terça-feira, 8 de março de 2016

Tragédia moderna

Jim Morrison. 
“This is the end”, cantava o cantor e poeta Jim Morrison. Morto em 1971, aos 27 anos, a vida do astro do The Doors é uma tragédia moderna. Ele escreveu. Encheu a cara. E no final da vida radicou-se em Paris com a propósito de dedicar-se à poesia e livrar-se do álcool. Morrison morrera em 3 de julho de 1971, em circunstâncias misteriosas. Apenas sua namorada, Pamela Courson, viu seu corpo ser enterrado. 

O tecladista Ray Manzarek, colega de Morrison na UCLA (Universidade da Califórnia), relata que o encontrou à beira mar, em Venice, Los Angeles, com um caderno em mãos. Ao aproximar-se dele, percebera que haviam vários poemas rabiscados. A pedido de Manzarek, Morrison leu “Moonlight Drive”. O tecladista, imediatamente, reagiu: “Nós temos que formar uma banda e ganhar um milhão de dólares, cara”. Alguns meses depois, eles já eram famosos no circuito underground de Los Angeles.

Em 1967, lançaram o primeiro álbum. The Doors contava com letras que retratavam morte, violência, fim e loucura. “Light my fire”, sem dúvida, tornou-se um hit estrondoso em versão editada para single. Originalmente, a música tinha sete minutos e exibia o charme do The Doors: os longos e sinuosos riffs de teclados. “The End”, o pesadelo sonoro edipiano de onze minutos, em que Morrison diz que vai matar o pai e foder a mãe, encerra o disco. E em Break on Throught, eles anunciavam que iriam quebrar as regras, neste rock com batidas de bossa-nova.

Stranger Days. Waiting for the sun. The Soft Parade. Morrison Hotel. L.A Woman. O The Doors sacudira a sociedade de consumo estadunidense, em seus discos e apresentações. Em Ninguém sai daqui vivo, o jornalista Jerry Hopkins relata que o som do Doors, para o vocalista, era como se fosse uma catarse. “É um som para quem se sente diferente”, dizia o vocalista.

Em 1969, após ser preso por exposição indecente, Morrison concedeu entrevista a Hopkins. Durante o diálogo, eles falaram sobre poesia, música e como o vocalista/poeta tratava os limites de sua arte. A entrevista foi publicada pela Rolling Stone.

Confira:

Os Beatles e outros artistas parecem ter voltado às raízes, ao som básico... 
Sim, o country e o blues, é isso. As pessoas têm esses novos poços de informação e ideias, e isso foi bem longe. E, um dia, parou. Então, agora as pessoas estão voltando a esta forma básica de música. Obviamente, haverá uma nova síntese – provavelmente daqui a dois ou três anos. O ciclo parece ter essa duração; essa é a duração de uma geração agora.

Você quer dizer uma nova síntese entre o country e o blues? 
Não sei, cara. O rock era isso, country e blues. Há muitos outros elementos dos quais as pessoas ficaram cientes, como música indiana, oriental, africana e eletrônica. Provavelmente seria uma síntese disso, uma síntese muito louca. Acho que, nos Estados Unidos, voltamos ao blues e country porque são nossas duas formas de música nativas. Sabe o que pode acontecer? As grandes mentes musicais que tratavam de coisas clássicas podem entrar em áreas populares.

Você já tocou algum instrumento musical? 
Quando era criança, tentei piano por um tempo, mas não tinha disciplina para continuar. Tentei por uns meses. Acho que cheguei até o livro do terceiro nível.

Tem vontade de tocar um instrumento hoje? 
Na verdade, não. Toco maracas. Consigo tocar algumas músicas no piano. Só minhas invenções, então não é realmente música; é barulho. Consigo tocar uma, mas ela só tem duas mudanças, dois acordes, então é bem básica. Realmente gostaria de conseguir tocar guitarra, mas não tenho o sentimento necessário.

Como foi o começo do The Doors na gravadora Elektra? 
A Elektra na época era nova na cena do rock. Tinha o Love e a Paul Butterfield Band, que estava mais no blues e folk. O Love era a primeira banda de rock com potencial da Elektra para o mercado de singles, já que a Elektra era predominantemente uma gravadora de álbuns. Depois de contratar o Love, o presidente da empresa [Jac Holzman] nos ouviu tocar no Whisky a Go Go. Acho que ele me contou uma vez que não gostou. Ele voltou outras vezes e enfim todos na gravadora estavam convencidos de que faríamos muito sucesso. Então, nos contratou.

É verdade que você gostaria de voltar aos tempos que a banda tocava no Whisky a Go Go? 
Só digo que algumas das melhores viagens musicais que fizemos foram em clubes pequenos. Grandes shows são ótimos, mas entram em um fenômeno de multidão que realmente não tem muito a ver com a música. Em um clube, a atmosfera é diferente. Eles podem ver você suar e você consegue vê-los. E há muito menos bobagem. Em um show em estádio, você reúne muita gente e não importa tanto o que faz. Em um clube, tem de empolgar as pessoas só com a música. Se não der certo, todos percebem.

É mais difícil fracassar em um grande show? 
É quase impossível. Há a simples empolgação de estar no evento, aquela massa de gente se misturando, isso gera um tipo de eletricidade. É empolgante, mas não é exatamente sobre música. É histeria em massa.

