EUA. Realizou festas de inaugurações, como a da Avenida Anhanguera, em Campinas. “Foram gestos bem pensados de construção da imagem de homem público” – disse Cileide  Alves, em dissertação de mestrado.

Em 1969, teve seus direitos políticos cassados por 10 anos. Ele acha que sua aceitação pela população incomodou os militares. Ele já estava em campanha nas ruas, com cartazes e santinhos. “Iris eleito, povo satisfeito” e “Bom para 70” – eram os jargões que circulavam pela cidade.

A primeira manifestação das Diretas Já fora em Goiânia. Iris falara em discurso, que se eleito, iria fazer uma mobilização. Cerca de 500 mil pessoas participaram do ato, na primeira vez. Na segunda oportunidade, o número de pessoas subiu para 700 mil, segundo a PM.

Ulisses Guimarães, expoente do MDB à época, ligou-o e parabenizou-o pela iniciativa. “Não é justo que tantos Senadores e Deputados se desloquem para prestigiar o movimento. Digam – referindo-se aos líderes – o nome e o Estado que são” – discursou num dos primeiros comícios pelas Diretas Já, realizado em 1984, na Praça Cívica. 

Nas eleições de 1998, Marconi abriu processo contra Iris no Ministério Público. “Durante seis anos o Ministério Público desgraçou a minha vida” - revelou. Nada foi provado contra ele. Mas Marconi seguia agredindo-o, e Iris recorria à sessão de carta dos leitores de O Popular para se defender. “Liguei para o governador (Marconi) e lhe disse: o que provaram contra mim? Nada!” - relatou.

"Só a Dona Iris sabe" - disseram membros que PMDB goiano, que estavam no escritório de Iris. Será que ele se aventurará a mais uma eleição? 

quarta-feira, 13 de maio de 2015

Frases curtas

Graciosa dama. Teus olhos cegam-me. Perco-me no emaranhado deles. Sinto-os a penetrar minha alma, e sacudi-la. Teu peito parece uma cítara, anseio em tocá-lo. Teu coração bate neste ventre onde o sexo és vivo. Deixe-me intimidado. A tua voz, suave, leve, solta, leva-me a outra dimensão introspectiva. Eu sonho em beijá-la. Eu queria beijá-la. Eu quero beijá-la. Talvez seja uma simples paranoia de um bêbado. Ou não. É difícil falar dessas coisas. A vida impõe-nos assuntos complexos. E nós evitamos. Alguns tentam arranjar explicações psicanalíticas, políticas – intelectualizam – a sua derrota. Eu apenas sigo em frente. Encho meu copo com algum destilado. Bebo. Gosto da vida de bêbado. Vivo para a criação. “Os inteligentes não nutrem expectativas”, escreveu Dostoievski - o melhor psicólogo, segundo Nietzsche. Vamos brindar o amor, graciosa dama. Penso nas avenidas do teu corpo. Penso no caminho de tuas pernas. Os teus lábios, polpudos, desejo-os, simplesmente. Angario percorrer o teu caminho. Entrar em tua alma e deixar minha marca dentro de ti. Diga-me teu nome, por favor, dama misteriosa. 

terça-feira, 12 de maio de 2015

Pra quê?

A música. Claro, jamais pode faltar. O que seria da vida sem a representação sonora? Os instrumentos representam a realidade. Eles expressam sentimento, seja de repulsa ou de resolução das convenções. Ouvimos um som. E é bom degustá-lo.

Nada soluciona os problemas. Tentamos domá-los, mas o esforço é em vão. Então bebemos, porque é a única solução. Enchemos copos e mais copos de destilados. Fodemos. E amamos. Apaixonamo-nos, para no final, dizermos: “acabou”. O quê acabou? A vida? Não crie expectativas. Nem tudo vale a pena. Viver é a arte de saber lidar com os outros. 

Morrison acertou: "as pessoas são estranhas". Vivem em função de expectativas baratas e superficiais. Não pensam, nem agem. Pedem por revolução, sem olhar ao lado. Revolução, revolução, revolução... porra!

Henry Miller, em Sexus – a crucificação encarnada – disse que adorava a boceta de sua ex-mulher. Ela olhou-o, com ares de desprezo e repulsa, e falou-lhe: “Tenho nojo de você”. Miller retrucou, educadamente: “A sua boceta é o que tem de melhor”. O escritor apenas cultiva histórias na vida para escrevê-las. "Por que você ainda continua me amando?", perguntou a ex-mulher. "Ninguém está amando aqui. Isso é paixão. Que mal há nisso", retrucou Miller.

Vivemos e criamos ideias. Nutrimos valores fúteis para entramos na roda. Executamos, executamos e executamos pensamentos de outros. Bebemos. E conversamos e discutimos sobre o mundo e a realidade.

Sociedade do consumo e do individualismo. Os burocratas entram em seus carros luxuosos e sobem os vidros. Ali, eles ficam isolados da realidade cruel e injusta. “São todos uns vagabundos”, bradam, protegidos pelos seus ternos de mil reais.

Tudo é ilusão. Por que definimo-nos como de esquerda e de direita? Se não lermos o best-seller, somos classificados como incultos. “Que capa viajada”, mostrou-me uma garota, na sua felicidade e futilidade elitista.

Foda-se. Vivas à sua maneira. Prefiras dialética ao pragmatismo. Cultives arte a ciência. Entendas a vida. Faças sexo.

A arte nasce aí.

segunda-feira, 11 de maio de 2015

É disso que escritor precisa

José não queria saber de trabalhar. Escrevia, escrevia e escrevia. E frequentemente participava de concursos literários, cujo resultado ele já esperava. “Seus textos são muito obscenos, cara”, diziam os amigos. Mas José continuava a escrevê-los mesmo assim: eróticos, pesados, sexuais. Assim eram os escritos. Não pensava na complexidade da gramática. Optava pelo sujeito, verbo e predicado. “Essas frases longas, não servem pra nada”, afirmava.

- e aí Zé, quando que vai sair aquele texto fodástico? – diziam os mais próximos.

