domingo, 13 de março de 2016

Com diz o velho safado: “Estilo é o que o diferencia dos outros"

The spy. Doors, puta banda. Nos anos 60, os caras transformaram o rock. Morrison, Manzarek, Densmore e Krieger misturaram música com teatro e poesia. O resultado não podia ser diferente: uma banda do caralho. Eles fizeram a trilha sonora de toda uma geração, de toda uma juventude que praticamente fora obrigada a caminhar rumo à morte, no Vietnã. Era mais ou menos assim: ou iam pra guerra, ou estavam fodidos. Muitos optaram pela segunda opção. Daí, nasceu a contracultura. E depois veio a onda do ácido. E Woodstock. Loucura, piração, poesia, liberdade. Rock psicodélico. Doors, Cream, Jefferson Airplane, Buffalo Springfield, Janis Joplin e outros.

O jornalista Luiz Carlos Maciel, conhecido pela alcunha de “guru da contracultura”, em sua obra Os anos 60, listou a diferença entre a cultura vigente e a contracultura. Segundo Maciel, o status quo faz com que bebemos uísque, ao invés de absinto. Faz com que prefiramos cigarro a maconha. Faz com que sejamos ateus, e não místicos. Faz com que acatemos a ideia de Walter Benjamim, e não de Whillem Reich. Colocam-nos no tabuleiro sem dizer como se faz pra se mover ali. Siga as regras. Siga os medíocres. Seja uma ovelha. E o sucesso vai ser imediato. Poucos são os que têm algo pra dizer. Poucos são os que fogem do clichê, da frase feita, do lugar comum, do manjado.

Porra. Jim Morrison faz falta. Rimbaud faz falta. Henry Miller faz falta. Ginsberg faz falta. Keroauc faz falta. Raul Seixas faz falta. Os loucos fazem falta. Vivemos numa época onde ser careta é sinônimo de charme. Cadê o espírito rebelde dos jovens? Temos medo de uma boa foda, até. Outro dia, abri o site de O Globo e dei de cara com a seguinte chamada: “Sexo oral sem camisinha aumenta 22 vezes o risco de câncer na cabeça”. Curioso, cliquei na reportagem. O texto chamava os jovens à caretice. Puta merda.

Bicho, análise quantos, no ônibus, estão com o pescoço abaixado, concentrados em seus aparelhos celulares? Vários. Múltiplos. Todos me parecem abatidos, cansados, angustiados. Ninguém olha pra cara de ninguém. É tudo nas redes. O papo. O sexo. Os elogios. Poucos são os que chegam numa garota, e dizem: “Cê tá linda pra caralho”. É preferível ir ao Instragram e curtir uma foto dela. Break on Through (To the other side), como cantava Jim. Bem, hoje não são apenas as garotas que estão enclausuradas, os homens também estão. E temos medo de atravessar para o outro lado. Preferimos portar uma cédula de 100 conto a uma história bem vivida.

Além de ficarem com as melhores mulheres, eles querem fazer a cabeça da juventude. Execute, não pense, dizem a você. Se o fizer, várias coisas lhe serão prometidas, como as melhores mulheres, os melhores carros, uma carteira cheia de dinheiro. Dinheiro é uma merda. Os medíocres são uns merdas. Charles Bukowski disse que o estilo é a reposta pra tudo. No poema homônimo, ele fala que é preferível fazer algo tolo com estilo, do que algo perigoso sem estilo.

Com diz o velho safado: “Estilo é o que o diferencia dos outros.”

Texto publicado no Diário da Manhã

quarta-feira, 9 de março de 2016

Pinheiro resistente

Pinheiro Salles saiu à janela de sua casa. “Já vou abrir o portão”, me disse. “Demorou para encontrar a casa?”, perguntou, enquanto apertava minha mão. Assenti com a cabeça, afirmando que não. Ao entrar na casa, Pinheiro fora me guiando até a biblioteca, onde faríamos a entrevista:

“Vire à esquerda”, falou, apontando os dedos em direção à porta, próxima ao quintal . “Ainda bem que é à esquerda”, sussurrou. “Se fosse à direta, você iria vacilar.”

Educado e inteligente, Pinheiro me questionou, imediatamente, sobre o propósito entrevista:

“É trabalho da faculdade? “

“Sim”, respondi.

Pinheiro meneou a face, e, entre sorrisos, disse:

“Então terei de ser breve.”

“Não necessariamente. Pode falar à vontade”, falei.

Nas paredes de sua biblioteca há pôsteres de Gue Chevara, Fidel Castro e Karl Marx. Pinheiro é de esquerda, e não faz a mínima questão de esconder. “Oponho-me às forças mais rebuscadas do exercício do fascismo”, murmurou. “Sou de esquerda porque posiciono-me na palavra e na ação de cada dia a todas as formas de injustiça, de exploração, de opressão, de discriminação”, afirmou.

Ele mora numa casa agradável e tranquila no Setor Jaó. Passa horas de seu dia em frente aos livros. De vez em quando escreve algo. “Sexta-feira vou pra Bahia e depois, em julho, vou à Europa para contar sobre meu livro”, revelou. “O tradutor disse que eu tenho de ir para lá agora, porque posso morrer a qualquer tempo”, declarou, dando risadas.

Jornalista, escritor e Bacharel em Direito pela UFBA (Universidade Federal da Bahia), Pinheiro Salles não tem problema em falar sobre a ditadura militar:

“É difícil para o senhor falar sobre a ditadura”, perguntei, esperando uma resposta árdua e melancólica.

“Não, é dever”, respondeu, educadamente.

Enquanto fala, ele segura as mandíbulas. Pinheiro fora brutalmente torturado pelos militares. Ficou com sequelas. Ouve parcialmente com um ouvido. E é surdo de outro. Recentemente, passou por cirurgia para reparar a deficiência, acarretada pelas sessões de tortura.

Foi no período em que cursava Direito na UFBA que teve o primeiro contato com o movimento estudantil. Ele era membro do Partido Comunista e foi preso, no Rio Grande do Sul, no final dos anos 60. Passou nove anos encarcerado. Sua descrição me fez lembrar das cenas sádicas de 120 dias de Sodoma, do cineasta italiano, Pier Paolo Pasolini.

Uma coleção de discos empilhadas num canto da biblioteca ornavam o ambiente. Haviam clássicos da MPB, como Nara Leão, Caetano Veloso, Chico Buarque e Gilberto Gil. Os LP´S estavam acompanhados por uma vitrola, no canto de seu escritório. Nas prateleiras, escritores consagrados da literatura – como Rimbaud, Steinbeck e Balzac – davam um quê charmoso ao lugar.

Pinheiro Salles fora um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores (PT), em Goiás. Mas hoje, ele não vê o partido com o mesmo entusiasmo de antes. “Deu (o PT) uma contribuição significativa se a gente fizer comparações, por exemplo: os dirigentes do PT toda hora invocam isso, uma comparação com o governo de Fernando Henrique Cardoso”, disse.

Como um esquerdista clássico, o escritor criticou as manifestações que recentemente levaram milhares de pessoas às ruas de todo país. “Gente mobilizada é sempre motivo de esperança. Mas essas últimas manifestações resultaram de insatisfação das classes dominantes”, afirmou.

