domingo, 8 de novembro de 2015

Poesia não precisa ser em verso

Ela era uma leoa
Com seus cabelos pretos cintilantes
Que iam até a cintura. Ao passar
Desfilava beleza. Era inevitável não
Olhá-la

Quando a vi
Quis apenas
Trocar-lhe a pele branca.
As palavras saiam
Com dificuldade de minha boca
Na maioria das vezes
A gente nem conversava. A parte boa
De um escritor encontra-se no papel. A outra
Pode ser jogada no lixo
Que ninguém irá sentir falta

“Cê é um cara engaçado”, me disse ela

Talvez eu não seja
Engraçado. Talvez eu seja
Apenas um idiota
Com frases poéticas
Na ponta da língua

Ela era uma poesia
Eu conseguia encontrar
Poesia nela, sem esforço. Encontrava poesia
Em seu andar. Encontrava poesia
No desenho do seu corpo. Encontrava poesia
Em todo o resto

A poesia não
Precisa ser em verso. Poesia
Precisa ser sentida
A poesia é o consolo do poeta
Que fica trancado num quarto escuro
Esperando o momento certo
Para começar a bater na máquina


quinta-feira, 29 de outubro de 2015

Cê pode me dá um cigarro?

Ele puxou um cigarro do seu maço de Marlboro. Ela arrastou a cadeira, e sentou-se. Ele bebia longos tragos de sua birita – um Passaport com Antarctica. Ela fitava-o, tentando entender o que se passava pela mente dele. Ele buscava o paradoxo. Ela o pragmatismo. Ele queria apenas um bar para afogar as lágrimas, quando os versos não saírem , e o mundo não entender-lhe, e as horas passassem rapidamente pelos ponteiros do relógio. Ela queria um refúgio nas horas de solidão. Ele queria beber mais uma dose, nas horas de solidão.

- Quando você vai procurar fazer algo decente? – disse ela.

- Não existe nada decente pra ser feito.

- E isso é o melhor que tem.

- Sei lá.

- E o quê você sabe?

- De nada.

- De nada?

- Só sei que nada sei – disse ele.

Ela não gostou da resposta que saiu da boca dele. Ele pegou a garrafa de cerveja que estava em sua frente, e encheu seu copo. Ela retornou. Ele seguiu em seu ritual.

- Cê bebe tentando expressar algo.

- Mas não é nada.

Ele levantou da cadeira. Foi até o caixa, pagou a cerveja e retornou à mesa.

- O que foi fazer? – perguntou ela.

- Pagar a conta.

- Mas já?

- Não há nada pra se fazer aqui.

- Como?

- Não há nada pra se fazer aqui – repetiu ele.

As sobrancelhas dela subiram e desceram. Ela abriu um olhar contestatório. E ele seguia caminhando na frente dela, pelas calçadas. E ela resmungava algo.

- Porra – bradou ela -, a gente não fode, a gente não bebe, a gente não faz nada.

- Eu gosto de nossa vida.

- Cê é parado demais... cê é vibrado demais na tua poesia.

Os dois entraram no carro. Ele ligou Black Sabbath. Ela desligou o rádio.

- Agora até a minha música cê deu de controlar?

- Quem disse que isso é música?

- Ah, esqueci que música pra você é somente aqueles chatos do século XIX.

Ela deu um suspiro profundo, e disse:

- Música é música. Merda é merda.

- E Black Sabbath é merda?

Tommy Iommi solava.

Os dois cessaram a discussão. Ele puxou outro Marlboro do maço.

- Posso te pedir um favor?

- Sim – respondeu ele.

- Cê pode me dá um cigarro?

(Texto originalmente publicado no Diário da manhã)


quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Ensaio sobre a vida, a morte, a sexualidade e a arte

A gente vive pensando na morte. O quê faremos amanhã? Será que as luzes vão se apagar? Será que eu vou conseguir terminar este texto? A gente têm alguns minutos de excitação sexual, e logo voltamos à rotina maçante e monótona, imposta pelo capitalismo. Em nossas cabeças só há “produção em série”. Ou “produzir para ser alguém”. Dizem por aí que o trabalho dignifica o homem. Mas não seria o ócio- o pai de todas as artes – que dignifica e sensibiliza o homem?

O filosofo Epicuro acreditava que o prazer e a dor são à base do sentimento humano. A dor seria o mal, enquanto o prazer seria o bem. Epicuro discorria sobre a morte, afirmando que o ser humano conseguirá viver em paz quando aceitar a morte, que simboliza, apenas, o fim da consciência. Por isso ela não pode ser emocionalmente dolorosa. A morte é a libertação da alma, sobre o plano existencial. É o fim, amigo, como diz a canção do The Doors.

A existência proporciona-nos experimentar algumas sensações. A cada orgasmo, temos a convicção de que deixamos a nossa marca na vida. Gritamos, porque parece, por alguns minutos, que somos eternos, e temos de gritar. Mas a moralidade e os bons costumes conseguiram transformar a nudez em algo banal, feio, obsceno. Henry Miller fora denominado como pornográfico, ao escrever a trilogia A crucificação encarnada. Nelson Rodrigues satirizava, em suas peças teatrais, os costumes da sociedade burguesa, como bem o fez em Toda nudez será castigada. Foi tido como louco, pela imprensa brasileira.