– não sei - respondia, sem dar a mínima para os devaneios dos colegas.

- cara, larga essa merda. Faça outra coisa da vida. Ultimamente você fica só sentado em frente ao 
computador, batendo nas teclas. Enquanto isso, várias bocetas estão aí, bem na sua cara.

Ele refletiu. Pensou por noites e dias, enquanto enchia a cara de madrugada. “Quero ser escritor. Mas todos me rejeitam, porra”, pensava introspectivamente. “O quê há de errado com meus textos?”. Nem Zé sabia a resposta:

- acho que vou deixar a literatura de lado. Não é pra mim essa coisa de texto.

- mas....

- não tem ‘mas’, não. Quero fazer algo útil!

- e escrever não é ‘útil’? – disse João, na mesa do bar, simbolizando as aspas com os dedos.

- é, mas de que adianta escrever para caralho, se ninguém me lê?

- ué, desde quando cê precisa de alguém que o leia?

Veio-lhe a cabeça os mestres. Bukowski foi anos sem ninguém publicar-lhe. E neste período, passara a acreditar que era um gênio. Oscar Wilde afirmou que a arte é individualista e que todo artista não deve pensar em seu público.

Zé levantara da mesa.

- me dê uma dose de Velho Barrero – pediu, gentilmente, com a voz suave, ao garçom – preciso beber! – exclamou, alterando, imediatamente, a tonalidade da voz.

O barman viera com o copo transbordando. A bebida, felicidade do escritor. “Bukowski também faria a mesma coisa”, imaginou.

Bebericou o destilado. Fez careta e sentou-se à mesa com João.

- vou embora – disse a João – agora sairá o livro.

- pô, tudo bem, cê que sabe...

Por alguns instantes, os dois ficaram se olhando. Ninguém disse nada. Zé quebrou o silêncio:

- preciso escrever.

- então vai.

- cê não sabe como é complicado ficar semanas sem escrever nada.

- suma daqui!

Zé fora embora, resmungando. Parou num bar, comprou uma garrafa de conhaque e saiu predestinado a escrever um texto, que em sua mente, iria abrir-lhe as portas para o reconhecimento do mercado literário.

Enquanto caminhava pelas calçadas esburacadas da cidade, ele parou, acendeu um cigarro e continuou a jornada. Não tinha carro, porque acredita que não servia para nada. E também não tinha dinheiro para comprá-lo. 

Uma voz cálida chamou-lhe na escuridão da noite. Ele virou o rosto e deu um sorriso, sem enxergar quem era. A garota foi se aproximando:

- não lembra de mim? – perguntou.

Zé olhou-a e emendou:

- lembro, lembro.

Alice estava deslumbrante. Cabelos soltos, balançando ao vento. Cigarro entre os dedos e olhar sedutor. As unhas da mão estavam coloridas por um vermelho cintilante. Ela era sinônimo de delicadeza. Zé, bêbado, com a voz arrastada de destilados baratos, chamou-a para ir a sua casa ouvir um disco.

Na verdade, Zé encontrava-se tomado por intenções sexuais. “Quero fodê-la toda”, divagava. Alice, também sabia o que lhe podia acontecer. Quando se bebe, os fatos se desenrolam com uma velocidade alucinante. Zé pôs a mão no bolso. Tirou um cigarro, acendeu-o. Um beijo dera nela. Alice observou o fundo da retina dele.

- que porra é essa? – questionou Alice.

- o quê foi? – disse Zé, se fazendo de idiota.

- como assim, cê me beija no meio da rua. Não te vejo há mil anos, e você me fez uma merda dessas. Pirou, cara?

Novamente, ele estava preso no emaranhado de sua mente. O quê dizer? Como falar? Quando falar? Será que agora é o momento? Zé não sabia de nada. O tempo parecia ter congelo quando ele a beijou.

Zé sugeriu, num ato de brilhantismo e Inteligência raros:

- vamos lá pra casa, a gente pode ouvir um blues, beber um pouco e nos amar. O quê acha?

- me parece uma proposta convincente – rebateu, sem deixá-lo colocar o raciocínio no lugar.

Ela aceitou o convite.

Eles passaram por um semáforo e logo viraram à direta, numa rua deserta. As casas dali eram todas soturnas. Não havia ninguém na rua. Zé morava numa casa sombria.

- chegamos – disse ele.

Alice abriu um sorriso.

Quando ele terminara de fechar a porta, ela empurrou-o sobre a cama que estava encostada na parede da sala. Zé batera com a cabeça. E Alice fora pra cima dele. Tirara sua roupa. Beijara-lhe o corpo todo, com a feição de quem está gostando.

Zé caíra na boceta dela, imediatamente. Chupara-a com respeito, responsabilidade e dignidade. Então, quando ela já estava toda molhada, ele meteu. Enfiou calma, tranquila, serenamente, lutando para não interromper a transa com uma gozada indesejada.

Alice gemia.

E Zé seguia a meter.

- que boceta gostosa, caralho!

Alguns minutos depois, ele explodiu dentro dela. Ambos se abraçaram e beijaram-se.

BB.King cantava Summer in the city na vitrola.

É disso que um escritor precisa.

sábado, 9 de maio de 2015

Ensaio de um jovem estudante

Começo esse texto sem saber como irei termina-lo. Dizem que arquitetamos o nosso pensamento – sobretudo quando escrevemos. Mas vou fugir à regra. Gosto de pensar, divagar no emaranhado de minha mente. Penso e amo – porque o amor é à base da vida. Às vezes coloco um disco para tocar. Geralmente perambulo no rock psicodélico – pois considero-me um solitário da geração do amor. Adoro ouvir o teclado de Manzarek. A poesia de Morrison. Para mim, The Doors é inigualável. Gosto de apreciá-lo.