Em 2011, seu depoimento à CNV (Comissão Nacional da Verdade) chocou os presentes. Ele relatou, com riqueza de detalhes, as humilhações que sofrera. Como resultado de seu relato, lançou Ninguém pode se calar. Na obra, Pinheiro nos conta fatos comoventes, inefáveis, inenarráveis.

Quando encerramos a entrevista, ele me presentou com duas obras, e propôs:

“Vamos tomar um suco?”

Balancei a cabeça, e respondi:

“Sim”. 

terça-feira, 8 de março de 2016

Dinheiro é uma merda

Tenho uma forte ligação com a contracultura. Descobri Satre – pai do existencialismo – e passei a acreditar que “estamos condenados a ser livres”. O francês iniciou sua carreira acadêmica nos anos 30, quando escrevera a A imaginação – um ensaio que transita entre Filosofia e Psicologia. “A imaginação é infinita”, afirma na obra. Nesta época – década de 30 – Satre era considerado alienado por não dar a mínima à política. Ele viva bêbado, quando estudante, junto de Simone de Beauvoir, sua esposa. O casal jamais constituíra uma família aos moldes da classe média. Satre viva a perambular de hotel em hotel, escrevendo ensaios, críticas, romances, teses, peças de teatro. Nenhum intelectual produziu tanto quanto ele.

Disseram-me que não poderia experimentar drogas. “Quem usa droga merece morrer”, falou, com veemência, meu avô. Eu apenas fitei-o. E lembrei-me de uma frase de Timothy Leary – que foi psicólogo de John Lennon e guru da contracultura: “As drogas enlouquecem quem não as usa”. Por que não podemos usar drogas? Elas fazem mal? Mas o remédio que tomamos incessantemente, também, não faz mal? Assim, neste contexto de repressão, fomos descobrir as drogas. Com o tempo, passamos a ver que heroína não é legal, que cocaína pode levá-lo para o fundo do poço, que acido lisérgico (LSD) nunca levou ninguém ao hospital - a única coisa que pode acontecer se você encher a cara é pirar. E maconha, tão execrada, não causa porra nenhuma. A única coisa que ela faz é deixá-lo lesado, com o raciocínio lento.

A arte dos anos do amor fora influenciada pelo ácido lisérgico. Os hippies usavam LSD e tinham devaneios surreais. A estética acadêmica e tradicional não via com entusiasmo os beats e o fluxo de consciência deles, com períodos longos e livres. Jack Kerouac escreveu On the road em apenas três semanas. A escrita da obra é repleta de café e benzedrina. Allen Ginsberg – poeta e amigo de Keroauc – lidou com a censura, quando lançou Uivo e Outros Poemas, em 1956. A obra fora acusada de ser obscena. No Brasil, Glauber Rocha, que em suas palavras tinha “apenas uma câmera e uma ideia na cabeça“, filmou a sociedade brasileira e as amarguras dela. Glauber fazia parte da tropicália, juntamente com artistas como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Toquarto Neto – este na poesia e aqueles na música.

O curioso é que no ácido fizeram-se grandes artistas. Mas a percepção dos eruditos não era muito otimista. E ainda assim ouve Hendrix, Doors, Joplin, Airplane e outros. Os Beatles, inclusive, chegaram a afirmar que graças a Timothy Leavy, eles fizeram White Album, em 1968. Raul Seixas cantara, em Sociedade Alternativa, o sonho de sociedade da geração do amor. Uma sociedade sem regras, leis, em que tudo era perfeito. “Viva a sociedade alternativa”, afirmava Raul na música.

Nesta época o movimento feminista crescia. Paralelo a ele, nascia à liberdade sexual. Os hippies acreditavam que o sexo com dinheiro, deixava a áurea libertadora de lado em prol do capital. Mas hoje nos habituamos a conformarmo-nos com quaisquer tipos de descriminalização, seja racial, intelectual, cultural; sempre procuramos acreditar que os nossos modos são errôneos. Deparamo-nos com preconceitos clichês. E assim fechamos os olhos. Procuramos não ver o que há na sociedade. Não fumamos maconha porque a somos discriminados. Creio incessantemente na liberdade. Somente ela livra-nos das amarras e amarguras. Não quer usar drogas, não as use. Eu até acho melhor, sabe. Quer biritar? À vontade. Você sabe o que faz, afinal é condenado a ser livre. Drogas todos usam. Contudo, algumas inventaram que são ilícitas. E outras lícitas.

A sociedade precisa da dialética e da dicotomia dos fatos. Não podemos, jamais, ter opiniões pré-fabricadas. Temos de analisar e refletir. Normam Mailer – um dos percussores do new journalism dos anos 60 – lançou, em 1965, Um sonho americano, obra que relata o modo de vida estadunidense. Mailer dera vida a Stephen Rojack, um herói de guerra, intelectual que tem o próprio programa de televisão. Além disso, ele era casado com uma bela mulher. No entanto, durante uma discussão, Rojack mata-a. E por longas páginas entramos na cabeça do protagonista. “O leitor não se entediará com Um sonho americano se tiver a paciência e senso-crítico suficientes para buscar na literatura um complemento e uma elucidação do fermento confuso de nossa era”, escreveu Paulo Francis, no prefácio da obra.


Os hippies, sim, eram sábios. Eles não queriam viver uma vida programada, com sucesso e reconhecimento profissional. Então decidiram morar em comunidades, sempre com o principio da liberdade norteando-os. Como eu queria chutar o balde. A vida é uma merda. As expectativas são uma merda. O cara que se sentou ao meu lado, com seu cigarro entre os dedos, é um merda. Todos somos uns merdas, porque vivemos uma vida que não é nossa. Nutrimos sonhos distantes. Angariamos bens materiais. Dispensamos um papo cultural. Queremos, simplesmente, a futilidade. E, se em grandes quantidades, melhor ainda. Dinheiro é uma merda.

Originalmente publicado no Diário da Manhã em algum dia de 2015

Tragédia moderna

Jim Morrison. 
“This is the end”, cantava o cantor e poeta Jim Morrison. Morto em 1971, aos 27 anos, a vida do astro do The Doors é uma tragédia moderna. Ele escreveu. Encheu a cara. E no final da vida radicou-se em Paris com a propósito de dedicar-se à poesia e livrar-se do álcool. Morrison morrera em 3 de julho de 1971, em circunstâncias misteriosas. Apenas sua namorada, Pamela Courson, viu seu corpo ser enterrado. 

O tecladista Ray Manzarek, colega de Morrison na UCLA (Universidade da Califórnia), relata que o encontrou à beira mar, em Venice, Los Angeles, com um caderno em mãos. Ao aproximar-se dele, percebera que haviam vários poemas rabiscados. A pedido de Manzarek, Morrison leu “Moonlight Drive”. O tecladista, imediatamente, reagiu: “Nós temos que formar uma banda e ganhar um milhão de dólares, cara”. Alguns meses depois, eles já eram famosos no circuito underground de Los Angeles.