Você já me disse que, tocando em locais menores, há a chance de compor, algo difícil quando se está em uma turnê de grandes shows. 
Certo. Além disso, gosto de trabalhar. Não há nada mais divertido do que tocar música para uma plateia. Dá para improvisar nos ensaios, mas é meio que uma atmosfera morta. Não há retorno do público. Não há tensão, na verdade, porque em um clube, com um público pequeno, você fica livre para fazer qualquer coisa. Ainda existe a obrigação de ser bom, então você não consegue ficar realmente solto; há gente olhando. Então, há essa tensão linda. Há liberdade e, ao mesmo tempo, uma obrigação de tocar bem. Posso trabalhar o dia inteiro, voltar para casa, tomar banho, trocar de roupa e fazer duas ou três apresentações no Whisky, cara, e amo isso. Amo a performance no palco do mesmo jeito que um atleta ama correr para se manter em forma.

Vocês conseguem criar algo quando improvisam? 
Sim. Veja, precisávamos de outra música para este álbum [The Soft Parade]. Estávamos queimando neurônios tentando pensar em algo. Estávamos no estúdio, então começamos a tocar várias músicas antigas. Viagens de blues. Clássicos do rock. Finalmente, começamos a tocar por uma hora. Passamos por toda a história do rock – começando com o blues, pelo rock and roll, surf music, música latina, tudo. E saiu algo. Eu a chamo de “Rock Is Dead”. Duvido que alguém escute um dia. [N.R.: “Rock Is Dead” finalmente foi lançada em The Doors Box Set (1997) ]

Recentemente foi divulgado que você havia dito que o rock estava morto. É algo em que você realmente acredita? 
É como o que falamos antes. Falei algo sobre o movimento de volta às raízes. A chama inicial se apagou. A coisa que chamam de “rock and roll” ficou decadente. Daí houve uma ressurreição do estilo promovida pelos ingleses. Aquilo foi muito longe, foi articulado. Depois, ficou olhando para si próprio, o que, acho, é a morte. O rock and roll ficou com vergonha de si, sem evoluir, e se tornou algo meio incestuoso. A energia acabou. Não existe mais uma crença.

Como reage ao que escrevem a seu respeito? 
Bem, eu pergunto: há uma coisa pior do que uma foto muito ruim? Uma foto pode fazer qualquer pessoa parecer um anjo, bobo, demônio, uma não entidade. Muito disso vem por acaso; muito é malícia e também idolatria. Uma foto ruim pode te dar vários momentos de perda psíquica real. Você sabe que não é você, mas alguém escolheu te criticar daquela forma.

Você se imagina um roqueiro a vida toda? 
É difícil dizer. Talvez eu vire um executivo de uma empresa... Meio que gosto da imagem. Escritório grande. Secretária...

Nos três primeiros álbuns, o crédito de compositor em cada faixa ia para o The Doors, em vez de ir para os indivíduos. Mas sei que a partir de agora, com o novo The Soft Parade, os compositores individuais serão listados nos álbuns. Por quê? 
No começo, eu escrevia a maioria das canções, letra e música. Em cada álbum seguinte, Robby [Krieger, guitarrista] contribuiu com mais músicas, até que finalmente em The Soft Parade tudo está dividido praticamente igual entre nós dois. Temos uma visão muito diferente da realidade, argumentos diferentes, então senti que era hora. Somos uma parceria, sabe? Artisticamente e financeiramente. Dividimos por igual. No começo, muito foi em interesse coletivo, para manter tudo unido. Agora que a unidade não está mais tanto em risco, achei que era o momento de as pessoas saberem quem estava dizendo o quê. Então, este será o primeiro disco em que daremos créditos ao compositor e acho que continuaremos fazendo isso.

Como sua visão das coisas é diferente da de Robby? A dele é, digamos, mais romântica, ou o que é? 
Não sei bem. Você terá de descobrir sozinho. Não sei mesmo. Musicalmente, como guitarrista, ele é mais complexo – mudanças de acorde, lindas melodias e tal – e minha coisa está mais na veia do blues: longa, errante, básica e primitiva. É que a diferença entre dois poetas é muito grande. Em muitas músicas no começo, eu ou Robby vínhamos com a ideia básica, letras e melodia, mas depois todo o arranjo e a gestação real da canção aconteciam noite após noite, dia após dia, em ensaios ou nos clubes. Quando viramos uma banda de grandes shows, uma banda de discos, e quando fomos contratados para lançar tantos álbuns por ano, tantos singles a cada seis meses, aquele processo natural, espontâneo e gerador não teve a chance de acontecer como era no começo. Tivemos que realmente criar músicas no estúdio. O que começou a acontecer foi que Robby ou eu vínhamos com a canção e o arranjo já completos em nossa cabeça em vez de trabalhar lentamente naquilo.

Você já declarou que gosta de fazer as pessoas se levantarem da cadeira, mas não de criar intencionalmente uma situação caótica... 
A situação nunca ficou fora de controle, na verdade. É algo bem brincalhão, mesmo. Nós nos divertimos, a garotada se diverte, a polícia se diverte. É um triângulo meio estranho. Só pensamos em subir ao palco e tocar boa música. Às vezes, eu me empolgo e excito as pessoas um pouco, mas normalmente estamos ali tentando tocar boa música. É isso. Cada vez é diferente. Há diversos graus de febre no auditório esperando por você. Daí, você sobe ao palco e encontra essa onda de energia em potencial. Nunca sabe o que será.

O que você quer dizer com “às vezes, eu me empolgo e excito as pessoas um pouco”? 
Digamos que estava testando os limites da realidade. Estava curioso para ver o que aconteceria. Era só isso: mera curiosidade.

Como você testa os limites? 
Eu simplesmente tento levar a situação o mais longe possível.