Vou ao meu maço de Marlboro e ponho um na boca. Acendo-o e fumo. Olho para as paredes que me cercam. Elas não me dizem muitas coisas. Porém, finjo prestar atenção em algo que não sei bem ao certo o que é. Preciso – como a humanidade – da ignorância. O saber incomoda. Quem quer pôr seus valores em cheque? Ninguém. As pessoas pedem nas ruas, nos bares, no trabalho, na vida, por sossego. Mas elas não querem uma tranquilidade convencional. Elas estão cercadas pelo medo. Não amam. “Eu te adoro”, quase nunca falam. E tem medo. Não conseguem chutar o balde e dizer: “Hoje vou encher a cara até amanhecer o dia”. Se fizerem isso, ficarão, provavelmente, desempregadas. E aí, como irão pagar as contas, no final do mês? E o carro, que os faz transar com mulheres peitudas, bundudas e gostosas quem o financiará?

The Doors – o álbum – acabou. Vou ao acervo do youtube e procuro um som para finalizar este texto. Acho que ele está bom. Há tempos não conseguia escrever uma ideia original. Eu lia os caras fodas, e queria reproduzi-los. Escrevi linhas e linhas, sem nenhum verbo, sequer, ser de minha autoria. Porém, como disse Morrison, a copia salvou-me. Agora, livre da repetição, penso numa garota que está presente, há algum tempo, em minha vida. Seus cabelos loiros levam-me para o paraíso. Queria falar sílabas de conforto em seu ouvido, mas tudo o que me vem à cabeça são alucinações de um rapaz que cursa jornalismo, e é um pé rapado.

O telefone toca. “Caralho, não vou conseguir terminar isso aqui”, cogitei, por um momento. Deixei-o tocar. Recorrei à geladeira. Havia uma cerveja. Abri, e ouvi o estralo da latinha. Provavelmente, os vizinhos também o ouviram. “Foda-se”, pensei. Hoje beberei, sem compromisso, nem amargura. Quero beber para celebrar o amor e a vitória e a arte, tão esquecida. Grace Slick parou de cantar. Reproduzia a apresentação do Jefferson Airplane, no festival de Woodstock, em 1969, em meu computador. “Somebody to love”, cantara Slick, em minhas caixas de som. Novamente, o telefone tocou. “Que porra é essa”, disse a mim mesmo. Não queria atendê-lo. Nem fazia questão de escutar brincadeiras idiotas de gente igualmente. Eu queria amar. Queria sexo. Queria um corpo feminino, nu, ao meu lado. Achei melhor não atender o telefone.

A vida imita a arte? Não, talvez. A ficção é a realidade melhorada, dizia Bukowski. O velho safado escrevera vários contos, ensaios, romances e poemas. Ele produziu, e tivera seus textos rejeitados. Meu escrito, senti, está ótimo. Alguns vão chocar-se. Eu quero que eles se fodam. Eu sei escrever, eu acho. Pelo menos assim dizem-me. Escrevo porque gosto. Se um dia eu tornar-me um sujeito corajoso, virarei escritor. Por enquanto, vou à faculdade e ouço palavras nada confortáveis dos professores, cujo ensinamentos são para tornamo-nos seres capitalistas. Dizem que não teremos tempo para nada e assim temos contato com o medo. Mas será que os 'mestres' sabem escrever um conto original? Não. E sabe por quê? Porque eles vivem a acreditar que a pirâmide invertida é a salvação dos textos jornalísticos. Este tipo de texto não precisa de criatividade. “Que porra é criatividade”, devem conservar nas rodas de amigos. “O jornalismo não precisa ser maçante”, afirmou uma professora. Ela sabe que a comunicação – e o jornalismo está inserido aí – não precisa ser algo cansativo, repetitivo, que não foge da fórmula das aspas e dos personagens baratos e clichês. Sábia.

Deixemos este assunto de lado. Ele não vale a pena.

Meu cigarro acabou. A vida está a acabar? Não sei. Certas coisas não são para nós entendermos. Conformamo-nos com o raciocínio simplista. E assim vivemos: sem questionar, aceitando tudo o que nos dizem para fazer. Eles – os senhores da moral – frisam que se seguirmos seus ‘conselhos’, a vida será leve. Quando deparo-me com isto, preciso deixar as palavras entrar por um ouvido e sair pelo outro. Quem eles pensam que são? 

segunda-feira, 4 de maio de 2015

A noite promete

De um lado da mesa estava Rogério. Do outro Ângela. Ela olhava para o rosto dele, que levara à boca um cigarro. Ele pôs fogo nele. E levantou-se da mesa e caminhara em direção à geladeira. Abria-a e pegara uma cerveja.

- de novo você está a beber, querido? – questionou Ângela – não aguento mais olhar para a sua fisionomia e ver o álcool. Você é o álcool em carne e osso, porra! – exclamou, raivosa e furiosa, culpando a bebida pelos problemas que havia na vida.

- vou, sim. Eu gosto de beber, entenda. Aliás, acho que você deveria fazer o mesmo. Beba, vai se sentir melhor – disse Rogério.

- não, não. Prefiro a minha sobriedade. Ela não tem preço. Não há nada que pague.

Rogério jogara a bituca do cigarro no cinzeiro:

- olha aí, ainda fica sujando toda a casa com essa merda.

- meu Deus, mulher, me respeita, por favor. – afirmou Rogério, com ares de perplexidade – teu pai nunca te ensinou isso, né. Por isso, vai vê, é assim.

- assim como? – interrogou.

- assim, chata, autoritária.

- autoritária? Eu? Acho que você anda usando drogas demais e lendo essas merdas aí.

Ele fora ao seu livro de poesias. Folheou-o e parou num poema de Whitman. O texto prendeu-o sobre o sofá.

- não falta nada, mas faltaria tudo, se faltasse o sexo – escreveu o poeta em Folhas da Relva – isso que é arte, minha filha. Esse lixo que costuma ouvir, não serve para nada. Só para desviar o foco das pessoas dos problemas que as cercam – ponderou.

O telefone tocara. Ângela fora até ele, e atendeu-o:

- vamos sair?

- quem está falando?

- Claudinho...

- Claudinho, seu filha da puta, suma daqui – ordenou ela – você é que fica enchendo o cu daquele porra do 
Rogério todos os dias. Aposto que estava ligando para ele – finalizou.