Em 1967, lançaram o primeiro álbum. The Doors contava com letras que retratavam morte, violência, fim e loucura. “Light my fire”, sem dúvida, tornou-se um hit estrondoso em versão editada para single. Originalmente, a música tinha sete minutos e exibia o charme do The Doors: os longos e sinuosos riffs de teclados. “The End”, o pesadelo sonoro edipiano de onze minutos, em que Morrison diz que vai matar o pai e foder a mãe, encerra o disco. E em Break on Throught, eles anunciavam que iriam quebrar as regras, neste rock com batidas de bossa-nova.

Stranger Days. Waiting for the sun. The Soft Parade. Morrison Hotel. L.A Woman. O The Doors sacudira a sociedade de consumo estadunidense, em seus discos e apresentações. Em Ninguém sai daqui vivo, o jornalista Jerry Hopkins relata que o som do Doors, para o vocalista, era como se fosse uma catarse. “É um som para quem se sente diferente”, dizia o vocalista.

Em 1969, após ser preso por exposição indecente, Morrison concedeu entrevista a Hopkins. Durante o diálogo, eles falaram sobre poesia, música e como o vocalista/poeta tratava os limites de sua arte. A entrevista foi publicada pela Rolling Stone.

Confira:

Os Beatles e outros artistas parecem ter voltado às raízes, ao som básico... 
Sim, o country e o blues, é isso. As pessoas têm esses novos poços de informação e ideias, e isso foi bem longe. E, um dia, parou. Então, agora as pessoas estão voltando a esta forma básica de música. Obviamente, haverá uma nova síntese – provavelmente daqui a dois ou três anos. O ciclo parece ter essa duração; essa é a duração de uma geração agora.

Você quer dizer uma nova síntese entre o country e o blues? 
Não sei, cara. O rock era isso, country e blues. Há muitos outros elementos dos quais as pessoas ficaram cientes, como música indiana, oriental, africana e eletrônica. Provavelmente seria uma síntese disso, uma síntese muito louca. Acho que, nos Estados Unidos, voltamos ao blues e country porque são nossas duas formas de música nativas. Sabe o que pode acontecer? As grandes mentes musicais que tratavam de coisas clássicas podem entrar em áreas populares.

Você já tocou algum instrumento musical? 
Quando era criança, tentei piano por um tempo, mas não tinha disciplina para continuar. Tentei por uns meses. Acho que cheguei até o livro do terceiro nível.

Tem vontade de tocar um instrumento hoje? 
Na verdade, não. Toco maracas. Consigo tocar algumas músicas no piano. Só minhas invenções, então não é realmente música; é barulho. Consigo tocar uma, mas ela só tem duas mudanças, dois acordes, então é bem básica. Realmente gostaria de conseguir tocar guitarra, mas não tenho o sentimento necessário.

Como foi o começo do The Doors na gravadora Elektra? 
A Elektra na época era nova na cena do rock. Tinha o Love e a Paul Butterfield Band, que estava mais no blues e folk. O Love era a primeira banda de rock com potencial da Elektra para o mercado de singles, já que a Elektra era predominantemente uma gravadora de álbuns. Depois de contratar o Love, o presidente da empresa [Jac Holzman] nos ouviu tocar no Whisky a Go Go. Acho que ele me contou uma vez que não gostou. Ele voltou outras vezes e enfim todos na gravadora estavam convencidos de que faríamos muito sucesso. Então, nos contratou.

É verdade que você gostaria de voltar aos tempos que a banda tocava no Whisky a Go Go? 
Só digo que algumas das melhores viagens musicais que fizemos foram em clubes pequenos. Grandes shows são ótimos, mas entram em um fenômeno de multidão que realmente não tem muito a ver com a música. Em um clube, a atmosfera é diferente. Eles podem ver você suar e você consegue vê-los. E há muito menos bobagem. Em um show em estádio, você reúne muita gente e não importa tanto o que faz. Em um clube, tem de empolgar as pessoas só com a música. Se não der certo, todos percebem.

É mais difícil fracassar em um grande show? 
É quase impossível. Há a simples empolgação de estar no evento, aquela massa de gente se misturando, isso gera um tipo de eletricidade. É empolgante, mas não é exatamente sobre música. É histeria em massa.

Você já me disse que, tocando em locais menores, há a chance de compor, algo difícil quando se está em uma turnê de grandes shows. 
Certo. Além disso, gosto de trabalhar. Não há nada mais divertido do que tocar música para uma plateia. Dá para improvisar nos ensaios, mas é meio que uma atmosfera morta. Não há retorno do público. Não há tensão, na verdade, porque em um clube, com um público pequeno, você fica livre para fazer qualquer coisa. Ainda existe a obrigação de ser bom, então você não consegue ficar realmente solto; há gente olhando. Então, há essa tensão linda. Há liberdade e, ao mesmo tempo, uma obrigação de tocar bem. Posso trabalhar o dia inteiro, voltar para casa, tomar banho, trocar de roupa e fazer duas ou três apresentações no Whisky, cara, e amo isso. Amo a performance no palco do mesmo jeito que um atleta ama correr para se manter em forma.

Vocês conseguem criar algo quando improvisam? 
Sim. Veja, precisávamos de outra música para este álbum [The Soft Parade]. Estávamos queimando neurônios tentando pensar em algo. Estávamos no estúdio, então começamos a tocar várias músicas antigas. Viagens de blues. Clássicos do rock. Finalmente, começamos a tocar por uma hora. Passamos por toda a história do rock – começando com o blues, pelo rock and roll, surf music, música latina, tudo. E saiu algo. Eu a chamo de “Rock Is Dead”. Duvido que alguém escute um dia. [N.R.: “Rock Is Dead” finalmente foi lançada em The Doors Box Set (1997) ]

Recentemente foi divulgado que você havia dito que o rock estava morto. É algo em que você realmente acredita? 
É como o que falamos antes. Falei algo sobre o movimento de volta às raízes. A chama inicial se apagou. A coisa que chamam de “rock and roll” ficou decadente. Daí houve uma ressurreição do estilo promovida pelos ingleses. Aquilo foi muito longe, foi articulado. Depois, ficou olhando para si próprio, o que, acho, é a morte. O rock and roll ficou com vergonha de si, sem evoluir, e se tornou algo meio incestuoso. A energia acabou. Não existe mais uma crença.

Como reage ao que escrevem a seu respeito? 
Bem, eu pergunto: há uma coisa pior do que uma foto muito ruim? Uma foto pode fazer qualquer pessoa parecer um anjo, bobo, demônio, uma não entidade. Muito disso vem por acaso; muito é malícia e também idolatria. Uma foto ruim pode te dar vários momentos de perda psíquica real. Você sabe que não é você, mas alguém escolheu te criticar daquela forma.

Você se imagina um roqueiro a vida toda? 
É difícil dizer. Talvez eu vire um executivo de uma empresa... Meio que gosto da imagem. Escritório grande. Secretária...

Nos três primeiros álbuns, o crédito de compositor em cada faixa ia para o The Doors, em vez de ir para os indivíduos. Mas sei que a partir de agora, com o novo The Soft Parade, os compositores individuais serão listados nos álbuns. Por quê? 
No começo, eu escrevia a maioria das canções, letra e música. Em cada álbum seguinte, Robby [Krieger, guitarrista] contribuiu com mais músicas, até que finalmente em The Soft Parade tudo está dividido praticamente igual entre nós dois. Temos uma visão muito diferente da realidade, argumentos diferentes, então senti que era hora. Somos uma parceria, sabe? Artisticamente e financeiramente. Dividimos por igual. No começo, muito foi em interesse coletivo, para manter tudo unido. Agora que a unidade não está mais tanto em risco, achei que era o momento de as pessoas saberem quem estava dizendo o quê. Então, este será o primeiro disco em que daremos créditos ao compositor e acho que continuaremos fazendo isso.