Só que a sociedade burguesa quer o trabalho rotineiro. A sociedade burguesa não permite a vida plena e criativa. Não é necessário criar, para eles. Na verdade, se você conseguir reproduzir o que querem, melhor. Eles vendem para você uma falsa noção de estabilidade, através de um salário no final do mês. Mas quem disse que queremos ter esta estabilidade? E se quisermos encher a cara, nos bares baratos? Deixem-nos com nossos poemas baratos, em nossos bares baratos, em nossa vida simples e incerta. A vida é incerta, meus amigos. A vida é um palco, cujos atores somos nós. A qualquer hora o enredo poderá chegar ao fim. E as luzes irão se apagar.

A gente quer gozar no ventre feminino. A gente quer contemplar e amar a beleza feminina. William Blake era sábio quando disse que o corpo feminino é a mais bela das obras de arte. Eles geram vida. Eles incendeiam prazer. Eles equilibram o mundo, como falara Truffaut, em O homem que amava as mulheres. Mas a lógica cristã culpa-nos por uma trepada libertadora. Contudo, os homens só vivem na bondade e negam que a forma de um povo está expressa no corpo humano. “A forma como um povo se expresssa nas palavras, no corpo, nos gesto é a maneira como ele se expressa na política e no social que consitui uma nação.”, disse Wilhelm Reich, discípulo da psicanálise freudiana.

Sábio Reich. Já Carl Jung, psicanalista que influenciou o filme oito e meio, de Fellini, acreditava que a mulher é um ser perturbador. “Ela própria, enquanto elemento perturbador, é perturbada”. Ele, ainda, afirmava que elas transformam e iluminam as vitimas da confusão, tornando-se o centro dos acontecimentos. “Como elemento transformador, ela mesma se transforma e o clarão do fogo que acende ilumina e clareia todas as vítimas da confusão.”

Gustave Coubert, em L’origine du monde, não escondera o corpo feminino. Pintara uma vagina. Aquilo chocara os moralistas franceses, que tomados pela lógica cristã acreditavam que o corpo deveria ser escondido e odiado. Edmund Monet, em seu quadro Olympia – nome escolhido pelo poeta Charles Baudelaire -, também pintara as curvas femininas. Como dissera Freud: “Os órgão genitais, cuja visão é sempre excitante, dificilmente são julgados belos; a qualidade da beleza, ao contrário, parece ligar-se a certos caracteres sexuais secundários.”

Henry Miller num trecho de Sexus – primeiro volume da obra A crucificação encarnada -, disse que a mulher esconde entre as pernas o paraíso do mundo. Miller fora um rebelde. Ele renegou toda a ordem imposta. “O poeta é o sacerdote do invisível”, definiu, brilhantemente, Wallace Steves. Miller fora um sacerdote que poetizou e viveu e amou. Amou a vida, acima de todas as coisas. Miller vivia para contar histórias, e não para colocar tostões nos bolsos. Tanto que em vários trechos de Plexus – segundo volume da obra A crucificação encarnada -, ele conta suas façanhas para conseguir dinheiro. Ele não preocupava-se com o que iria comer. Ele apenas queria viver plenamente e unicamente, como o seu mestre Rimbaud, que abandonou a poesia aos 19 anos, para ser traficante de armas na África.

A gente quer ver o sol nascer, sem compromissos banais e insignificantes. A gente quer a poesia. A gente quer o mundo, e o quer agora. Ainda temos tempo de amar e ser amado, cara. O espetáculo não acabou. O ator ainda está no palco, encenando e declamando o horror. Mas ele pode mudar este enredo. Ele pode declamar a poesia dionisíaca - a poesia do sofrimento e da libertação. Estamos perdendo tempo, indo para empregos inúteis, trabalhando oito horas por dia, todo dia. A gente precisa do teatro, da dança, da música, da poesia; a gente quer o teatro, a dança, a música e a poesia todo dia.

(Texto originalmente publicado no Diário da Manhã, em 25/10)

terça-feira, 20 de outubro de 2015

A ressurreição dos barões

Capa
Título: Na calada da noite

Grupo: Barão Vermelho

Gravadora: Warner Music

Ano: 1990

Cazuza era o vocalista do Barão Vermelho, quando o grupo se apresentou no primeiro Rock in Rio, em 1986. Meses depois, ele anunciou sua saída da banda. Frejat, Dé, Maurício Barros e Guto Goffi lançaram Declare Guerra, em 1986. Deste álbum, apenas uma música, Torre de Babel, tocou nas rádios. Em contrapartida, Cazuza lançou, em 1985, Exagerado e foi bem recebido pelo público. Os barões, nesta época, nem sabiam quem ocuparia o lugar deixado por Cazuza. Após votação, Frejat foi o escolhido. “Eu já era acostumado a cantar as músicas, porque Cazuza me entregava à letra, e eu musicava”, disse o cantor e compositor, durante entrevista, no Programa do Jô.

Só se for a dois saiu, em 1987. Cazuza flertou com uma musicalidade mais leve. “Eu me tornei cantor de churrascaria”, falou o poeta, à época. Já o Barão caminhou mais para o blues. Rock in geral tinha uma pegada bluseira, como pode ser visto na música de trabalho, Quem me olha só. “É o álbum mais injustiçado da história do rock”, comentou o baterista, Guto Goffi. Segundo o livro Por que a gente é assim, biografia da banda, Rock in geral vendeu apenas 15 mil cópias. Enquanto isso, Cazuza caminhava à MPB. E o Barão queria o retorno ao cenário de sucesso, que antes lhes pertencia. 