- não, não. Estou ligando para você mesmo.

- fala...

- quero transar contigo!

- como?

- quero te comer!

Ela desligou o telefone. E sentara em cima de Rogério, que trôpego ficou sem entender.

- meu amor, eu quero essa tua pica grande dentro de minha bocetinha.

Rogério levantou-se e refletira: “hoje a noite promete”, disse. 

quarta-feira, 29 de abril de 2015

Educação paranaense derrama lágrimas

Segundo SAMU, houveram 150 feridos, oito em estado grave. Os manifestantes foram repreendidos por balas de borracha e mordidas de cachorros policiais. (Foto: Daniel Castellano/ Gazeta do Povo)

O dia de hoje entrou para a história do Paraná, e não da maneira mais agradável. A polícia esperava para fazer a guarda e, caso necessário, utilizar de métodos truculentos. E seguiram à risca a cartilha. Partiram para cima dos educadores. “Manifestantes estranhos ao movimento dos servidores estaduais que estavam concentrados em frente à Assembleia Legislativa”, disse o governo paranaense, justificando o porquê de atacar os professores. Segundo a Gazeta do Povo, aproximadamente 150 pessoas foram feridas pelas forças policiais. O site da revista Carta Capital disse que foram mais 200, os feridos.

Em fevereiro deste ano, os professores do Paraná realizaram acampamento no Centro Cívico, em Curitiba. Mas a classe entrara em consenso com o governo e retornaram às salas de aula. Naquela ocasião, seis universidades e escolas estudais ficaram sem aula por cerca de 20 dias. Eles protestavam contra a medida de austeridade adotada pelo governo do tucano Beto Richa – reeleito ano passado, no primeiro turno, com 3.301.322 de votos (55,7%).

“A polícia estava lá por determinação do Poder Judiciário para proteger a sede do Poder Legislativo, uma instituição democrática que não pode ser afrontada no seu direito”, disse Richa. Cerca de 20 mil professores, de acordo com APP (Sindicato dos Professores do Ensino Fundamental e Médio), estavam reunidos em frente ao Palácio Iguaçu. “Sem violência”, gritavam, “ei polícia, prende o Beto Richa”, entoavam os militantes.

O confronto com a PM iniciou-se por volta das 15h. Na Assembleia Legislativa, os deputados votavam projeto de lei que alterava o ParanaPrevidência. Após ser aprovada pela casa, agora ela seguirá para a sanção de Beto Richa. As modificações acarretam perda de benefícios para os servidores públicos. Segundo André Adélio, professor de Filosofia, demorará dez anos para a classe assegurar novamente os direitos perdidos. “A maioria de nossos direitos a previdência, à saúde, se foram”, ressalvou.

(Foto: Daniel Castellano/ Gazeta do Povo)

Entrevista com o professor André Adélio:


Como a greve irá influenciar a vida dos professores de hoje em diante?
O massacre que houve nesse dia 29/04/2015 vai tirar o brilho da pouca estima que a educação paranaense tinha, principalmente quando o IDB baixou nos últimos anos do governo Richa. Mas o que mais afeta é a falta de respeito com que esse governo tratou nossa categoria, batendo nos professores como se fossem bandidos.

Qual o propósito do governador Beto Richa?
O propósito dele é o de insanidade total, no meu entendimento se resume a um fascismo!

Como a alteração do ParanaPrevidência influirá sobre a vida dos servidores públicos do Estado?
Vamos ter que pagar milhões de aposentadorias milionárias para policiais que não estavam enquadrados no nosso sistema. Essa atitude fascista agora causará sobrecarga a nossa categoria de professores e com certeza faltará dinheiro quando chegar a nossa vez de se aposentar.

(Foto: Gazeta do Povo)



O governador está a ser pouco democrático? Por quê?
Os fatos respondem por si. Bater nos professores e feri-los nos seus direitos e na sua dignidade, com balas de borracha, cassetetes, cães, gás de efeito moral e outras atrocidades, são fatos que mostram claramente o quanto esse governo nunca foi democrático.

Como o senhor vê a justificativa do governador? 
Precária e pífia, pois segundo o deputado Marcio Paulik, o governador já garantiu um equilíbrio nas contas do Estado. Então vejamos o comentário dele: "Com o objetivo de garantir a sustentabilidade do Fundo Previdenciário, o deputado estadual Marcio Pauliki apresentou duas emendas ao PL 252/2015 que propõe mudanças no plano de custeio do Paranaprevidência. As sugestões foram elaboradas em parceria com a APP-Sindicato e com o Fórum das Entidades, e devem ser analisadas pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Assembleia Legislativa do Paraná (Alep). Uma das emendas assegura que o estado faça o repasse mensal de 1% dos valores pagos aos aposentados e pensionistas para arcar com os custos administrativos do Fundo Previdenciário. A outra emenda prevê o aporte a ser feito pela administração pública seja atualizado atuarialmente. O valor é estimado em R$ 1 bilhão de royalties provenientes da Itaipu Binacional a ser feito em 2021. Ele afirma que o total que o estado do Paraná irá arrecadar com o aumento da alíquota dos impostos, IPVA, Nota Fiscal Paranaense e Cadin será suficiente para cobrir o déficit financeiro". Essas medidas são suficientes para cobrir o rombo do estado de R$ 4,5 bilhões, o segundo maior do país, perdendo apenas para o Rio de Janeiro. Não vejo porque o governo deve condicionar esse sequestro de R$ 125 milhões todos os meses do Paranaprevidência ao pagamento dos reajustes dos salários do funcionalismo em maio como também às progressões, gratificações.


terça-feira, 28 de abril de 2015

"Eu sou feliz aqui", diz morador de rua


Xan vive nas ruas de Goiânia há tempos. Ele - mestre de capoeira – se mostrou acessível ao diálogo. “Não estou bem”, sussurrou, antes de iniciar a conversa, apontando para a sua perna. Os cabelos grisalhos contam sobre a personalidade dele. Calçava all star, calça jeans e uma camiseta. A vestimenta era simples, humilde, velha para a sociedade.  Aparentava ter 40 e poucos anos, mas olhar de quem ainda quer viver, sem maldade, sem divagações. “Sou feliz aqui, assim”, afirmou. A ele cabe a frase do filósofo Jean-Paul Satre: “Somos condenados a ser livres”, escreveu o pensador em O ser e o nada.