E mesmo assim não sente, em momento algum, que as coisas saíram do controle? 
Nunca. Você tem de olhar para isso de maneira lógica. Se não houvesse policiais ali, alguém tentaria subir ao palco? O que eles fariam quando conseguissem? Quando sobem, ficam muito tranquilos, não vão fazer nada. O único incentivo para subir é porque há uma barreira. Se não houvesse barreira, não haveria incentivo. É isso. Acredito firmemente nisso. Sem incentivo, sem carga. Ação e reação. Pense nos shows gratuitos no parque. Nenhuma ação, nenhuma reação. Nenhum estímulo, nenhuma resposta. Só que é interessante, porque a garotada tem uma chance de testar os policiais. Você os vê hoje, andando com suas armas e uniformes, e o policial se porta como se fosse o homem mais durão do quarteirão, e todos ficam curiosos sobre o que exatamente aconteceria se você o desafiasse. O que ele vai fazer? Acho que é uma coisa boa, porque dá aos jovens uma chance de testar a autoridade.

Há uma citação atribuída a você que aparece muito na imprensa. Diz: “Estou interessado em qualquer coisa sobre revolta, desordem, caos...” 
“... especialmente atividade que pareça não ter significado.”

Isso, essa mesmo. É outro exemplo de manipulação da mídia? Você inventou essa frase para um jornalista? 
Sim, definitivamente, criei a frase, mas tem verdade nela também. Quem não fica fascinado com o caos? Só que é mais do que isso. Estou interessado em atividade que não tenha significado, e tudo o que quero dizer com isso é atividade livre. Tocar. Atividade que não tenha nada nela exceto o que é. Nenhuma repercussão. Nenhuma motivação. Atividade... livre. Acho que deveria haver um carnaval nos Estados Unidos, como o do Rio de Janeiro. Deveria haver uma semana de hilaridade nacional... uma pausa em todo trabalho, todos os negócios, toda discriminação, toda autoridade. Uma semana de liberdade total. Seria o começo. Claro, a estrutura de poder não seria realmente alterada, mas alguém nas ruas – não sei como o escolheriam, aleatoriamente, talvez – se tornaria o presidente. Outra pessoa seria o vice. Outras seriam senadores, deputados, no tribunal superior, policiais. Só duraria uma semana e, depois, voltaria ao que era antes. Acho que precisamos disso. É. Algo assim.

Tem algum tipo de ritual que você e os membros do The Doors fazem? 
Sim, existe um ritual no sentido de que usamos os mesmos acessórios e as mesmas pessoas e as mesmas formas repetidamente. A música definitivamente é um ritual, mas não acho que esteja esclarecendo o ritual ou acrescentando qualquer coisa a ele.

Você se vê indo mais em direção à poesia, à literatura em geral? 
É minha maior esperança, meu sonho.

E quando você começou a escrever poemas? 
Ah, acho que por volta da 5a ou 6a série escrevi um chamado “The Poney Express”. É o primeiro que me lembro. Era um desses poemas tipo balada. Só que nunca consegui terminar. Sempre quis escrever, mas sempre achei que só seria bom se a mão pegasse a caneta e começasse a se mexer sem eu ter algo a ver com aquilo. Como uma escrita automática. Escrevi outros, claro. Escrevi “Horse Latitudes” quando estava no ensino médio. Guardei muitos cadernos durante o ensino médio e a faculdade e, quando saí da escola por algum motivo estúpido – talvez sábio –, joguei tudo fora. Não consigo pensar em nada que mais adoraria ter agora do que aqueles cadernos perdidos. Estive pensando em ser hipnotizado ou tomar pentatol sódico para tentar lembrar, porque escrevi naqueles cadernos noite após noite. Só que, talvez se nunca os tivesse jogado fora, nunca teria escrito algo original – porque eram principalmente acúmulos de coisas que eu tinha lido ou ouvido, como citações de livros. Acho que, se nunca tivesse me livrado deles, nunca seria livre.

O que o atraiu na poesia? 
Acho que foi quem me ensinou a falar, a conversar. De verdade. Acho que foi a primeira vez em que aprendi a falar. Até o advento da linguagem, era o toque – comunicação não verbal.

Tenho a sensação de que muitas pessoas que militam no rock não têm muito ou nenhum respeito pela forma – quero dizer, de nunca admitirem ser cantores ou músicos de rock. Em vez disso, sempre dizem que são, na verdade, músicos de jazz ou cineastas... 
Sei o que você quer dizer. Mas acho que a maioria dos músicos e cantores de rock realmente gosta do que faz. Seria psicologicamente enervante só fazer isso para ganhar dinheiro. Acho que o que estraga tudo é a besteira dita pela imprensa, pelos colunistas de fofocas e revistas para fãs. Um baterista, vocalista ou guitarrista gosta do que está fazendo e, então, de repente, todos dizem alguma besteira estranha sobre a viagem do cara. Ele começa a duvidar de sua motivação. Sempre há um grupo que atrapalha a sensibilidade. Então, você tem uma leve sensação de vergonha e frustração no que está fazendo. É uma pena, de verdade. Queria poder ser mais específico, mas acho que você entende o que eu quero dizer.
verá uma nova síntese – provavelmente daqui a dois ou três anos. O ciclo parece ter essa duração; essa é a duração de uma geração agora.

Você quer dizer uma nova síntese entre o country e o blues? 
Não sei, cara. O rock era isso, country e blues. Há muitos outros elementos dos quais as pessoas ficaram cientes, como música indiana, oriental, africana e eletrônica. Provavelmente seria uma síntese disso, uma síntese muito louca. Acho que, nos Estados Unidos, voltamos ao blues e country porque são nossas duas formas de música nativas. Sabe o que pode acontecer? As grandes mentes musicais que tratavam de coisas clássicas podem entrar em áreas populares.