Como sua visão das coisas é diferente da de Robby? A dele é, digamos, mais romântica, ou o que é? 
Não sei bem. Você terá de descobrir sozinho. Não sei mesmo. Musicalmente, como guitarrista, ele é mais complexo – mudanças de acorde, lindas melodias e tal – e minha coisa está mais na veia do blues: longa, errante, básica e primitiva. É que a diferença entre dois poetas é muito grande. Em muitas músicas no começo, eu ou Robby vínhamos com a ideia básica, letras e melodia, mas depois todo o arranjo e a gestação real da canção aconteciam noite após noite, dia após dia, em ensaios ou nos clubes. Quando viramos uma banda de grandes shows, uma banda de discos, e quando fomos contratados para lançar tantos álbuns por ano, tantos singles a cada seis meses, aquele processo natural, espontâneo e gerador não teve a chance de acontecer como era no começo. Tivemos que realmente criar músicas no estúdio. O que começou a acontecer foi que Robby ou eu vínhamos com a canção e o arranjo já completos em nossa cabeça em vez de trabalhar lentamente naquilo.

Você já declarou que gosta de fazer as pessoas se levantarem da cadeira, mas não de criar intencionalmente uma situação caótica... 
A situação nunca ficou fora de controle, na verdade. É algo bem brincalhão, mesmo. Nós nos divertimos, a garotada se diverte, a polícia se diverte. É um triângulo meio estranho. Só pensamos em subir ao palco e tocar boa música. Às vezes, eu me empolgo e excito as pessoas um pouco, mas normalmente estamos ali tentando tocar boa música. É isso. Cada vez é diferente. Há diversos graus de febre no auditório esperando por você. Daí, você sobe ao palco e encontra essa onda de energia em potencial. Nunca sabe o que será.

O que você quer dizer com “às vezes, eu me empolgo e excito as pessoas um pouco”? 
Digamos que estava testando os limites da realidade. Estava curioso para ver o que aconteceria. Era só isso: mera curiosidade.

Como você testa os limites? 
Eu simplesmente tento levar a situação o mais longe possível.

E mesmo assim não sente, em momento algum, que as coisas saíram do controle? 
Nunca. Você tem de olhar para isso de maneira lógica. Se não houvesse policiais ali, alguém tentaria subir ao palco? O que eles fariam quando conseguissem? Quando sobem, ficam muito tranquilos, não vão fazer nada. O único incentivo para subir é porque há uma barreira. Se não houvesse barreira, não haveria incentivo. É isso. Acredito firmemente nisso. Sem incentivo, sem carga. Ação e reação. Pense nos shows gratuitos no parque. Nenhuma ação, nenhuma reação. Nenhum estímulo, nenhuma resposta. Só que é interessante, porque a garotada tem uma chance de testar os policiais. Você os vê hoje, andando com suas armas e uniformes, e o policial se porta como se fosse o homem mais durão do quarteirão, e todos ficam curiosos sobre o que exatamente aconteceria se você o desafiasse. O que ele vai fazer? Acho que é uma coisa boa, porque dá aos jovens uma chance de testar a autoridade.

Há uma citação atribuída a você que aparece muito na imprensa. Diz: “Estou interessado em qualquer coisa sobre revolta, desordem, caos...” 
“... especialmente atividade que pareça não ter significado.”

Isso, essa mesmo. É outro exemplo de manipulação da mídia? Você inventou essa frase para um jornalista? 
Sim, definitivamente, criei a frase, mas tem verdade nela também. Quem não fica fascinado com o caos? Só que é mais do que isso. Estou interessado em atividade que não tenha significado, e tudo o que quero dizer com isso é atividade livre. Tocar. Atividade que não tenha nada nela exceto o que é. Nenhuma repercussão. Nenhuma motivação. Atividade... livre. Acho que deveria haver um carnaval nos Estados Unidos, como o do Rio de Janeiro. Deveria haver uma semana de hilaridade nacional... uma pausa em todo trabalho, todos os negócios, toda discriminação, toda autoridade. Uma semana de liberdade total. Seria o começo. Claro, a estrutura de poder não seria realmente alterada, mas alguém nas ruas – não sei como o escolheriam, aleatoriamente, talvez – se tornaria o presidente. Outra pessoa seria o vice. Outras seriam senadores, deputados, no tribunal superior, policiais. Só duraria uma semana e, depois, voltaria ao que era antes. Acho que precisamos disso. É. Algo assim.

Tem algum tipo de ritual que você e os membros do The Doors fazem? 
Sim, existe um ritual no sentido de que usamos os mesmos acessórios e as mesmas pessoas e as mesmas formas repetidamente. A música definitivamente é um ritual, mas não acho que esteja esclarecendo o ritual ou acrescentando qualquer coisa a ele.

Você se vê indo mais em direção à poesia, à literatura em geral? 
É minha maior esperança, meu sonho.

E quando você começou a escrever poemas? 
Ah, acho que por volta da 5a ou 6a série escrevi um chamado “The Poney Express”. É o primeiro que me lembro. Era um desses poemas tipo balada. Só que nunca consegui terminar. Sempre quis escrever, mas sempre achei que só seria bom se a mão pegasse a caneta e começasse a se mexer sem eu ter algo a ver com aquilo. Como uma escrita automática. Escrevi outros, claro. Escrevi “Horse Latitudes” quando estava no ensino médio. Guardei muitos cadernos durante o ensino médio e a faculdade e, quando saí da escola por algum motivo estúpido – talvez sábio –, joguei tudo fora. Não consigo pensar em nada que mais adoraria ter agora do que aqueles cadernos perdidos. Estive pensando em ser hipnotizado ou tomar pentatol sódico para tentar lembrar, porque escrevi naqueles cadernos noite após noite. Só que, talvez se nunca os tivesse jogado fora, nunca teria escrito algo original – porque eram principalmente acúmulos de coisas que eu tinha lido ou ouvido, como citações de livros. Acho que, se nunca tivesse me livrado deles, nunca seria livre.

O que o atraiu na poesia? 
Acho que foi quem me ensinou a falar, a conversar. De verdade. Acho que foi a primeira vez em que aprendi a falar. Até o advento da linguagem, era o toque – comunicação não verbal.