No ano seguinte, o Barão gravou Carnaval. O disco tinha o hit Pense e dance, que estava na trilha sonora da novela Vale tudo. Neste período, Cazuza foi a Boston tratar a AIDS. O cantor já era soropositivo e sofria repúdio de parte da imprensa. Ele foi ao Jô Soares e Onze e Meia e disse que cuspiu na bandeira do Brasil, durante um show. “Um monte de gente me parabenizou, dizendo que também queria fazer aquilo”, disse ele, segurando um cigarro entre os dedos e com um leve sorriso no canto da boca.

O Barão, após o sucesso de Pense e dance, conseguiu uma oportunidade de abrir a turnê de Rod Stewart, pelo Brasil, em 1989.  Neste mesmo ano, o grupo lançou o visceral Barão Ao Vivo – disco que contém os maiores clássicos do grupo e uma versão pesada de Satisfaction, dos Rolling Stones. No disco, a banda contava com outro guitarrista, Fernando Magalhães – fã de The Who. Para o produtor musical Ezequiel Neves, “a energia de Frejat e Fernando podem iluminar uma cidade de até um trilhão de habitantes”.

Mas o retorno definitivo às paradas de sucesso veio apenas em 1990, com o disco Na calada da noite. O poeta está vivo é um símbolo deste álbum “O poeta está vivo é um dos maiores trabalhos do meu ofício, da minha obra”, afirmou Frejat. Para Guto Goffi, o solo de Fernando Magalhães é um dos maiores do rock nacional. “O solo do Fernando é, tranquilamente, um dos doze maiores do rock nacional”, disse o baterista. Frejat conta que compôs a letra, sem nenhum bloqueio, mas disse que tentou várias vezes criar o solo, só que nunca achava que estava bom. “Tentei umas três, quatro vezes e nunca ficava legal”, disse o guitarrista. “Aí o Fernando o tocou, e ficou lindo”, completa. 

Na calada da noite, ainda, contou com a visita de Cazuza, nos estúdios. Ele chegou acompanhado de seu segurança particular. Aí, ouviu o disco e conversou com os barões. “A gente sabia que seria uma despedida”, contou Guto Goffi. O poeta está vivo se tornou uma homenagem póstuma ao cantor. Até hoje, a canção é indispensável nos shows do Barão. Cazuza morreu em 7 de julho de 1990, após complicações causadas pelo vírus HIV. Na calada da noite chegou às lojas alguns meses após a morte de Cazuza. 

Contracapa
O Barão era:

Roberto Frejat: Voz, Guitarra e Violão

Fernando Magalhães: Guitarra e Violão

Dadi: Baixo

Guto Goffi: Bateria

Maurício Barros: Teclado e piano

Peninha: Percussão


Na calada da noite (álbum completo):



Marcus Vinícius Beck

sábado, 3 de outubro de 2015

Isso matou Dylan Thomas

Penso. Meu ofício é escrever. Escrevo para me salvar. Escrevo porque tenho medo. Escrevo, simplesmente. Que mal há nisso? Sorriso do poeta. Brilho da noite. Uivo da guitarra. A garota passa ao meu lado. Sinto seu odor entrar em minhas narinas. Fecho os olhos, e procuro fotografá-la em minha mente. Logo em seguida, tento reproduzir as imagens. Verdadeira poesia. Caminho pelas calçadas à noite, com um cigarro entre os dedos. Nada pra fazer. Os bares estão fechando. Eu tenho apenas algumas moedas nos bolsos pra garantir um conhaque de dois conto. Um homem precisa de um trago, assim como precisa de uma boceta. Um homem sente a vida, os desesperos, as pressões, as angústias, o grito. Puramente, o grito. Abra a janela. Coloque a cabeça pra fora. E grite. Grite. Grite. Dionísio bebia vinho. Shakespeare fumava maconha. Oscar Wilde degustava a fada verde. Jim Morrison enchia a cara e recitava poemas. Os loucos. Eu gosto dos loucos. Gosto de andar no meio da rua às cinco da madrugada. Declamo poemas, em lugares monótonos. Preciso de um som. A vida precisa de um som. O mundo precisa de um som. Um carro passa ao meu lado com o farol ligado. Ninguém entendeu a música. E os dias acabarão. E todos ficarão parados, esperando por frases feitas, esperando por histórias. Mas não há histórias. Em algum lugar erramos, mas não temos consciência aonde foi. Buscamos respostas. E desistimos das conclusões. Ligamos a tv. Recorremos à rede. Estamos conectados. Tudo é virtual. Isso matou Dylan Thomas. 

domingo, 27 de setembro de 2015

POÉTICA EMBRIAGADA

Tenho em meus olhos a mentira, o medo, a incerteza, a covardia. Vivo, simplesmente. Os deuses escolhem os bons pra morrer. Eles mentem. E vivem. E fodem. Ligue o som, cara. Sinta a música na noite, como Schopenhauer. Embriague-se sem pressa, sem pressão, sem motivos; apenas embriague-se de noite, de dia; simplesmente embriague-se de vinho, uísque ou maconha; puramente embriague-se de poesia e cinema. Apollo não era devoto do sofrimento. Dionísio sentia a dor e bebia vinho. Sócrates provocava a acrópole. Rimbaud fora à África. Van Gogh enlouqueceu. Um homem não consegue criar o dia todo.