Você já tocou algum instrumento musical? 
Quando era criança, tentei piano por um tempo, mas não tinha disciplina para continuar. Tentei por uns meses. Acho que cheguei até o livro do terceiro nível.
Tem vontade de tocar um instrumento hoje? 
Na verdade, não. Toco maracas. Consigo tocar algumas músicas no piano. Só minhas invenções, então não é realmente música; é barulho. Consigo tocar uma, mas ela só tem duas mudanças, dois acordes, então é bem básica. Realmente gostaria de conseguir tocar guitarra, mas não tenho o sentimento necessário.

Como foi o começo do The Doors na gravadora Elektra? 
A Elektra na época era nova na cena do rock. Tinha o Love e a Paul Butterfield Band, que estava mais no blues e folk. O Love era a primeira banda de rock com potencial da Elektra para o mercado de singles, já que a Elektra era predominantemente uma gravadora de álbuns. Depois de contratar o Love, o presidente da empresa [Jac Holzman] nos ouviu tocar no Whisky a Go Go. Acho que ele me contou uma vez que não gostou. Ele voltou outras vezes e enfim todos na gravadora estavam convencidos de que faríamos muito sucesso. Então, nos contratou.

É verdade que você gostaria de voltar aos tempos que a banda tocava no Whisky a Go Go? 
Só digo que algumas das melhores viagens musicais que fizemos foram em clubes pequenos. Grandes shows são ótimos, mas entram em um fenômeno de multidão que realmente não tem muito a ver com a música. Em um clube, a atmosfera é diferente. Eles podem ver você suar e você consegue vê-los. E há muito menos bobagem. Em um show em estádio, você reúne muita gente e não importa tanto o que faz. Em um clube, tem de empolgar as pessoas só com a música. Se não der certo, todos percebem.

É mais difícil fracassar em um grande show? 
É quase impossível. Há a simples empolgação de estar no evento, aquela massa de gente se misturando, isso gera um tipo de eletricidade. É empolgante, mas não é exatamente sobre música. É histeria em massa.

Você já me disse que, tocando em locais menores, há a chance de compor, algo difícil quando se está em uma turnê de grandes shows. 
Certo. Além disso, gosto de trabalhar. Não há nada mais divertido do que tocar música para uma plateia. Dá para improvisar nos ensaios, mas é meio que uma atmosfera morta. Não há retorno do público. Não há tensão, na verdade, porque em um clube, com um público pequeno, você fica livre para fazer qualquer coisa. Ainda existe a obrigação de ser bom, então você não consegue ficar realmente solto; há gente olhando. Então, há essa tensão linda. Há liberdade e, ao mesmo tempo, uma obrigação de tocar bem. Posso trabalhar o dia inteiro, voltar para casa, tomar banho, trocar de roupa e fazer duas ou três apresentações no Whisky, cara, e amo isso. Amo a performance no palco do mesmo jeito que um atleta ama correr para se manter em forma.

Vocês conseguem criar algo quando improvisam? 
Sim. Veja, precisávamos de outra música para este álbum [The Soft Parade]. Estávamos queimando neurônios tentando pensar em algo. Estávamos no estúdio, então começamos a tocar várias músicas antigas. Viagens de blues. Clássicos do rock. Finalmente, começamos a tocar por uma hora. Passamos por toda a história do rock – começando com o blues, pelo rock and roll, surf music, música latina, tudo. E saiu algo. Eu a chamo de “Rock Is Dead”. Duvido que alguém escute um dia. [N.R.: “Rock Is Dead” finalmente foi lançada em The Doors Box Set (1997) ]

Recentemente foi divulgado que você havia dito que o rock estava morto. É algo em que você realmente acredita? 
É como o que falamos antes. Falei algo sobre o movimento de volta às raízes. A chama inicial se apagou. A coisa que chamam de “rock and roll” ficou decadente. Daí houve uma ressurreição do estilo promovida pelos ingleses. Aquilo foi muito longe, foi articulado. Depois, ficou olhando para si próprio, o que, acho, é a morte. O rock and roll ficou com vergonha de si, sem evoluir, e se tornou algo meio incestuoso. A energia acabou. Não existe mais uma crença.

Como reage ao que escrevem a seu respeito? 
Bem, eu pergunto: há uma coisa pior do que uma foto muito ruim? Uma foto pode fazer qualquer pessoa parecer um anjo, bobo, demônio, uma não entidade. Muito disso vem por acaso; muito é malícia e também idolatria. Uma foto ruim pode te dar vários momentos de perda psíquica real. Você sabe que não é você, mas alguém escolheu te criticar daquela forma.

Você se imagina um roqueiro a vida toda? 
É difícil dizer. Talvez eu vire um executivo de uma empresa... Meio que gosto da imagem. Escritório grande. Secretária...

Nos três primeiros álbuns, o crédito de compositor em cada faixa ia para o The Doors, em vez de ir para os indivíduos. Mas sei que a partir de agora, com o novo The Soft Parade, os compositores individuais serão listados nos álbuns. Por quê? 
No começo, eu escrevia a maioria das canções, letra e música. Em cada álbum seguinte, Robby [Krieger, guitarrista] contribuiu com mais músicas, até que finalmente em The Soft Parade tudo está dividido praticamente igual entre nós dois. Temos uma visão muito diferente da realidade, argumentos diferentes, então senti que era hora. Somos uma parceria, sabe? Artisticamente e financeiramente. Dividimos por igual. No começo, muito foi em interesse coletivo, para manter tudo unido. Agora que a unidade não está mais tanto em risco, achei que era o momento de as pessoas saberem quem estava dizendo o quê. Então, este será o primeiro disco em que daremos créditos ao compositor e acho que continuaremos fazendo isso.