“Cacete, outro dia desses levei uma porrada”, disse. “Ele – falara com o dedo em direção ao Gamba – fez merda. Aí já viu, né”, disse, “levei umas pancadas da polícia”, revelou, com a face pálida, revestida da voz carregada de birita. “Sinto muita dor nas pernas. Mas é só tomar umas cachaças e já revolve”, brincou. Seu amigo e companheiro das ruas, Gamba, permanecia em silêncio. “Aprendi a lutar com ele”, declarou. Corcunda, com feição física desgastada, trajando roupas surradas, Gamba mostrou-se feliz com a vida que leva. “Curto rock satânico”, bradou. Mas ele não queria saber de muito papo. Ficava quieto, enquanto Xan, a gesticular, relatava fatos de sua vida.

De repete chegara Salomão, a segurar um cigarro enrolado num papel de caderno. Cheirava a álcool. “Irmão, tem como você me presentear esse isqueiro?”, perguntou. O isqueiro fora às mãos dele. Imediatamente uma expressão de felicidade ganhou o rosto sofrido de Salomão. Acendeu o cigarro, e dera algumas tragadas. “Tá vendo ele ali. Esse não tem medo de descer a porrada”, afirmou Xan, referindo-se a Salomão, cuja fama era de ser o zelador deles. O trio ao fundo se completava. Eles são “companheiros das ruas”. Moram nas proximidades da Praça Cívica. 

Polícia

O cabo da Polícia Militar, Emanuel Francisco Dias, 47, afirmou que o cruzamento entre as avenidas 84 e Pedro Ludovico é ponto de concentração de moradores de rua. “Eles têm histórico de abandono, e uma estrutura familiar que os facilitou para se tornarem moradores de rua”, disse.

Emanuel ainda disse que a melhor forma de solucionar este problema é investir em educação. “Precisa melhorar todo o sistema”, afirmou. O cabo acredita que a corrupção é uma das causas de haver este contraste social. “Nossos governantes atuam em causa própria”, falou.

Nas dependências da Praça Cívica, no entanto, não há algum morador de rua. “Aqui dentro da Praça não tem moradores”, disse Emanuel.  Eles se concentram próximos da praça. Basta descer a Avenida Goiás para vê-los. Os moradores sentam-se nas calçadas, encostados nas portas das lojas, e por ali permanecem noite adentro.

Pesquisa

A ONU (Organização das Nações Unidas) desenvolveu pesquisa sobre as cidades mais desiguais do Brasil. E Goiânia está entre elas. Numa escala de 0 a 1 – com um a ser o ápice da desigualdade – Goiânia se junta a Fortaleza, Brasília e Belo Horizonte, como uma das capitais mais desiguais do Brasil, com 0,6.

Segundo o IPEA (Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas) cerca de 28 milhões de pessoas saíram da linha de pobreza. Antigamente, afirma a pesquisa, quem usufruía do Estado de Bem-Estar Social era a classe média. Aproximadamente 13 milhões de pessoas, acima dos 15 anos, ou 8,8%, não estão na escola. Já o ensino fundamental os números de matrícula são altos. De acordo com a pesquisa, 98,4% das crianças estão com frequência confirmada no ensino fundamental.

À margem da sociedade

“Você tem três reais?”, perguntou-me um morador de rua, enquanto saía de um posto de combustível em frente à Praça Cívica.

“Não tenho, amigo”, disse - “sou quebrado igual vocês”, completei.

“Não é não”, afirmou - “está bem vestido, de óculos, camiseta, bermuda, tênis novo. E ainda vem dizer que é como nós?”, finalizou.

Por fim, acabei cedendo. Tirei do bolso um real. Ele olhou para o meu maço de cigarros e afirmou:

“Ou três conto, ou três cigarros”

Eu analisei-o, esbocei uma risada, e falei:

“Assim não dá, chefe”, falei.

Ele saiu e foi embora. Eu virei às costas, caminhei em direção ao outro lado da rua e acendi um cigarro. Pensei na vida que levam os moradores de rua. Ninguém os vê. E quando os vê, estão carregados de ideias pré-fabricadas.

Xan e Gamba estavam juntos com o rapaz que me pedira três reais. Eles olharam-me e deram um sorriso. Gamba segurava uma garrafa de 29 – cachaça poderosa no submundo do álcool. Xan, com seus cabelos grandes, calça jeans e tênis, também estava alcoolizado. Acho que Xan nem me reconhecera, devido ao furor do álcool em seu organismo.

“O Gamba e o Xan estavam ali”, comentei com Raphael, enquanto ele abria uma garrafa de vinho.

“Eles te reconheceram?”, perguntou-me.


“Acho que não”, disse – “foda, eles vivem à margem da sociedade. Fazer o quê?”, completei.

segunda-feira, 20 de abril de 2015

Piratas, roqueiros e amigos

Johnny Deep e Keith Richards contracenaram juntos. E descobriram vários pontos em comum.  Durante a entrevista publicada na Rolling Stones EUA – traduzida para a edição 07 de julho de 2007 da Rolling Stone Brasil – eles falaram sobre a experiência que tiveram de conviver por uma semana. Richards interpretou o Capitão Teague, pai de Jack Sparrow (Johnny Deep), em Piratas do Caribe: Fim do mundo. Deep, por sua vez, revelou que se inspirou em Keith para compor Sparrow. Em sua biografia Vida, o guitarrista disse que apenas ensinou ao ator dobrar uma esquina embriagado. “Eu falei para ele que quando for dobrar uma esquina bêbado, jamais evitar a parede”, contou.