Marcus Vinícius Beck

domingo, 20 de setembro de 2015

Merda também pode ser poesia

“Vou embora”, ela me disse

Acendi um cigarro
E pensei 
As pessoas
Entram
E saem de nossas vidas.
Os ponteiros caminham nos relógios. Eu sempre estraguei tudo
Agora uma garota loucamente linda
Saí pela porta da frente

Fiquei sentado em meu sofá, com minha garrafa de cerveja na mão
A vida é estranha
As pessoas são estranhas
O mundo é estranho
Um dia eu estraguei tudo
Um dia disparei palavras
Um dia ela falou que eu era um idiota
Mas
Sou um idiota que bebe e escreve alguns poemas vagabundos
Um idiota com argumentos na ponta da língua.
Um idiota que não gosta de Cold Play
Um idiota que não gosta de Emile Bronthe
Um idiota que gosta de Truffaut e Pink Floyd
Um idiota que gosta de rock progressivo

“Querida”, gritei

Ela virou a face:

“Não vá”, eu disse

“Eu preciso”, completou ela, entrando em seu carro

Os minutos pareciam travados no ponteiro
Imaginei as vezes que fodemos despreocupadamente
Na cozinha de casa.
Ela recostada na mesa. Eu beijando-a e metendo
Como num filme
Eu a vejo em minha cabeça. Teu beijo. Teu sexo. Meu pau em tua boceta
Passou, querida
Agora outro passará as mãos em teus cabelos
Enquanto eu abro
Mais uma garrafa de cerveja

Costumamos deixar os momentos irem embora
E depois
Escrevemos palavras
Que não traduzem o que sentimos
Merda
Merda também pode ser poesia
Viver é foda

Marcus Vinícius Beck

sábado, 19 de setembro de 2015

Cartas na Rua

Título: Cartas na Rua
Autor: Charles Bukowski
Tradução: Pedro Gonzaga
Editora: LP&M
Ano: 2013
Páginas: 192




Cartas na Rua é o primeiro romance do escritor Charles Bukowski. A obra narra, através da ótica de Henry Chinaski, o período em que Bukowski trabalhou nos correios. Na primeira frase do livro, Chinaski diz: “Tudo começou com um erro”. Aí, o leitor imediatamente se pergunta: quê erro? Bem, o erro de Bukowski foi trabalhar por onze anos nos correios, emprego que odiava. Bukowski conta-nos como o trabalho transformou sua vida, fazendo-o sentir fortes dores nas costas e estresse. Com um humor ferino, Bukowski escreve para aqueles que sabem como é ter um emprego monótono. 
Cartas na Rua apresentou-nos o estilo conciso e objetivo e repleto de diálogos do velho safado. Bukowski dividiu a obra em vários capítulos curtos. Conforme disse o autor: “Eu me preocupava com o ritmo”. Dessa forma, nota-se a forte influência de Hemingway e Fante.

Cartas na rua é um livro direito. No natal, Henry Chinaski recebe uma oferta para um trabalho temporário “que qualquer um faria”. Ele não imaginava que continuaria neste trabalho, entre idas e vindas, por onze anos. Chinaski era encarregado de substituir carteiros que faltavam, sobretudo quando chovia. Então, ele sempre tinha a rota mais difícil. As cenas detalham sobre insólitos encontros com cachorros e senhoras nada simpáticas. Jonstone, seu chefe, designava-lhe estas rotas, e ele ficava furioso.

Chinaski divide um apartamento com Betty. Aí, ele demitiu-se. Ela começou a trabalhar. Mas ela começou a preocupar-se, mesmo com Chinaski arcando com as despesas, sobre o que os vizinhos diziam sobre ele. Então se separaram. Chinaski perdeu a mulher e o cachorro. Nesta altura do romance, Betty disse que o cachorro iria sentir saudades dele. Ele respondeu: “Alguém, pelo menos, irá sentir saudades de mim”.

Hank se junta a uma mulher do Texas. Joyce era uma garota rica e mimada, que casou-se com ele para mostra-se independente aos seus pais. Ele retorna aos correios. Ela começa a trabalhar na prefeitura, e apaixona-se por um empregado. Então, eles se separam. Já que Joyce não sabia dirigir, Hank ficou com o carro. "Deus, ou seja lá quem, continua cuspindo-as nas ruas, e o rabo dessa é muito grande, e os peitos daquela são pequenos demais, e aquela outra é louca, e outra totalmente pirada, tem uma ainda que é religiosa e outra que adivinha o futuro em folhas de chá, há a que não consegue segurar seus peidos, e mais aquela que tem um nariz imenso, sem esquecer daquela de pernas esquálidas" Pg.133/134


Após algum tempo, Chinaski reencontra Betty. Ela comunica-lhe que o cachorro foi atropelado e morreu. Na sequência, eles se dispersam. Então algum tempo depois, Chinaski vai até o hotel em que Betty morava. Ela não estava. Ele a encontrou no hospital, onde a viu morrer. Após a morte de Betty, Chinaski se interessou por uma mulher no hipódromo, que costumava ir. Fay frequentava algumas oficinais literárias, andava sempre de preto e dizia estar protestando contra a guerra. Passaram a morar juntos. Ela engravidou, e deu a luz a uma menina chamada Marina. Neste momento do livro, Chanski faz uma bela reflexão: “As mulheres vieram ao mundo pra sofrer”.  Após o nascimento da menina, Fay resolveu se mudar. Ela ficou com Marina. Hank com o gato. E concordou em dar-lhe uma quantia por mês. O livro termina com Chinaski demitido do correio e falando que irá escrever um romance.