Como sua visão das coisas é diferente da de Robby? A dele é, digamos, mais romântica, ou o que é? 
Não sei bem. Você terá de descobrir sozinho. Não sei mesmo. Musicalmente, como guitarrista, ele é mais complexo – mudanças de acorde, lindas melodias e tal – e minha coisa está mais na veia do blues: longa, errante, básica e primitiva. É que a diferença entre dois poetas é muito grande. Em muitas músicas no começo, eu ou Robby vínhamos com a ideia básica, letras e melodia, mas depois todo o arranjo e a gestação real da canção aconteciam noite após noite, dia após dia, em ensaios ou nos clubes. Quando viramos uma banda de grandes shows, uma banda de discos, e quando fomos contratados para lançar tantos álbuns por ano, tantos singles a cada seis meses, aquele processo natural, espontâneo e gerador não teve a chance de acontecer como era no começo. Tivemos que realmente criar músicas no estúdio. O que começou a acontecer foi que Robby ou eu vínhamos com a canção e o arranjo já completos em nossa cabeça em vez de trabalhar lentamente naquilo.

Você já declarou que gosta de fazer as pessoas se levantarem da cadeira, mas não de criar intencionalmente uma situação caótica... 
A situação nunca ficou fora de controle, na verdade. É algo bem brincalhão, mesmo. Nós nos divertimos, a garotada se diverte, a polícia se diverte. É um triângulo meio estranho. Só pensamos em subir ao palco e tocar boa música. Às vezes, eu me empolgo e excito as pessoas um pouco, mas normalmente estamos ali tentando tocar boa música. É isso. Cada vez é diferente. Há diversos graus de febre no auditório esperando por você. Daí, você sobe ao palco e encontra essa onda de energia em potencial. Nunca sabe o que será.

O que você quer dizer com “às vezes, eu me empolgo e excito as pessoas um pouco”? 
Digamos que estava testando os limites da realidade. Estava curioso para ver o que aconteceria. Era só isso: mera curiosidade.

Como você testa os limites? 
Eu simplesmente tento levar a situação o mais longe possível.

E mesmo assim não sente, em momento algum, que as coisas saíram do controle? 
Nunca. Você tem de olhar para isso de maneira lógica. Se não houvesse policiais ali, alguém tentaria subir ao palco? O que eles fariam quando conseguissem? Quando sobem, ficam muito tranquilos, não vão fazer nada. O único incentivo para subir é porque há uma barreira. Se não houvesse barreira, não haveria incentivo. É isso. Acredito firmemente nisso. Sem incentivo, sem carga. Ação e reação. Pense nos shows gratuitos no parque. Nenhuma ação, nenhuma reação. Nenhum estímulo, nenhuma resposta. Só que é interessante, porque a garotada tem uma chance de testar os policiais. Você os vê hoje, andando com suas armas e uniformes, e o policial se porta como se fosse o homem mais durão do quarteirão, e todos ficam curiosos sobre o que exatamente aconteceria se você o desafiasse. O que ele vai fazer? Acho que é uma coisa boa, porque dá aos jovens uma chance de testar a autoridade.
Há uma citação atribuída a você que aparece muito na imprensa. Diz: “Estou interessado em qualquer coisa sobre revolta, desordem, caos...” 
“... especialmente atividade que pareça não ter significado.”

Isso, essa mesmo. É outro exemplo de manipulação da mídia? Você inventou essa frase para um jornalista? 
Sim, definitivamente, criei a frase, mas tem verdade nela também. Quem não fica fascinado com o caos? Só que é mais do que isso. Estou interessado em atividade que não tenha significado, e tudo o que quero dizer com isso é atividade livre. Tocar. Atividade que não tenha nada nela exceto o que é. Nenhuma repercussão. Nenhuma motivação. Atividade... livre. Acho que deveria haver um carnaval nos Estados Unidos, como o do Rio de Janeiro. Deveria haver uma semana de hilaridade nacional... uma pausa em todo trabalho, todos os negócios, toda discriminação, toda autoridade. Uma semana de liberdade total. Seria o começo. Claro, a estrutura de poder não seria realmente alterada, mas alguém nas ruas – não sei como o escolheriam, aleatoriamente, talvez – se tornaria o presidente. Outra pessoa seria o vice. Outras seriam senadores, deputados, no tribunal superior, policiais. Só duraria uma semana e, depois, voltaria ao que era antes. Acho que precisamos disso. É. Algo assim.

Tem algum tipo de ritual que você e os membros do The Doors fazem? 
Sim, existe um ritual no sentido de que usamos os mesmos acessórios e as mesmas pessoas e as mesmas formas repetidamente. A música definitivamente é um ritual, mas não acho que esteja esclarecendo o ritual ou acrescentando qualquer coisa a ele.

Você se vê indo mais em direção à poesia, à literatura em geral? 
É minha maior esperança, meu sonho.