Questionado sobre os métodos de preparo para os shows, Keith declarou, entre risos, que a banda faz o mesmo ritual há anos. “Eles me avisam quando faltam dez minutos para começar. A banda geralmente fica dando um tempo lá no meu camarim. E a gente faz o que tá acostumado a fazer [risos]. É uma energia reprimida e você fica ali esperando para que os portões se abram... E lá vamos nós”, disse. O músico à época estava em turnê com os Rolling Stones, em Bigger a Band, quando recebeu o convite de Depp para participar do filme. "O resto dos Stones está relaxando, curtindo, e eu virei um pirata”, brincou. Keith saiu de uma apresentação na Dinamarca para ir ao set de gravação. "Ele chegou feito um pirata, vestido desse jeito. Foi a primeira vez que vi a minha equipe, com quem já trabalho há anos, boquiaberta. Só medindo o cara, espantados. Como se o bandido da cidade tivesse chegado", comentou Deep.


Keith Richards interpretou o pai de Jack Sparrow  (Johnny Deep) em Piratas do Caribe: Fim do mundo

A primeira pergunta é para você, Keith. Sua carreira como astro do rock foi, na verdade, uma espécie de laboratório para o papel de um pirata?
Keith Richards: Acho que dá para ver por esse lado, sim. São dois jeitos diferentes de levar uma vida desonesta. E os piratas são muito democráticos. Tudo está à venda: perna esquerda por tanto, testículos por tanto... Quero dizer, eles tinham negócios rolando naqueles barcos que estavam muito além da Constituição.

Você também tem experiência com bandas, Johnny, na sua adolescência, com a The Kids. Já descobriu se existe alguma diferença entre piratas e roqueiros?
Johnny Depp: Sempre achei que os piratas eram os roqueiros do século 18. Em ambos os casos [dos piratas e dos roqueiros], o mito chega antes deles. Eles estão em todas as bocas meses antes de aportar.


Lembra quando soube pela primeira vez do mito de Keith?
Depp: Isso aconteceu muito cedo. Simplesmente descobri sua música e ele sempre foi meu primeiro amor, desde criança. Lembro de quando comecei a fuçar em uma guitarra pela primeira vez. E Keith está muito na vanguarda.


Já tiveram a oportunidade de tocar juntos?
Richards: Ainda não.


Johnny, e como você se compara, como guitarrista, com esse deus da guitarra aqui?
Depp: Não gostaria nem de começar.

Richards: O Johnny deve ser melhor do que acha que é e eu provavelmente não sou tão bom quanto ele imagina.
Depp: Eu quase tive medo de encontrar Keith por um bom tempo. Sempre existe o temor de que seus heróis vão ser uns imbecis.
Richards: Quando o conheci, no começo pensava: "Ah, outro porra de amigo do meu filho". O Johnny começou nesse status, depois foi ganhando espaço.

Quanto tempo faz isso?
Richards: Acho que foi em 1995, em Nova York. Ou será que foi na Disneylândia? Meu filho Marlon me falava: "Você tem que conhecê-lo, ele é seu fã de verdade". Então, acabei encontrando o Johnny. Não sabia direito o que ele já tinha feito, achei que era um guitarrista, então pensei: "Ah, ele fez uns filmes também. Mais um daqueles caras". Mas depois, ao longo dos anos, a gente se conheceu melhor, tanto que estou aqui vestindo isto [ri de si mesmo ao se ver caracterizado de pirata].


Foi difícil convencê-lo a fazer parte deste filme?
Richards: Foi aquela história do lugar certo, na hora certa, com os caras certos. E, claro, porque ele é um cuzão.

Depp: Que a verdade seja dita.

Acho que você, Keith, teve uma ótima atuação no documentário do Chuck Berry, Hail! Hail! Rock'n' Roll (1987), em que fez o papel de um homem maduro, o produtor do show, enquanto o Chuck tocava o puteiro.
Richards: Era eu fazendo o que costumo fazer. O Chuck pediu, eu fiz. Sou um dos maiores fãs do Chuck Berry. E ele também tem uma história com o Chuck.
Depp: Eu era da The Kids. E a gente abriu para o Chuck Berry em Atlanta, eu tinha 17 anos na época. Ele chegou, entrou no nosso camarim e achou que a gente era a banda de apoio dele. Fiquei extasiado. Ele me passou a guitarra e falou: "Afina". Então liguei na tomada e usei o afinador eletrônico. Ele perguntou: "Que porra é essa?" "Um afinador eletrônico, amigo". Ele ficou fascinado.
Richards: É, o Chuck nunca tinha visto um afinador eletrônico antes. Ele achou que você estava tentando tirar uma da cara dele. Deus abençoe seu velho coração. O Chuck é um grande pirata, do seu modo.
Depp: É verdade, Chuck costumava estorquir, saquear e pilhar em todos os lugares a que ia.
Já que vocês não vêem diferença entre piratas e roqueiros, que tal entre roqueiros e atores? As praias estão entulhadas de ossos de astros do rock que gostariam de atuar...
Richards: Não sei analisar essa. Desde que bati a cabeça [ao cair de uma palmeira nas ilhas Fiji, no ano passado], tive esses médicos que se projetavam como rock stars. Sou só um músico. E se as pessoas gostam do que faço, graças a Deus, isso me leva a produzir mais. E eu quero fazer mais. Taí uma coisa que você não considera quando entra no jogo.


Johnny, seu personagem, Capitão Jack Sparrow, colocou você em outro patamar: o de ícone do cinema.
Depp: Não sinto nada diferente em relação a qualquer outro papel que já tenha feito. É que mais gente viu este filme e gostou do personagem. Fiquei chocado e comovido com isso.


Como vocês definem o encanto do Capitão Jack Sparrow?
Depp: Acho que é irreverência pura, ele é o malandro.

Richards: Ele representa um potencial de liberdade, quebra barreiras.

Quando você pensou no Keith ao compor o personagem, Johnny?
Depp: Você pergunta: "Quem é o maior rock star do mundo? Quem é interessante e carismático?" E então responde: "É o Keith, não é? É o Keith".