Cartas na rua é uma obra simples, sem devaneios. Bukowski ao escrevê-la demonstrou uma estrutura narrativa direta e rítmica. Ao contrário dos outros romances do velho safado, em Cartas na Rua temos um Chinaski em meia idade, que ama sua família e nutre um pouco de esperança na humanidade. Presente em todas as obras do escritor, as mulheres tem uma parte especial na bibliografia de Bukowski. Em Cartas na Rua, ele também discorria sobre como as mulheres se prendem as opiniões alheias e esquecem-se de viver suas próprias histórias.


sexta-feira, 18 de setembro de 2015

THE DOORS NA VITROLA E TUA LEMBRANÇA


Bem que podia
Existir um lugar
Pra se esconder
Quando a novela não prestar
E a maconha não funcionar
E o álcool perder a graça
E a gente não encontrar a solução
Pra onde ir.
A vida é um jogo
Que
Ninguém avisou-nos de que
Jogá-lo é foda
Aí, a gente fica tentando buscar
Explicações. Mas não há explicações. Há dia pós dia. Porre após porre. Foda após foda
Há sucessão de fatos. Há sempre outra tragada. Há sempre outra trepada. Há sempre outra mulher. Há sempre outras merdas a serem protagonizadas
Há o disco do The Doors tocando ao lado. Há teu sorriso gravado em minha memória. Há lembranças. Há minha velha máquina de escrever, que salva-me de mim mesmo e de minhas loucuras e delírios e devaneios.
Sou medroso. Penso que todos os homens o são. Por isso vivo à noite. Tenho minhas ideias, quando todos dormem em suas camas de cinco mil reais. Escrevo, enquanto a mulher grita ao lado, celebrando o prazer dos corpos.
Grito pra eles
Mas ninguém parou
Ela passou a gemer mais alto
Eu passei a bater em minha máquina freneticamente
Dois idiotas. Ou só um idiota
Provavelmente eu
Que tento competir com o prazer
Humano.



quarta-feira, 19 de agosto de 2015

Vai corintia

Abri meus olhos. Eram oito da manhã. O sol entrava pela janela do quarto, e ia às minhas pálpebras, machucando-as. Levei um cigarro à boca. Deixei-o pela metade e saí da cama. Coloquei Nei Young no som, e lembrei que à noite o Corinthians jogaria contra o Santos, em partida válida pelas oitavas-de-final da Copa do Brasil. “Acho que o timão vai priorizar o campeonato brasileiro”, pensei.

No caminho para o trabalho encontrei vários caras com camisetas do Corinthians. Eles estavam numa espécie de corrente de energia. Vestindo-as, imaginavam que o resultado da partida poderia ser satisfatório. Corinthians x Santos. Mas o timão perdeu o último confronto, pelo brasileirão. Foda, torcedor sempre encontra um motivo para celebrar o pessimismo. Comigo não era diferente. Aprendi com Dostoievski a ser pessimista. Estendi-o ao futebol. E nunca mais me desliguei das palavras do mestre russo. Elas estão vivas dentro de mim.  Às vezes, deixo-as divagando pelo meu cérebro. 
Depois, resgato-as.

- Ei, senhor – eu disse, apontando para o faxineiro da Atento, que estava na companhia de um teleoperador da Vivo -. Pode me arrumar um cigarro?

O senhor estendeu-me a mão, com a carteira aberta. Peguei um. Então ofereceu-me outro. Aceitei.

- Quem vai ganhar hoje? – perguntei.

- O jogo?

- Sim.

- Acho que o timão – disse ele.

Continuei a fumar. Olhei para relógio em meu pulso. Faltavam quinze minutos pra eu retornar à sala de treinamento. Acendi o outro cigarro. E prossegui o diálogo com o senhor. Ele me contou sobre sua vida, suas incertezas, suas loucuras, seus anseios e desatinos. Eu o fitava, compreendo aquelas palavras lúgubres que saíam de sua boca.

- Minha mulher me deixou – falou ele -. Estou na merda.

- Por quê? – indaguei.

- Fiquei sem grana.

O teleoperador da Vivo avisou-nos de que havia acabo seu intervalo. Cumprimentei-o e desejei-lhe boa tarde. O senhor fez a mesma coisa.

- E como está fazendo pra suportar a vida? – retornei a conversa com o senhor.

- Eu vou num mercadinho de um amigo. Compro tudo fiado. Até cigarro – completou, tirando um 
Euro do maço.

- Há quanto tempo trabalha aqui?

- Há alguns anos.

- Sempre a mesma rotina?

- Sempre. Nunca muda – afirmou.

- E você, é novo?

- Sim. Treinamento.

- Banco BMG ou Vivo.

- BMG – respondi.

Aí, ele confessou-me sua paixão pelo Corinthians.

- Ainda bem que tenho o timão.

- Alegria de nossas vidas, e tristeza de nossas vidas. Time do povo – falei.

- Eu só me fodo. O futebol é a minha alegria e lazer – disse ele.

Um sorriso cansado despontou em sua face.

- Quanto tô na merda, encho a cara, assisto o timão e grito.