Tenho a sensação de que muitas pessoas que militam no rock não têm muito ou nenhum respeito pela forma – quero dizer, de nunca admitirem ser cantores ou músicos de rock. Em vez disso, sempre dizem que são, na verdade, músicos de jazz ou cineastas... 
Sei o que você quer dizer. Mas acho que a maioria dos músicos e cantores de rock realmente gosta do que faz. Seria psicologicamente enervante só fazer isso para ganhar dinheiro. Acho que o que estraga tudo é a besteira dita pela imprensa, pelos colunistas de fofocas e revistas para fãs. Um baterista, vocalista ou guitarrista gosta do que está fazendo e, então, de repente, todos dizem alguma besteira estranha sobre a viagem do cara. Ele começa a duvidar de sua motivação. Sempre há um grupo que atrapalha a sensibilidade. Então, você tem uma leve sensação de vergonha e frustração no que está fazendo. É uma pena, de verdade. Queria poder ser mais específico, mas acho que você entende o que eu quero dizer.
verá uma nova síntese – provavelmente daqui a dois ou três anos. O ciclo parece ter essa duração; essa é a duração de uma geração agora.

Você quer dizer uma nova síntese entre o country e o blues? 
Não sei, cara. O rock era isso, country e blues. Há muitos outros elementos dos quais as pessoas ficaram cientes, como música indiana, oriental, africana e eletrônica. Provavelmente seria uma síntese disso, uma síntese muito louca. Acho que, nos Estados Unidos, voltamos ao blues e country porque são nossas duas formas de música nativas. Sabe o que pode acontecer? As grandes mentes musicais que tratavam de coisas clássicas podem entrar em áreas populares.

Você já tocou algum instrumento musical? 
Quando era criança, tentei piano por um tempo, mas não tinha disciplina para continuar. Tentei por uns meses. Acho que cheguei até o livro do terceiro nível.
Tem vontade de tocar um instrumento hoje? 
Na verdade, não. Toco maracas. Consigo tocar algumas músicas no piano. Só minhas invenções, então não é realmente música; é barulho. Consigo tocar uma, mas ela só tem duas mudanças, dois acordes, então é bem básica. Realmente gostaria de conseguir tocar guitarra, mas não tenho o sentimento necessário.

Como foi o começo do The Doors na gravadora Elektra? 
A Elektra na época era nova na cena do rock. Tinha o Love e a Paul Butterfield Band, que estava mais no blues e folk. O Love era a primeira banda de rock com potencial da Elektra para o mercado de singles, já que a Elektra era predominantemente uma gravadora de álbuns. Depois de contratar o Love, o presidente da empresa [Jac Holzman] nos ouviu tocar no Whisky a Go Go. Acho que ele me contou uma vez que não gostou. Ele voltou outras vezes e enfim todos na gravadora estavam convencidos de que faríamos muito sucesso. Então, nos contratou.

É verdade que você gostaria de voltar aos tempos que a banda tocava no Whisky a Go Go? 
Só digo que algumas das melhores viagens musicais que fizemos foram em clubes pequenos. Grandes shows são ótimos, mas entram em um fenômeno de multidão que realmente não tem muito a ver com a música. Em um clube, a atmosfera é diferente. Eles podem ver você suar e você consegue vê-los. E há muito menos bobagem. Em um show em estádio, você reúne muita gente e não importa tanto o que faz. Em um clube, tem de empolgar as pessoas só com a música. Se não der certo, todos percebem.

É mais difícil fracassar em um grande show? 
É quase impossível. Há a simples empolgação de estar no evento, aquela massa de gente se misturando, isso gera um tipo de eletricidade. É empolgante, mas não é exatamente sobre música. É histeria em massa.

Você já me disse que, tocando em locais menores, há a chance de compor, algo difícil quando se está em uma turnê de grandes shows. 
Certo. Além disso, gosto de trabalhar. Não há nada mais divertido do que tocar música para uma plateia. Dá para improvisar nos ensaios, mas é meio que uma atmosfera morta. Não há retorno do público. Não há tensão, na verdade, porque em um clube, com um público pequeno, você fica livre para fazer qualquer coisa. Ainda existe a obrigação de ser bom, então você não consegue ficar realmente solto; há gente olhando. Então, há essa tensão linda. Há liberdade e, ao mesmo tempo, uma obrigação de tocar bem. Posso trabalhar o dia inteiro, voltar para casa, tomar banho, trocar de roupa e fazer duas ou três apresentações no Whisky, cara, e amo isso. Amo a performance no palco do mesmo jeito que um atleta ama correr para se manter em forma.

Vocês conseguem criar algo quando improvisam? 
Sim. Veja, precisávamos de outra música para este álbum [The Soft Parade]. Estávamos queimando neurônios tentando pensar em algo. Estávamos no estúdio, então começamos a tocar várias músicas antigas. Viagens de blues. Clássicos do rock. Finalmente, começamos a tocar por uma hora. Passamos por toda a história do rock – começando com o blues, pelo rock and roll, surf music, música latina, tudo. E saiu algo. Eu a chamo de “Rock Is Dead”. Duvido que alguém escute um dia. [N.R.: “Rock Is Dead” finalmente foi lançada em The Doors Box Set (1997) ]

Recentemente foi divulgado que você havia dito que o rock estava morto. É algo em que você realmente acredita? 
É como o que falamos antes. Falei algo sobre o movimento de volta às raízes. A chama inicial se apagou. A coisa que chamam de “rock and roll” ficou decadente. Daí houve uma ressurreição do estilo promovida pelos ingleses. Aquilo foi muito longe, foi articulado. Depois, ficou olhando para si próprio, o que, acho, é a morte. O rock and roll ficou com vergonha de si, sem evoluir, e se tornou algo meio incestuoso. A energia acabou. Não existe mais uma crença.

Como reage ao que escrevem a seu respeito? 
Bem, eu pergunto: há uma coisa pior do que uma foto muito ruim? Uma foto pode fazer qualquer pessoa parecer um anjo, bobo, demônio, uma não entidade. Muito disso vem por acaso; muito é malícia e também idolatria. Uma foto ruim pode te dar vários momentos de perda psíquica real. Você sabe que não é você, mas alguém escolheu te criticar daquela forma.

Você se imagina um roqueiro a vida toda? 
É difícil dizer. Talvez eu vire um executivo de uma empresa... Meio que gosto da imagem. Escritório grande. Secretária...

Nos três primeiros álbuns, o crédito de compositor em cada faixa ia para o The Doors, em vez de ir para os indivíduos. Mas sei que a partir de agora, com o novo The Soft Parade, os compositores individuais serão listados nos álbuns. Por quê? 
No começo, eu escrevia a maioria das canções, letra e música. Em cada álbum seguinte, Robby [Krieger, guitarrista] contribuiu com mais músicas, até que finalmente em The Soft Parade tudo está dividido praticamente igual entre nós dois. Temos uma visão muito diferente da realidade, argumentos diferentes, então senti que era hora. Somos uma parceria, sabe? Artisticamente e financeiramente. Dividimos por igual. No começo, muito foi em interesse coletivo, para manter tudo unido. Agora que a unidade não está mais tanto em risco, achei que era o momento de as pessoas saberem quem estava dizendo o quê. Então, este será o primeiro disco em que daremos créditos ao compositor e acho que continuaremos fazendo isso.