E quando você começou a escrever poemas? 
Ah, acho que por volta da 5a ou 6a série escrevi um chamado “The Poney Express”. É o primeiro que me lembro. Era um desses poemas tipo balada. Só que nunca consegui terminar. Sempre quis escrever, mas sempre achei que só seria bom se a mão pegasse a caneta e começasse a se mexer sem eu ter algo a ver com aquilo. Como uma escrita automática. Escrevi outros, claro. Escrevi “Horse Latitudes” quando estava no ensino médio. Guardei muitos cadernos durante o ensino médio e a faculdade e, quando saí da escola por algum motivo estúpido – talvez sábio –, joguei tudo fora. Não consigo pensar em nada que mais adoraria ter agora do que aqueles cadernos perdidos. Estive pensando em ser hipnotizado ou tomar pentatol sódico para tentar lembrar, porque escrevi naqueles cadernos noite após noite. Só que, talvez se nunca os tivesse jogado fora, nunca teria escrito algo original – porque eram principalmente acúmulos de coisas que eu tinha lido ou ouvido, como citações de livros. Acho que, se nunca tivesse me livrado deles, nunca seria livre.

O que o atraiu na poesia? 
Acho que foi quem me ensinou a falar, a conversar. De verdade. Acho que foi a primeira vez em que aprendi a falar. Até o advento da linguagem, era o toque – comunicação não verbal.

Tenho a sensação de que muitas pessoas que militam no rock não têm muito ou nenhum respeito pela forma – quero dizer, de nunca admitirem ser cantores ou músicos de rock. Em vez disso, sempre dizem que são, na verdade, músicos de jazz ou cineastas... 

Sei o que você quer dizer. Mas acho que a maioria dos músicos e cantores de rock realmente gosta do que faz. Seria psicologicamente enervante só fazer isso para ganhar dinheiro. Acho que o que estraga tudo é a besteira dita pela imprensa, pelos colunistas de fofocas e revistas para fãs. Um baterista, vocalista ou guitarrista gosta do que está fazendo e, então, de repente, todos dizem alguma besteira estranha sobre a viagem do cara. Ele começa a duvidar de sua motivação. Sempre há um grupo que atrapalha a sensibilidade. Então, você tem uma leve sensação de vergonha e frustração no que está fazendo. É uma pena, de verdade. Queria poder ser mais específico, mas acho que você entende o que eu quero dizer.

terça-feira, 1 de março de 2016

Uma latinha de Coca-Cola

Que calor. Passei pela catraca. No primeiro banco, um cara estava vibrado em seu smartphone. Atrás, outro nem piscava pelo mesmo motivo. Pra variar, o coletivo tinha gente pendurado até nas janelas. A linha 580 – terminal Araguaia a Praça da Bíblia – é um inferno nos horários de pico. Estiquei meu braço, e me segurei firme em frente aos internautas. O motorista aparentava pressa. Não estava nem aí se transportava pessoas, ou qualquer outro ser. Ele conduzia-nos com fugacidade.

O suor escorria em minha face.

Raphael disse:

“Esse baú é a latada.”

“E essa esquizofrenia virtual?”, indaguei.

Raphael gargalhara. Ele sabia a quem minha verborragia era destinada.

“Porra, tem gente pra tudo que é lado”, constatou Raphael.

Meneei a face, concordando. Realmente, apanhar o coletivo ao meio-dia é tarefa pra poucos. Acredito que só a disposição de ir à faculdade, ao trabalho, ou a qualquer lugar, de ônibus, já é um empenho louvável.

Chegamos à Praça da Bíblia, depois de uns 15 minutos. O coletivo parou no primeiro ponto, do 027. Descemos, e perdemo-nos na multidão. Quanta gente. E todos se sujeitam a isso, todos os dias, por um simples motivo: sobrevivência. Quem vive sem grana? É a esperança de dias melhores. É um amontoado de fatores, que fazem as pessoas saírem de suas casas, dançar a música que lhes foi imposta. Tudo por dias ensolarados, ao invés dos lânguidos e sombrios, a que fomos habituados.

Parei no ponto do 020. Despedi-me de Raphael. E acendi um cigarro. Ao meu lado, uma moça, que aparentava ter uns 35 anos, estava com duas crianças. Um menino e uma menina. As crianças tinham o olhar inocente, de quem ainda não foi contaminado pelas “regras”.

“Tô com fome, mãe”, relatou a menina.  

“Também, minha filha”, disse a jovem mãe, passando a mão nos cabelos da filha.

“Vamo cumê, quando?”, indagou o menino.

A mulher não soube o quê responder.

Passei a mão pelo meu bolso com o propósito de dar-lhes um trocado. Mas não encontrei nada, nem uma inútil moeda de cinco centavos. Tinha apenas um Marlboro. Concluí que não seria o melhor apresso do universo, oferecer um pito.

Somos fadados a reclamar, refleti. Reclamamos do som. Reclamamos do trabalho. Reclamamos das regras do jogo, dos chavões, das frases feitas, dos clichês arrogantes dos burocratas.

A menina abrira um prazeroso sorriso. A mãe trouxe-lhe uma latinha de Coca-Cola. Ela degustou aquela bebida com deleite invejável. A menina dera alguns goles, e passara-a ao irmão, que, também, dera um longo gole.

Uma simples latinha de Coca-Cola. Pra alguns, uma merda. Pra outros, a salvação. Não sei bem ao certo o que aquelas crianças sentiram ao bebê-la. Sei, apenas, que foi comovente observá-las.

“Obrigado, mãe”, agradeceu a menina.

“Agora, ficamo sem dinheiro”, alertou, no alto de sua humildade.

O 020, enfim, chegara. Como de costume, todos entraram numa velocidade frenética. Se você não se posicionar de forma cautelosa ali, é jogado pra dentro do coletivo.

Fiquei parado ao lado da porta. Quando todos entraram, acomodei-me próximo a uma garota loucamente cheirosa. Seu aroma alegrou-me. Os dias que são estranhos tornam-se leves e suportáveis. No fim, é tudo por ela. Ou pra elas.