É verdade que quando você era pequeno, Keith, gostava do Roy Rogers, o caubói-cantor?
Richards: É verdade, ele era demais. Sabia atirar, tocar guitarra e andar a cavalo. O que mais você quer?


Quando você foi para o lado negro, na direção dos piratas?
Richards: Isso veio mais tarde, naturalmente. Você cria uma imagem que te acompanha para sempre. Você pode limpar a sua barra e virar uma pessoa certinha, mas mesmo assim, arrasta sua vida toda atrás de você.


Johnny, você teve reações negativas dos executivos dos estúdios quando começou a criar o Jack Sparrow, não?
Depp: No primeiro mês de filmagem todo mundo pensou que eu tinha pirado.

Richards: Não, a abertura com você no navio encalhado... Eu não teria feito nada melhor.

Então você viu o filme, Keith?
Richards: Claro. Como poderia não ter visto com meus netos por perto? Vi quando o primeiro [Piratas do Caribe: A Maldição da Pérola Negra, 2003] foi lançado. No segundo [Piratas do Caribe: O Baú da Morte, 2006], acabei dormindo no meio, mas foi porque estava acordado há três dias.

Depp: Eu também teria dormido.

Keith, você percebeu alguma semelhança logo de cara entre você e o personagem feito pelo Johnny?
Richards: Ele me ligou quando começou a dar entrevistas sobre o filme e disse: "Antes que você comece a ler por aí, tenho que te dizer que baseei algumas coisas do meu personagem em você". Bom, obrigado por me contar, Johnny. Do contrário, teria te processado até a alma [risos].


E quando você teve a idéia, Johnny, de chamar Keith para ser o seu pai em Piratas do Caribe 3?
Depp: Foi em um jantar, em Nova York. Mas nunca tive certeza de que ele toparia.

Richards: Eu tive uma semana de folga, Johnny.
Depp: Um tempo muito bem utilizado.
Richards: É. O resto dos Stones está relaxando, curtindo, e eu virei um pirata. É só uma coisa diferente para fazer. Mas não sei se consigo dar conta. Mas é isso, ou eu teria uma fala só e iria embora.

Como ele está se saindo?
Depp: Muito bem. Ele é o "Richards-Duas-Tomadas".


Supostamente, o cantor Frank Sinatra tinha paciência para um só take quando estava atuando.

Richards: É, mas ele era um grande filho da puta.

Depp: Acho que o Sinatra sempre acertou na mosca. Ele podia sair de cena e estaria tudo certo.

Johnny, o sucesso estrondoso dos dois primeiros Piratas surpreendeu você?
Depp: Muito, porque estou acostumado a ter só umas 18 pessoas assistindo aos meus filmes.


Keith, este é o mais perto que você vai chegar de um personagem da Disney?

Richards: Sou o próximo Mickey Mouse, tome cuidado.

Depp: Um Mickey com dreads.

Johnny, qual foi o disco dos Stones com o qual você mais se identificou?
Depp: Eu era fã das coisas mais antigas. Sempre caí mais para os lados das faixas do Keith: "Before They Make Me Run", "Little T&A". Como guitarrista, ele era um deus, e ainda é. Só não conte isso para ele.


Johnny, em algum nível você se considera um rock star falido?
Depp: Pior que isso, sou um músico falido. A música era a minha vida, meu primeiro amor.

Richards: Ele tem uma das melhores coleções de guitarra que eu já vi, é muito eclético.
Depp:Tenho uns belos violões L1, da Gibson.

Jonny Deep e Keith Richards



Keith, você não vem usando um anel de caveira e outros apetrechos de pirata desde a época de sua banda solo, a X-pensive Winos?
Richards Desde o final dos anos 60, começo dos 70. Tenho um grande amigo que também faz minhas algemas, mas não dá para mostrar agora porque estão embaixo destas malditas mangas de pirata.

Ao longo dos anos, algumas das melhores frases foram atribuídas a você. Uma delas é "Não viajo sob nenhuma bandeira. Sou um músico". O que para mim é o éthos dos piratas...
Richards: Cara, se não tivesse uma guitarra, teria um barco.
Depp: E eu, um Maserati.

Você acha que tem que ser meio pirata para sobreviver na música?
Richards: O mundo da música nunca foi diferente. É uma piscina cheia de piranhas. Quer entrar ali? É melhor você não ser saboroso.


Aqui vai mais uma frase atribuída a Richards: "Nunca tive problemas com drogas. Tive problemas com a polícia".
Richards: Eu também apoio essa frase aí [risos].


As crianças que nasceram agora podem descobrir o Keith através do Piratas. Como você vê isso?
Richards: Ótimo. Sensacional.
Depp: Se for assim que elas vão descobrir o Keith, beleza.Tem também mais 40 anos de uma música incrível para descobrir depois.

Richards: Descobriram o Johnny, não foi? Podem me descobrir também. É uma geração diferente, e é por isso que estou fazendo o papel do pai dele.
Como vocês comparam a fraternidade entre uma banda com a fraternidade entre os piratas?
Richards: São uma tripulação, certo? É um trabalho em equipe. O Johnny vem fazendo Piratas do Caribe há três ou quatro anos, faz e pára, faz e pára. E a tripulação dele fez com que me sentisse em casa. É uma coisa de família. Minha vida inteira gira em torno disso.


Você já recusou muitos papéis como ator?
Richards: Já me ofereceram algumas coisas, mas eram todas muito ridículas. Só faria isso com amigos, e foi assim que aconteceu desta vez. É por isso que estou usando esta merda de peruca que pesa 2 quilos.


Quantas horas você levou para se maquiar? Porque devo dizer que esse visual de pirata ficou bastante natural em você.
Richards: Leva cerca de uma hora e meia, porque eles colocam várias cicatrizes. Como se eu já não tivesse cicatrizes o suficiente.


Como anda sua atuação?
Richards: Fingir ser o pai dele se tornou interessante. Não sei direito o que estou fazendo - porque é por muito pouco tempo - mas estou dando o melhor de mim. Sei que posso olhar para esse homem nos olhos e a gente pode dar uma de bobo sem errar a mão.