Como sua visão das coisas é diferente da de Robby? A dele é, digamos, mais romântica, ou o que é? 
Não sei bem. Você terá de descobrir sozinho. Não sei mesmo. Musicalmente, como guitarrista, ele é mais complexo – mudanças de acorde, lindas melodias e tal – e minha coisa está mais na veia do blues: longa, errante, básica e primitiva. É que a diferença entre dois poetas é muito grande. Em muitas músicas no começo, eu ou Robby vínhamos com a ideia básica, letras e melodia, mas depois todo o arranjo e a gestação real da canção aconteciam noite após noite, dia após dia, em ensaios ou nos clubes. Quando viramos uma banda de grandes shows, uma banda de discos, e quando fomos contratados para lançar tantos álbuns por ano, tantos singles a cada seis meses, aquele processo natural, espontâneo e gerador não teve a chance de acontecer como era no começo. Tivemos que realmente criar músicas no estúdio. O que começou a acontecer foi que Robby ou eu vínhamos com a canção e o arranjo já completos em nossa cabeça em vez de trabalhar lentamente naquilo.

Você já declarou que gosta de fazer as pessoas se levantarem da cadeira, mas não de criar intencionalmente uma situação caótica... 
A situação nunca ficou fora de controle, na verdade. É algo bem brincalhão, mesmo. Nós nos divertimos, a garotada se diverte, a polícia se diverte. É um triângulo meio estranho. Só pensamos em subir ao palco e tocar boa música. Às vezes, eu me empolgo e excito as pessoas um pouco, mas normalmente estamos ali tentando tocar boa música. É isso. Cada vez é diferente. Há diversos graus de febre no auditório esperando por você. Daí, você sobe ao palco e encontra essa onda de energia em potencial. Nunca sabe o que será.

O que você quer dizer com “às vezes, eu me empolgo e excito as pessoas um pouco”? 
Digamos que estava testando os limites da realidade. Estava curioso para ver o que aconteceria. Era só isso: mera curiosidade.

Como você testa os limites? 
Eu simplesmente tento levar a situação o mais longe possível.

E mesmo assim não sente, em momento algum, que as coisas saíram do controle? 
Nunca. Você tem de olhar para isso de maneira lógica. Se não houvesse policiais ali, alguém tentaria subir ao palco? O que eles fariam quando conseguissem? Quando sobem, ficam muito tranquilos, não vão fazer nada. O único incentivo para subir é porque há uma barreira. Se não houvesse barreira, não haveria incentivo. É isso. Acredito firmemente nisso. Sem incentivo, sem carga. Ação e reação. Pense nos shows gratuitos no parque. Nenhuma ação, nenhuma reação. Nenhum estímulo, nenhuma resposta. Só que é interessante, porque a garotada tem uma chance de testar os policiais. Você os vê hoje, andando com suas armas e uniformes, e o policial se porta como se fosse o homem mais durão do quarteirão, e todos ficam curiosos sobre o que exatamente aconteceria se você o desafiasse. O que ele vai fazer? Acho que é uma coisa boa, porque dá aos jovens uma chance de testar a autoridade.
Há uma citação atribuída a você que aparece muito na imprensa. Diz: “Estou interessado em qualquer coisa sobre revolta, desordem, caos...” 
“... especialmente atividade que pareça não ter significado.”

Isso, essa mesmo. É outro exemplo de manipulação da mídia? Você inventou essa frase para um jornalista? 
Sim, definitivamente, criei a frase, mas tem verdade nela também. Quem não fica fascinado com o caos? Só que é mais do que isso. Estou interessado em atividade que não tenha significado, e tudo o que quero dizer com isso é atividade livre. Tocar. Atividade que não tenha nada nela exceto o que é. Nenhuma repercussão. Nenhuma motivação. Atividade... livre. Acho que deveria haver um carnaval nos Estados Unidos, como o do Rio de Janeiro. Deveria haver uma semana de hilaridade nacional... uma pausa em todo trabalho, todos os negócios, toda discriminação, toda autoridade. Uma semana de liberdade total. Seria o começo. Claro, a estrutura de poder não seria realmente alterada, mas alguém nas ruas – não sei como o escolheriam, aleatoriamente, talvez – se tornaria o presidente. Outra pessoa seria o vice. Outras seriam senadores, deputados, no tribunal superior, policiais. Só duraria uma semana e, depois, voltaria ao que era antes. Acho que precisamos disso. É. Algo assim.

Tem algum tipo de ritual que você e os membros do The Doors fazem? 
Sim, existe um ritual no sentido de que usamos os mesmos acessórios e as mesmas pessoas e as mesmas formas repetidamente. A música definitivamente é um ritual, mas não acho que esteja esclarecendo o ritual ou acrescentando qualquer coisa a ele.

Você se vê indo mais em direção à poesia, à literatura em geral? 
É minha maior esperança, meu sonho.

E quando você começou a escrever poemas? 
Ah, acho que por volta da 5a ou 6a série escrevi um chamado “The Poney Express”. É o primeiro que me lembro. Era um desses poemas tipo balada. Só que nunca consegui terminar. Sempre quis escrever, mas sempre achei que só seria bom se a mão pegasse a caneta e começasse a se mexer sem eu ter algo a ver com aquilo. Como uma escrita automática. Escrevi outros, claro. Escrevi “Horse Latitudes” quando estava no ensino médio. Guardei muitos cadernos durante o ensino médio e a faculdade e, quando saí da escola por algum motivo estúpido – talvez sábio –, joguei tudo fora. Não consigo pensar em nada que mais adoraria ter agora do que aqueles cadernos perdidos. Estive pensando em ser hipnotizado ou tomar pentatol sódico para tentar lembrar, porque escrevi naqueles cadernos noite após noite. Só que, talvez se nunca os tivesse jogado fora, nunca teria escrito algo original – porque eram principalmente acúmulos de coisas que eu tinha lido ou ouvido, como citações de livros. Acho que, se nunca tivesse me livrado deles, nunca seria livre.

O que o atraiu na poesia? 
Acho que foi quem me ensinou a falar, a conversar. De verdade. Acho que foi a primeira vez em que aprendi a falar. Até o advento da linguagem, era o toque – comunicação não verbal.

Tenho a sensação de que muitas pessoas que militam no rock não têm muito ou nenhum respeito pela forma – quero dizer, de nunca admitirem ser cantores ou músicos de rock. Em vez disso, sempre dizem que são, na verdade, músicos de jazz ou cineastas... 

Sei o que você quer dizer. Mas acho que a maioria dos músicos e cantores de rock realmente gosta do que faz. Seria psicologicamente enervante só fazer isso para ganhar dinheiro. Acho que o que estraga tudo é a besteira dita pela imprensa, pelos colunistas de fofocas e revistas para fãs. Um baterista, vocalista ou guitarrista gosta do que está fazendo e, então, de repente, todos dizem alguma besteira estranha sobre a viagem do cara. Ele começa a duvidar de sua motivação. Sempre há um grupo que atrapalha a sensibilidade. Então, você tem uma leve sensação de vergonha e frustração no que está fazendo. É uma pena, de verdade. Queria poder ser mais específico, mas acho que você entende o que eu quero dizer.

terça-feira, 1 de março de 2016

Uma latinha de Coca-Cola

Que calor. Passei pela catraca. No primeiro banco, um cara estava vibrado em seu smartphone. Atrás, outro nem piscava pelo mesmo motivo. Pra variar, o coletivo tinha gente pendurado até nas janelas. A linha 580 – terminal Araguaia a Praça da Bíblia – é um inferno nos horários de pico. Estiquei meu braço, e me segurei firme em frente aos internautas. O motorista aparentava pressa. Não estava nem aí se transportava pessoas, ou qualquer outro ser. Ele conduzia-nos com fugacidade.