Enquanto alguns gozam seus relógios de cinco mil, outros suplicam por uma simples latinha de Coca. 

domingo, 28 de fevereiro de 2016

Em entrevista, Bowie fala sobre cirurgia nos olhos e música

Bowie em 1972

O jornalista Timothy Ferris conversou o cantor David Bowie, em 1972. Publicada pela Rolling Stone, a entrevista é considerada uma das melhores concedidas pelo músico. Nela, Bowie relatou o incidente que culminou na disparidade em seus olhos.“Fiquei de cama tanto tempo depois disso, com as operações no olho e tudo mais. Por causa de um único movimento perdi sete ou oito meses”, disse o cantor. Depois do ocorrido, ele ficou cauteloso. “Isso me tornou bem pacifista”, afirma. Durante briga na escola, Bowie levou um soco nos olhos, que acabou custando-lhe parte da visão. Autor de clássicos como The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders of Mars e Ziggy Stardust, Bowie, à época da entrevista, estava em Cleveland, nos EUA

Ferris abre o texto descrevendo a peculiaridade em torno dos olhos do artista. “Um olho é verde, o outro alterna entre verde e laranja”, relata. Questionado sobre os rumos que rock iria tomar, se esquivou. “É muito difícil determinar que rumo esta nova era do rock vai tomar. Há definitivamente algum tipo de nova era surgindo... Há uma volta do espírito do entretenimento. Mas há também uma mistura de relevância social, é bem difícil determinar se os próximos artistas vão existir como figuras ainda maiores por causa do mérito como entretenimento ou se terão esse status grandioso por causa de algum tipo de valor social mais nobre”, ponderou.

Recentemente, o último álbum de Bowie virou minissérie. A obra apresenta interpretações visuais de Blackstar. O músico havia cedido à roteirista e à produtora, Carolyne Cecilia e Nikki Borge, às músicas do disco. Após sua morte, discutiu-se que Blackstar fora planejado como uma espécie de adeus. A hipótese se sustenta em evidências que foram encontradas na letra de Lazarus, no encarte e até mesmo o nome do álbum.

Bowie morreu em 11 de janeiro. 

Confira a entrevista:

Um olho é verde, o outro alterna entre verde e laranja. As botas são de um vermelho brilhante, com saltos de mais de 6 centímetros. A blusa é laranja e transparente. O cabelo, tingido da cor de uma cenoura lustrosa, é empinado reto acima de sobrancelha. David Bowie já era magro antes de chegar à América do Norte e perdeu mais peso desde então; sua pele lisa parece esticada, ligando cada osso como se fosse um fio de telégrafo passando por cada poste. Ele muda de expressão constantemente, como o vento soprando sobre a superfície de um lago, como eletricidade estática. Tudo na aparência parece extremo. Ele está sentado reto em uma poltrona no quarto de hotel em Cleveland. Do outro lado da janela há vários prédios novos – parece o mostruário de uma construtora. Dois repórteres – um de um jornal local, outro da revista Creem – entrevistam Bowie. Ele responde com uma voz suave, quase um murmúrio. Encara o interlocutor, depois olha para o chão. Tudo em seu comportamento parece moderado.

“Você acha que toda a cena bissexual da Inglaterra deve muito a Ray Davies?”, pergunta o Sr. Cream. “Acho que sempre houve uma cena bissexual na Inglaterra”, diz Bowie. “Eu sei, mas quero dizer, por ter trazido isso à tona”, o repórter insiste.

O Sr. Jornal de Cleveland interrompe: “Davies não fica falando disso, entretanto. Ele parece ter se esquivado do assunto. Em duas entrevistas específicas que li, ele evitava falar a respeito.” Bowie completa: “Não é algo que cabe a mim interpretar”.

“O grande enredo por trás de ‘Five Years’, como surgiu?”, diz o Sr. Jornal de Cleveland.

“É...”

“É obviamente uma ficção científica, uma coisa futurista, mas como surgiu o lance de decidir que o mundo iria terminar em cinco anos?”

“Aquela tinha sido uma tarde ruim.”

“Você compõe a maioria das músicas no piano?”

“Em tardes ruins.”

“Qual a história por trás da frase ‘I wanted TV but I got T. Rex’ (‘Queria TV mas só tinha T. Rex’)? 
De onde veio essa música?”

“Foi escrita para Marc Bolan. Foi a primeira que compus para outra pessoa. A banda deles estava a ponto de se separar e eu disse para não fazerem isso, porque achava que era muito boa. Falei que escreveria um single de sucesso para ele. E escrevi. Foi fácil.”

Criado em bairros barra pesada no sul de Londres, David Jones é filho do relações públicas de um orfanato. Um único soco em uma briga quase lhe custou o olho esquerdo. A cirurgia preservou parte da visão, mas o deixou com a pupila paralisada. O reflexo de luz forte no fundo da retina faz com que o olho pareça laranja ou dourado, como o de um gato pego pelo farol de um carro. “Isso me tornou bem pacifista”, diz Bowie. “Fiquei de cama tanto tempo depois disso, com as operações no olho e tudo mais. Por causa de um único movimento perdi sete ou oito meses.”

Ele abandonou a Bromley Technical High School, passou por uma fase infeliz como artista comercial em uma agência de publicidade, formou um grupo chamado David Jones and the Lower Third e lançou um álbum. Quando o David Jones da banda Monkees ganhou proeminência, o David Jones de Bromley mudou o sobrenome para Bowie, que também é o nome de um tipo de faca.

Intermitentemente por alguns anos, Bowie se apresentou com a trupe de mímicos de Lindsay Kemp. Ele diz que a experiência foi importante para ajudá-lo a criar a performance de rock altamente estilizada que executa hoje. Na Inglaterra, fez um show que incorporava mímicos maquiados, mas não os trouxe para a turnê americana por causa dos custos.