- hahahahahaha – ri.

Apertei-lhe as mãos, e disse que teria de voltar à sala para o treinamento.

- Boa sorte – desejou.

- Igualmente.

Dei-lhe as costas, e refleti: “A alegria de alguns, simplesmente, é assistir o Corinthians e beber umas cervejas”. A gente sempre esquece que há pessoas que vivem esbanjando dinheiro, andando de Ferrari. Enquanto outras vivem numa merda homérica.

Vai coríntia.  

sábado, 15 de agosto de 2015

LAMÚRIA MASCULINA

No bar. Lá estávamos, pra variar, bebendo uma cerveja atrás da outra. Discutíamos sobre a crise econômica, a crise grega e o conservadorismo pedante e prepotente de Eduardo Cunha. De repente, ouvimos um grito. Era uma voz feminina que implorava por socorro. Virei à face. Um cara, bem vestido, cabelos grisalhos e voz rouca, gritou:

- Não quero mais saber de você!

A moça não expressou alguma reação. Ela estava refém da verborragia dele que, pelo jeito, não sabia nada sobre o sexo feminino. Ele deveria ter passado sua juventude achando que as mulheres estariam aos seus pés num estalar de dedos. Mas a garota, discípula de Balzac, sabia como se portar:

- E eu de você, seu idiota – bradou ela. – a gente não se vê mais. Você não está nem aí pra mim, e nem nunca esteve.

- Como assim?

- Isso mesmo!

- Eu te dou tudo que quer, e é assim que me retribuí?

Ela sorriu. Era um sorriso sarcástico.

Advogada? Jornalista? Professora? Ela tinha jeito de professora, pensei. Levei um cigarro à boca. Fumei até a metade. Aí, apaguei-o e fui à sua mesa. Quando aproximei-me, ela adiantou-se:

- Quem entende os homens?

- Eles são estranhos mesmo.

- Mas não todos.

- Concordo. Só que a maioria tem um complexo de idiotice.

- Engraçado.

- Henry Miller disse que quando amamos alguém, renunciamos tudo. Menos pessoa amada.

Ela arregalou os olhos com fervor, parecendo estar diante de um poeta romântico. Completei:

- Esqueça esse cara – falei, colocando um cigarro à boca -, ele nunca te amou, nem te vai te amar. Ele deve estar mais preocupado com os negócios que vai fechar amanhã e as putas que vai comer amanhã.

Ao concluir, levantei-me. Ela levantou-se junto, e segurou-me pelos braços. Fiquei estagnado, próximo ao caixa do bar.

- Obrigado por ser tão gentil – agradeceu.

- Por nada.

- Ninguém nunca fez isso.

- É o quê faço – finalizei, beijando-lhe o rosto.

Todas as mulheres são especiais. Todas escondem um charme único. Seja gorda ou maga; alta ou baixa; ruiva ou morena; amo-as. Infelizes os usuários das máquinas de masturbação, esperam por uma deusa das academias. Estes não sabem nada sobre elas. E nem procuram saber.

domingo, 19 de julho de 2015

Ensaio com alguns cigarros e The Doors na vitrola

Essa geração e seus costumes patéticos. Twitter, whatsapp, facebook, tinder e instragram. No mundo de hoje, os jovens conversam pelas redes sociais. Cara a cara, corpo-a-corpo, não há. E até hoje ainda não consegui encontrar o motivo. Facilidade? Porra. Vai dizer que é preferível conversar com uma garota por whatsapp a pessoalmente? Se a resposta for “sim”, o mundo deve estar perdido mesmo. E eu ranzinza de demais (aos 19 anos).

Tenho 19 anos. Bebo sempre que posso. E escrevo quando sinto que as palavras estão batendo à porta de meu cérebro. Vou ao computador. Redigo sentenças simples. Nunca gostei de complicar a linguagem. Todos têm direito de entender o que escrevo. Contudo, sinto-me excluído. A vida tornou-se um espetáculo. Estamos num palco, encenando sei lá o quê, esperando que alguém curta nossas merdas nas redes sócias. Eu rio. Os homens estão mais concentrados em tirar fotos, e pouco preocupados de quê. Sempre haverá uma selfie. Ou melhor: um babaca com um celular nas mãos, procurando o momento inoportuno para apertar o botão.

Recentemente, lembro-me de estar no pronto, esperando o coletivo. Até aí, tudo bem. Faço isso há dezenove anos. Escola, casa; depois faculdade, casa e rua à noite. Acendi um cigarro. Observei as pessoas ao meu lado, e nada demais. Havia uns caras conversando alguma merda qualquer. E eu não tinha sequer algum interesse na prosa alheia. Continuei a tragar meu cigarro. Depois, joguei-o ao chão e pisei em cima. Uma garota de olhos verdes, cabelo moreno, com roupa justa, viera em minha direção, com o dedo em riste.

- Que porra você acabou de fazer?! – bradou a moça.

-Só paguei o cigarro – respondi, com um sorriso safado no canto da boca.

- E você, então, costuma apagar essa merda no chão mesmo.

- Apago sempre no lugar mais próximo.

- Hum. Que babaca!

Impressionado, medi-a de cima a baixo. Parei em seus olhos. Encarei-os, com o mesmo sorriso safado no canto da boca. Ela continuou:

- O meio-ambiente agradece, se você cuidar dele, sabia?

- E você, cuida dele?

- Tento.