O suor escorria em minha face.

Raphael disse:

“Esse baú é a latada.”

“E essa esquizofrenia virtual?”, indaguei.

Raphael gargalhara. Ele sabia a quem minha verborragia era destinada.

“Porra, tem gente pra tudo que é lado”, constatou Raphael.

Meneei a face, concordando. Realmente, apanhar o coletivo ao meio-dia é tarefa pra poucos. Acredito que só a disposição de ir à faculdade, ao trabalho, ou a qualquer lugar, de ônibus, já é um empenho louvável.

Chegamos à Praça da Bíblia, depois de uns 15 minutos. O coletivo parou no primeiro ponto, do 027. Descemos, e perdemo-nos na multidão. Quanta gente. E todos se sujeitam a isso, todos os dias, por um simples motivo: sobrevivência. Quem vive sem grana? É a esperança de dias melhores. É um amontoado de fatores, que fazem as pessoas saírem de suas casas, dançar a música que lhes foi imposta. Tudo por dias ensolarados, ao invés dos lânguidos e sombrios, a que fomos habituados.

Parei no ponto do 020. Despedi-me de Raphael. E acendi um cigarro. Ao meu lado, uma moça, que aparentava ter uns 35 anos, estava com duas crianças. Um menino e uma menina. As crianças tinham o olhar inocente, de quem ainda não foi contaminado pelas “regras”.

“Tô com fome, mãe”, relatou a menina.  

“Também, minha filha”, disse a jovem mãe, passando a mão nos cabelos da filha.

“Vamo cumê, quando?”, indagou o menino.

A mulher não soube o quê responder.

Passei a mão pelo meu bolso com o propósito de dar-lhes um trocado. Mas não encontrei nada, nem uma inútil moeda de cinco centavos. Tinha apenas um Marlboro. Concluí que não seria o melhor apresso do universo, oferecer um pito.

Somos fadados a reclamar, refleti. Reclamamos do som. Reclamamos do trabalho. Reclamamos das regras do jogo, dos chavões, das frases feitas, dos clichês arrogantes dos burocratas.

A menina abrira um prazeroso sorriso. A mãe trouxe-lhe uma latinha de Coca-Cola. Ela degustou aquela bebida com deleite invejável. A menina dera alguns goles, e passara-a ao irmão, que, também, dera um longo gole.

Uma simples latinha de Coca-Cola. Pra alguns, uma merda. Pra outros, a salvação. Não sei bem ao certo o que aquelas crianças sentiram ao bebê-la. Sei, apenas, que foi comovente observá-las.

“Obrigado, mãe”, agradeceu a menina.

“Agora, ficamo sem dinheiro”, alertou, no alto de sua humildade.

O 020, enfim, chegara. Como de costume, todos entraram numa velocidade frenética. Se você não se posicionar de forma cautelosa ali, é jogado pra dentro do coletivo.

Fiquei parado ao lado da porta. Quando todos entraram, acomodei-me próximo a uma garota loucamente cheirosa. Seu aroma alegrou-me. Os dias que são estranhos tornam-se leves e suportáveis. No fim, é tudo por ela. Ou pra elas.

Enquanto alguns gozam seus relógios de cinco mil, outros suplicam por uma simples latinha de Coca. 

domingo, 28 de fevereiro de 2016

Em entrevista, Bowie fala sobre cirurgia nos olhos e música

Bowie em 1972

O jornalista Timothy Ferris conversou o cantor David Bowie, em 1972. Publicada pela Rolling Stone, a entrevista é considerada uma das melhores concedidas pelo músico. Nela, Bowie relatou o incidente que culminou na disparidade em seus olhos.“Fiquei de cama tanto tempo depois disso, com as operações no olho e tudo mais. Por causa de um único movimento perdi sete ou oito meses”, disse o cantor. Depois do ocorrido, ele ficou cauteloso. “Isso me tornou bem pacifista”, afirma. Durante briga na escola, Bowie levou um soco nos olhos, que acabou custando-lhe parte da visão. Autor de clássicos como The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders of Mars e Ziggy Stardust, Bowie, à época da entrevista, estava em Cleveland, nos EUA

Ferris abre o texto descrevendo a peculiaridade em torno dos olhos do artista. “Um olho é verde, o outro alterna entre verde e laranja”, relata. Questionado sobre os rumos que rock iria tomar, se esquivou. “É muito difícil determinar que rumo esta nova era do rock vai tomar. Há definitivamente algum tipo de nova era surgindo... Há uma volta do espírito do entretenimento. Mas há também uma mistura de relevância social, é bem difícil determinar se os próximos artistas vão existir como figuras ainda maiores por causa do mérito como entretenimento ou se terão esse status grandioso por causa de algum tipo de valor social mais nobre”, ponderou.

Recentemente, o último álbum de Bowie virou minissérie. A obra apresenta interpretações visuais de Blackstar. O músico havia cedido à roteirista e à produtora, Carolyne Cecilia e Nikki Borge, às músicas do disco. Após sua morte, discutiu-se que Blackstar fora planejado como uma espécie de adeus. A hipótese se sustenta em evidências que foram encontradas na letra de Lazarus, no encarte e até mesmo o nome do álbum.

Bowie morreu em 11 de janeiro. 

Confira a entrevista:

Um olho é verde, o outro alterna entre verde e laranja. As botas são de um vermelho brilhante, com saltos de mais de 6 centímetros. A blusa é laranja e transparente. O cabelo, tingido da cor de uma cenoura lustrosa, é empinado reto acima de sobrancelha. David Bowie já era magro antes de chegar à América do Norte e perdeu mais peso desde então; sua pele lisa parece esticada, ligando cada osso como se fosse um fio de telégrafo passando por cada poste. Ele muda de expressão constantemente, como o vento soprando sobre a superfície de um lago, como eletricidade estática. Tudo na aparência parece extremo. Ele está sentado reto em uma poltrona no quarto de hotel em Cleveland. Do outro lado da janela há vários prédios novos – parece o mostruário de uma construtora. Dois repórteres – um de um jornal local, outro da revista Creem – entrevistam Bowie. Ele responde com uma voz suave, quase um murmúrio. Encara o interlocutor, depois olha para o chão. Tudo em seu comportamento parece moderado.

“Você acha que toda a cena bissexual da Inglaterra deve muito a Ray Davies?”, pergunta o Sr. Cream. “Acho que sempre houve uma cena bissexual na Inglaterra”, diz Bowie. “Eu sei, mas quero dizer, por ter trazido isso à tona”, o repórter insiste.

O Sr. Jornal de Cleveland interrompe: “Davies não fica falando disso, entretanto. Ele parece ter se esquivado do assunto. Em duas entrevistas específicas que li, ele evitava falar a respeito.” Bowie completa: “Não é algo que cabe a mim interpretar”.

“O grande enredo por trás de ‘Five Years’, como surgiu?”, diz o Sr. Jornal de Cleveland.

“É...”

“É obviamente uma ficção científica, uma coisa futurista, mas como surgiu o lance de decidir que o mundo iria terminar em cinco anos?”