Depp: Ele chegou feito um pirata, vestido desse jeito. Foi a primeira vez que vi a minha equipe, com quem já trabalho há anos, boquiaberta. Só medindo o cara, espantados. Como se o bandido da cidade tivesse chegado.
Richards: Você juntou uma equipe e tanto.
Depp: Tome muito cuidado comigo, seu degenerado.

O Jack Sparrow tem problemas com o pai?
Depp: É uma relação de amor e ódio.

Este filme obviamente interrompeu a turnê dos Stones. Como estão indo os shows?

Richards: Muito bem. Eu saí da Dinamarca para fazer isto aqui. E vamos combinar que, se os shows dos Stones não estivessem indo bem, você já teria lido a respeito em tudo quanto é lugar. Mas ao vir para cá, pensei que estava com jetlag, mas consegui filmar mesmo assim. A carcaça do velho aqui ainda está segurando a onda?

Depp: A carcaça ainda está segurando a onda, sim.

O produtor e chefão Jerry Bruckheimer veio ver vocês dois juntos?
Depp: Sim, ele veio ver a gente ontem.
Richards: Grande coisa. Eu já vi todos eles indo e vindo, meu bem& [risos]
Quando você era mais jovem, Johnny, chegou a ver os Stones no palco ou os shows eram muito caros para você?

Depp: Estavam muito fora do meu orçamento. Agora já vi várias vezes. E só vai ficando melhor. É inacreditável a energia deles.

Richards: Eu preciso de expiação.

Você ainda toca e compõe, Johnny?
Depp: Sim. Toco em casa, faço umas gravações caseiras, toco em discos de amigos. Às vezes toco em mim também.
Richards: É, sempre tem isso.

Keith, você levou um século para fazer um álbum solo [Talk Is Cheap, 1988]. Johnny, você faria um disco?

Depp: Não. Acho que músicos dando uma de atores é uma coisa, mas atores dando uma de músicos...

Richards: Você pode fazer o que quiser. Deixa de ser medroso.

Keith, você contribuiu com alguma música para este filme?

Richards: Só com um pouquinho de "ho, ho, e uma garrafa de rum"& o Johnny conseguiu mandar fazer uma guitarra maravilhosa em uma semana, que parece ter 300 anos. Então, fiz um pouco do que faço para me aquecer nos shows. E eles disseram que gostaram.


Mas você tocou no filme?
Richards: Sim, uma musiquinha adorável. Vocês vão adorar.


Vocês dois parecem piratas mesmo - dois cães sarnentos e maliciosos.
Richards: Ele já vem me lambendo há alguns anos.


Contracenar neste filme deixou vocês dois mais próximos?
Richards: Obviamente, a gente pôde se conhecer um pouco melhor. Quero dizer, ele virou um camarada meu: "Quer fazer isso?" "Claro, por que não? O máximo que vai acontecer é eu cair de cara, certo?"
Depp: Você não caiu de cara.

Mas em termos de rock'n'roll, você não acha que está abrindo um novo precedente para a longevidade?
Richards: Não tem essa história de "em termos de rock". Quem pode dizer quanto tempo alguém pode continuar a fazer isso? Bater as botas com 19 ou 20, quando você está legal. Dois anos nas paradas.


Bom, é uma questão de orgulho que você seja um símbolo de&
Richards: Não é uma questão de orgulho, a gente só continuou tocando. E você pode continuar fazendo quando tem uma banda. Por que não? Quantos milhões de pessoas estão aí querendo me ver? Caralho, quem sou eu para dizer não? Vou me divertir muito com essas pessoas. Rock tem que ser divertido. Sério, preciso da adrenalina e ali existe uma troca de energia.


O Keith inspirou você na carreira, Johnny?
Depp: Ele é determinado.
Richards: Ele provavelmente pensou nisso antes de me conhecer.
Depp: Ele era uma das pessoas que eu admirava pelo que já havia feito e pela maneira como lidava com aquilo. Quarenta e tantos anos sendo esse deus. E ele é bacana.

Keith, quando você começou a falar com a imprensa, era surpreendentemente objetivo e honesto.
Richards: Depois de tudo por que passei, foda-se. Você quer saber como é? É assim. Não sou nenhum anjo.


Mas agora você é um ator. O que você aprendeu com o Johnny?
Richards: Antes de rodar uma cena, os olhos dele mudam e ele vira o Jack.
Depp: Isso é sério? Eu não percebo essa mudança.
Richards: Você incorpora o Jack em um segundo.
Depp: Não fazia idéia.

Você era um músico carismático quando estava no palco, Johnny?
Depp: Não mesmo. Eu tentava ficar longe dos holofotes.

Richards: Isso é difícil. Não funciona.

Keith, como você entra no clima para um show dos Stones?
Richards: [Risos] Essa é uma pergunta perigosa. Eles me avisam quando faltam dez minutos para começar. A banda geralmente fica dando um tempo lá no meu camarim. E a gente faz o que tá acostumado a fazer [risos]. É uma energia reprimida e você fica ali esperando para que os portões se abram... E lá vamos nós.


Como Jack Sparrow, Johnny, o que você pegou do Keith, além do olhar?
Richards: O olhar, é verdade. Elegantemente bêbado.

Depp: Eu não estava tentando fazer uma imitação do Keith, mas tem alguma coisa nele que achei que teria a ver com o personagem.
Richards: Bom, você voltou para sua história de rock stars e piratas.
Quero dizer, esta roupa que a gente está usando foi tirada de gravuras de piratas que se mostravam como queriam que fossem vistos. Você não acha que eles ficavam no convés usando essa merda, né? Eram os cartões-postais deles. É assim que eles querem ser apresentados, como querem ser percebidos. No dia-a-dia, eles deviam usar cuecas e mais nada.

O que os dois piratas sabem sobre ser cool que o resto de nós não sabe?
Richards: Se você é cool, você não sabe nada sobre isso. Ou você é ou não é.