- Pô, pelo jeito que falou, achei que era guardiã da natureza, que queria salvar o planeta.

- E quero!

O ônibus chegou. Ela foi para a outra entrada. Eu entrei pelos fundos. Não a vi. Havia mais ou menos umas 70 pessoas dentro do coletivo. Estava calor, e a camiseta dos Rolling Stones que eu vestia, escorria suor.

Comecei a refletir acerca da contemporaneidade. Celulares, tablets, internet. As pessoas vivem diariamente com essas ferramentas. Se algo acontece com elas, ficam estranhas, estressadas. Então, tudo se torna motivo para discussão. Como argumento, os senhores da tecnologia afirmam que não há como guiar a vida, sem os aparatos eletrônicos. Eu prefiro deixar meu cérebro livre. E jamais nego uma conversa cara-a-cara. Simplesmente porque não dá.

Há pouco tempo, eu ainda convivia com um desses celulares que apenas fazem ligação. Era um LG, preto. Depois, evoluí. E fui assaltado, com direito a arma apontada em minha têmpora. Recuei. Senti as mãos tremeram, enquanto o ladrão caminhava a passos lentos, sorrindo, com 10 reais, minha carteira e celular. “Que porra é essa: compro um celular moderno, o cara vem e me rouba”, pensava, buscando explicação plausível para entender a epidemia dos smartphones e iphones.

Minha geração está condenada a seguir em empregos que odeiam. Por quê? Simples: não tem coragem de abrir mão das ferramentas e aparatos tecnológicos. Eles chegam em casa, e vão direto para a tela do celular, conversar, frivolamente, com mulheres. Vomitam frases feitas e chavões. Os jovens da geração XVIDEOS não sabem como conquistar uma dama. Não tem um papo profundo. Músicas? “BARA BARA BERE BERE”, cantam. Floyd, Stones, Doors nunca ouviram.

- Beck, muda esse teu estilo – dizem os pessimistas.

- Mudar pra quê? Pra ser mais um? – respondo.

- Não seja diferente dos outros.

- Então quer dizer que tenho de ser iguais a eles, como eles?

- Não é isso.

- Então o quê é?

- Você é muito arrogante.

Dostoievski, em Notas do Subterrâneo, escreveu que o ócio é a mãe de todos os vícios. Faz sentido. Nietzsche disse que Dostoievski é o único psicólogo em que confia. Mas eu quero viver como Henry Miller. Quero sentar-me, sem compromisso, e esperar. Quero apenas viver, sem a pressão do tempo, do dinheiro. Precisamo-nos de um tempo para nós. Ninguém suporta a solidão. O homem é um ser contraditório. Ele enxerga nos outros os problemas que não vê em si.

Tudo é possível. Até consegui concluir esse texto.


terça-feira, 30 de junho de 2015

MAIS UM TRABALHO


Abri a porta, e entrei em casa. Mais um dia de trabalho. Eu trabalhava 8 horas por dia, de segunda a sexta. No sábado estava no serviço, também, mas pela manhã. Saía do trampo, e ia para a casa. Minha esposa, meu amor. Ela estava sempre assistindo televisão. Abraçava-a e perguntava como havia sido seu dia. As respostas eram sempre iguais . “Bem”, dizia ela. Era a vida que eu escolhera para mim. Meus amigos falaram que o casamento não seria uma merda. Mas eu ignorei-os. A vida de cônjuge me agrava.

Deixei meu paletó sobre o sofá. Fui ao banheiro, mijei e troquei de roupa. Desci à cozinha, e perguntei o que faltava em casa:

“Nada”, respondeu-me Jordana.

“Temos pão”, quis saber eu.

“Aham”, balbuciou ela.

Abri uma sacola e encontrei alguns pães. Comi-os, e avisei Jordana que iria dar uma volta:

“Trabalho, né”, constatou ela.

“Sim”, respondi. “Devo voltar lá pelas 22h”, avisei.

Entrei em meu Camaro. Liguei-o e dei a partida. Ouvi o ronco do motor e imediatamente uma sensação de vaidade me tomara. Ninguém na vizinhança tinha um carro esse. Eu era o único. Os vizinhos, certamente, haviam escutado o motor. Meu carro, idiotas. Podem babar.

Parei no semáforo. O céu estava claro, porque a lua o iluminava. Bela imagem. De repente, uma luz verde refletiu no vidro do carro. Era o sinal. Arranquei, andando a 60 km por hora.

Virei numa esquina, nada. Em outra, nada. Novamente, porra nenhuma. “Vai ver é por que está frio”, cogitei. E de fato, fazia uns 15 graus em Goiânia. Dobrei na 136, no Setor Marista. Pisei fundo no acelerador. Achei um crioulo na rua. Fitei-o, descaradamente. Saí. Dei uma volta na esquina e voltei para lá.

“E aí, brother”,  eu disse. “Não tem um desse aí, não”, perguntei, solicitando uma pedra de crack.

“Tenho, sim”, falou ele.

“Entra”, pedi.

Ele veio até a porta do carro. Apontei-lhe a arma, discretamente, e disse:

“Entra já, ou vai morrer”.

Sem pensar duas vezes, o cara entrara em meu carro. Saí dali.

“É o seguinte: nós vamos dar uma volta. E eu só quero conversar, beleza?”, avisei .