“Aquela tinha sido uma tarde ruim.”

“Você compõe a maioria das músicas no piano?”

“Em tardes ruins.”

“Qual a história por trás da frase ‘I wanted TV but I got T. Rex’ (‘Queria TV mas só tinha T. Rex’)? 
De onde veio essa música?”

“Foi escrita para Marc Bolan. Foi a primeira que compus para outra pessoa. A banda deles estava a ponto de se separar e eu disse para não fazerem isso, porque achava que era muito boa. Falei que escreveria um single de sucesso para ele. E escrevi. Foi fácil.”

Criado em bairros barra pesada no sul de Londres, David Jones é filho do relações públicas de um orfanato. Um único soco em uma briga quase lhe custou o olho esquerdo. A cirurgia preservou parte da visão, mas o deixou com a pupila paralisada. O reflexo de luz forte no fundo da retina faz com que o olho pareça laranja ou dourado, como o de um gato pego pelo farol de um carro. “Isso me tornou bem pacifista”, diz Bowie. “Fiquei de cama tanto tempo depois disso, com as operações no olho e tudo mais. Por causa de um único movimento perdi sete ou oito meses.”

Ele abandonou a Bromley Technical High School, passou por uma fase infeliz como artista comercial em uma agência de publicidade, formou um grupo chamado David Jones and the Lower Third e lançou um álbum. Quando o David Jones da banda Monkees ganhou proeminência, o David Jones de Bromley mudou o sobrenome para Bowie, que também é o nome de um tipo de faca.

Intermitentemente por alguns anos, Bowie se apresentou com a trupe de mímicos de Lindsay Kemp. Ele diz que a experiência foi importante para ajudá-lo a criar a performance de rock altamente estilizada que executa hoje. Na Inglaterra, fez um show que incorporava mímicos maquiados, mas não os trouxe para a turnê americana por causa dos custos.

Bowie é vago quanto a idade, mas fica claro que está no meio de seus 20 e poucos anos e que tem atuado nos palcos de um jeito ou de outro por mais de um quarto da vida. Já gravou cinco álbuns, incluindo The Man Who Sold the World e dois pela RCA, Hunky Dory e The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders of Mars. Debates sobre bissexualidade à parte, Bowie é ao mesmo tempo gay e casado com a esposa. Eles têm um filho, Zowie.

David Bowie e a esposa chegaram a bordo do Queen Elizabeth II e pegaram o ônibus rumo a Cleveland. Bowie não gosta de voar, mas descobriu que gostava do ônibus Greyhound; frequentemente o cantor sentava sozinho nos fundos, escrevendo suas músicas ou observando a paisagem pela janela. Os primeiros shows tiveram reações dúbias da crítica. Alguns resenhistas pareceram desapontados por Bowie não ser uma espécie de Super Alice Cooper, uma rainha do rock gay e um degenerado elétrico o tempo todo. Uns poucos momentos no palco podem ter contentado essas almas – como quando Bowie se ajoelha e faz um tipo de sexo oral na guitarra de Mick Ronson – mas, no geral, todos eles tiveram que encarar: não houve ninguém desmunhecando no palco.

Assim, as avaliações variaram enormemente. A minha foi que Bowie é a figura mais forte a surgir no rock em anos. É um daqueles artistas que comandam com facilidade o olhar do público a cada movimento no palco. Em sua teatralidade controlada, sua habilidade de transmitir versos altamente comprimidos e na ansiedade constante que consegue fazer brotar na plateia, me lembra Bob Dylan. Ele absorveu Dylan, os Beatles, Elvis e mais meia dúzia de outros, mas o que emerge disso é substancialmente dele próprio.

O show tem todo um fator de espetáculo. Os Spiders from Mars usam trajes colados e luminescentes, cabelos tingidos e riffs precisos. Bowie não para de se mexer, fazendo poses reminiscentes de dúzias de outros roqueiros mais antigos e se comporta muito como um fantoche. Apesar de toda essa preparação, o show retém muito de espontaneidade em uma época em que os concertos da maior parte das grandes estrelas atuais parecem enlatados.

Bowie conseguiu fazer apresentações em Cleveland e Memphis antes de ser alcançado por uma gripe. Quando chegou ao Carnegie Hall, já estava com febre. A gripe havia progredido para um estágio desgastante quando visitei Bowie em seu quarto no Plaza alguns dias depois. Ele respondeu às perguntas como alguém gripado responderia. O olhar voltado para o vazio por um longo tempo, seguido de uma sequência preocupada de palavras. “Não sou um intelectual em hipótese nenhuma”, ele disse, fungando. “Fiquei muito preocupado quando vi algumas propagandas pré-turnê sobre mim nos Estados Unidos, que me citavam como fazendo parte de algum tipo de intelligentsia new wave. Também não sou primitivo. Me descreveria como um pensador tátil. Vou pegando as coisas... Sou uma pessoa fria. Uma pessoa muito fria. Tenho um impulso lírico, emocional forte e não sei bem de onde isso vem. Não tenho certeza se sou mesmo eu que transpareço nas músicas. Elas saem e eu as ouço depois e penso, bem, quem quer que tenha escrito isso tinha um sentimento muito forte quanto ao tema delas. Não consigo ter sentimentos assim tão fortes. Fico anestesiado. Me vejo andando por aí anestesiado. Sou meio que um homem de gelo.”

Psicologia à parte, Bowie falou sobre as dificuldades de mapear sua carreira como A Estrela dos Anos 70. “É muito difícil determinar que rumo esta nova era do rock vai tomar. Há definitivamente algum tipo de nova era surgindo... Há uma volta do espírito do entretenimento. Mas há também uma mistura de relevância social, é bem difícil determinar se os próximos artistas vão existir como figuras ainda maiores por causa do mérito como entretenimento ou se terão esse status grandioso por causa de algum tipo de valor social mais nobre.”


terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

A deusa de um metro e cinquenta e cinco

Essa deusa de um metro e cinquenta e cinco
Que canta maravilhosamente bem
Está enclausurada num muro que criaram
Bem, há nela o suficiente para deixar-me alegre e louco
E eu fico louco em sua presença
Sou possuído por uma vontade de adorá-la e contemplá-la

Nela, sinto a pureza da vida
Ela é dócil
Essa deusa de um metro e cinquenta e cinco
Faz-me rir
E em sua presença
Esqueço que no mundo
Há barbáries e crueldades

Seus olhos de águia
Abençoáveis e admiráveis
Expressam suas inseguranças e medos e receios
Os idiotas cobiçam-na
E eu digo-lhe para afastar-se deles:

“Todo homem é gentil quando está afim de uma mulher”, pondero

Um rio de melancolia
Nasce no fundo de sua retina
Essa deusa de um metro e cinquenta e cinco
É a garota mais estonteante e sensível do universo

Em sua companhia sinto a pureza das coisas
Conto piadas
Só pra vê-la sorrir
Seu sorriso é delicado e leve
E equilibra o universo
Quando ela se entristece
Tenho uma insensata vontade de gritar:
“Ela é incrível, gente”

Essa deusa de um metro e cinquenta e cinco
Chama-se Letícia
E é sensacional

Marcus Vinícius Beck