Mais calmo, ele perguntou se podia acender um cigarro. Disse-lhe que ‘sim’.
Demos três voltas na Praça do Cruzeiro. Descemos até a Praça Cívica e voltamos à Praça do Cruzeiro. Ele estava tranquilo.

Parei o carro numa rua deserta e escura.

Pahhhhh pahhhhhh pahhhhh.

Olhei para a cabeça dele. Vi só sangue. Tirei o corpo, e o joguei na rua.

Liguei Mozart no pen-drive do carro.

Cheguei em casa, Jordana estava vendo Jornal da Globo. “Tudo bem?”, falei, beijando-a. “Tudo”, respondeu.

É isso aí: mais um trabalho concluído.


quarta-feira, 3 de junho de 2015

Vamos


- dá um cigarro - me pediu o cara.

Fitei-o. Pensei, seriamente, se deveria dar-lhe um cigarro. Mas acabei o entregando.

O sujeito queria puxar conversa comigo. Eu nem o conhecia. Ele trajava uma camisa polo listrada; nos pés, uma bota típica de quem faz Medicina Veterinária. Pele escura. Sotaque do interior de Goiás:

"você faz faculdade aonde?" – perguntei, tentando iniciar um diálogo.

"na UFG" – respondeu ele, secamente.

Assenti com minha cabeça qualquer coisa. Por um instante achei-o um ser desprezível, daqueles que lhe pedem desde um simples cigarro até dinheiro.

- e você" – disse – faz o quê?

- jornalismo.

- onde?

- na PUC.

Ele olhou-me e pensou algo como “que cara estranho”. Eu sabia e percebia isso. Ou talvez um cara como ele não tenha inteligência suficiente para pensar algo. “Me dá outro cigarro”, pediu. “Cara espere. Estou sem grana para comprar outra carteira. Tenho que fazer essa aqui durar” – falei, apontando para meu Hollywood vermelho.

Continuamos a andar. O tempo estava congelado, os minutos pereciam que não passavam. Quando estávamos a uma esquina de chegar à Praça Universitária, ele pediu-me outro cigarro. Agora, demonstrando minha perplexidade, alertei-o de que eu não os tinha. “O gordo tem duas carteiras”, declarou, com a ingenuidade de quem não sabe nada. “Então peça para ele.”

Perambulamos um pouco por lá. Havia umas apresentações culturais. Ao chegar, notei uma banda cantando Bete Balanço, do Barão Vermelho. Parei, e prestei atenção no som. “Pode seguir a tua estrela, o teu brinquedo de estar”...

- os caras são estão aqui - disse.

Fiquei calado, procurando ignorá-lo.

- Bicho eu já vim pra cá com eles várias vezes – gritei - devem estar ali embaixo – apontei e saí, deixando-o imóvel - esse porra deve gostar de sertanejo universitário e essas merdas – pensei.

E depois soube que minhas reflexões tinham fundamento. Realmente, ele gosta de sertanejo universitário. "E você curte o quê?" - interrogou. "Rock, jazz, blues', respondi.

Meneou a face expressando uma falsa concordância e compreensão da realidade.

Levei a mão ao bolso. Contei as moedas. Tinha cinco reais.

- e aí Beck, como que tá? – disse João, estendendo a mão para eu felicitar lhe.

- e aí meu brother – cumprimentei – tranquilo e ocê?

- suave demais - respondeu, abrindo um sorriso na face, típico da vida alternativa.

- li seu texto. Achei genial - falou.

Imediatamente, fiquei surpreso. Se alguém lhe diz que leu seus escritos - e os achou bons - uma sensação de bondade se acende dentro de si. É inexplicável. E inacreditável.

Criamos um roteiro para um filme. Discutimos, divagamos sobre arte, jazz, filosofia. Saí dali com a convicção de que eu devo escrever um roteiro. “Você pode ser um roteirista. Tenho vontade demais de fazer algo contigo. Podemos fazer um cinema artístico, experimental”, afirmou.

João me avisou de que estava indo embora. Despedi-me deles e fui procurar Rogério. Andei pela praça toda. Não os encontrei. Comprei uma cerveja. Bebi-a em poucos minutos, em goles longos.

Observei, enquanto caminhava pela praça, várias tendas. PSOL, PT, MST e do movimento estudantil, organizado pela UNE, eram as que estavam disseminando suas propostas. Animei-me, porque na do PT, ouvi “Ela partiu” do Tim Maia. Agora, sem o cara a importunar-me, apreciei a música. “Ela patiu, partiu. E nunca mais voltou...”

Esbarrei em duas colegas de curso. Eu já estava pirado. Cogitei a hipótese de só balançar a cabeça e sorrir, era mais garantia de que a comunicação seria fluente.

- venha aqui conhecer o povo - disse, acenando para um pessoal que havia da tenda da CUT.

- que legal, só vou comprar uma cerveja é já volto - falei.

Virei as costas e fui embora. Definitivamente, eu não queria conversar sobre política. Todo aquele povo destilando empáfia doutrinadora, deixava-me assustado.

Ouvi uma moça berrando algo como “Paraná... Ceará, Ceará”. Sentei-me embaixo de um poste. Fumei um cigarro, vi uns hippies deitados na grama.

Após uma hora vi Rogério, com seu cabelo amarrado. Cheguei à roda. Estendi a mão para todos.

- vamos tomar um ácido? – perguntou Robson, colando-me numa encruzilhada.

Sorri, e disse “sim” com a cabeça.