Bowie é vago quanto a idade, mas fica claro que está no meio de seus 20 e poucos anos e que tem atuado nos palcos de um jeito ou de outro por mais de um quarto da vida. Já gravou cinco álbuns, incluindo The Man Who Sold the World e dois pela RCA, Hunky Dory e The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders of Mars. Debates sobre bissexualidade à parte, Bowie é ao mesmo tempo gay e casado com a esposa. Eles têm um filho, Zowie.

David Bowie e a esposa chegaram a bordo do Queen Elizabeth II e pegaram o ônibus rumo a Cleveland. Bowie não gosta de voar, mas descobriu que gostava do ônibus Greyhound; frequentemente o cantor sentava sozinho nos fundos, escrevendo suas músicas ou observando a paisagem pela janela. Os primeiros shows tiveram reações dúbias da crítica. Alguns resenhistas pareceram desapontados por Bowie não ser uma espécie de Super Alice Cooper, uma rainha do rock gay e um degenerado elétrico o tempo todo. Uns poucos momentos no palco podem ter contentado essas almas – como quando Bowie se ajoelha e faz um tipo de sexo oral na guitarra de Mick Ronson – mas, no geral, todos eles tiveram que encarar: não houve ninguém desmunhecando no palco.

Assim, as avaliações variaram enormemente. A minha foi que Bowie é a figura mais forte a surgir no rock em anos. É um daqueles artistas que comandam com facilidade o olhar do público a cada movimento no palco. Em sua teatralidade controlada, sua habilidade de transmitir versos altamente comprimidos e na ansiedade constante que consegue fazer brotar na plateia, me lembra Bob Dylan. Ele absorveu Dylan, os Beatles, Elvis e mais meia dúzia de outros, mas o que emerge disso é substancialmente dele próprio.

O show tem todo um fator de espetáculo. Os Spiders from Mars usam trajes colados e luminescentes, cabelos tingidos e riffs precisos. Bowie não para de se mexer, fazendo poses reminiscentes de dúzias de outros roqueiros mais antigos e se comporta muito como um fantoche. Apesar de toda essa preparação, o show retém muito de espontaneidade em uma época em que os concertos da maior parte das grandes estrelas atuais parecem enlatados.

Bowie conseguiu fazer apresentações em Cleveland e Memphis antes de ser alcançado por uma gripe. Quando chegou ao Carnegie Hall, já estava com febre. A gripe havia progredido para um estágio desgastante quando visitei Bowie em seu quarto no Plaza alguns dias depois. Ele respondeu às perguntas como alguém gripado responderia. O olhar voltado para o vazio por um longo tempo, seguido de uma sequência preocupada de palavras. “Não sou um intelectual em hipótese nenhuma”, ele disse, fungando. “Fiquei muito preocupado quando vi algumas propagandas pré-turnê sobre mim nos Estados Unidos, que me citavam como fazendo parte de algum tipo de intelligentsia new wave. Também não sou primitivo. Me descreveria como um pensador tátil. Vou pegando as coisas... Sou uma pessoa fria. Uma pessoa muito fria. Tenho um impulso lírico, emocional forte e não sei bem de onde isso vem. Não tenho certeza se sou mesmo eu que transpareço nas músicas. Elas saem e eu as ouço depois e penso, bem, quem quer que tenha escrito isso tinha um sentimento muito forte quanto ao tema delas. Não consigo ter sentimentos assim tão fortes. Fico anestesiado. Me vejo andando por aí anestesiado. Sou meio que um homem de gelo.”

Psicologia à parte, Bowie falou sobre as dificuldades de mapear sua carreira como A Estrela dos Anos 70. “É muito difícil determinar que rumo esta nova era do rock vai tomar. Há definitivamente algum tipo de nova era surgindo... Há uma volta do espírito do entretenimento. Mas há também uma mistura de relevância social, é bem difícil determinar se os próximos artistas vão existir como figuras ainda maiores por causa do mérito como entretenimento ou se terão esse status grandioso por causa de algum tipo de valor social mais nobre.”


terça-feira, 9 de fevereiro de 2016

A deusa de um metro e cinquenta e cinco

Essa deusa de um metro e cinquenta e cinco
Que canta maravilhosamente bem
Está enclausurada num muro que criaram
Bem, há nela o suficiente para deixar-me alegre e louco
E eu fico louco em sua presença
Sou possuído por uma vontade de adorá-la e contemplá-la

Nela, sinto a pureza da vida
Ela é dócil
Essa deusa de um metro e cinquenta e cinco
Faz-me rir
E em sua presença
Esqueço que no mundo
Há barbáries e crueldades

Seus olhos de águia
Abençoáveis e admiráveis
Expressam suas inseguranças e medos e receios
Os idiotas cobiçam-na
E eu digo-lhe para afastar-se deles:

“Todo homem é gentil quando está afim de uma mulher”, pondero

Um rio de melancolia
Nasce no fundo de sua retina
Essa deusa de um metro e cinquenta e cinco
É a garota mais estonteante e sensível do universo

Em sua companhia sinto a pureza das coisas
Conto piadas
Só pra vê-la sorrir
Seu sorriso é delicado e leve
E equilibra o universo
Quando ela se entristece
Tenho uma insensata vontade de gritar:
“Ela é incrível, gente”

Essa deusa de um metro e cinquenta e cinco
Chama-se Letícia
E é sensacional

Marcus Vinícius Beck

sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Mais ou menos assim vivem os escritores

Mais ou menos assim vivem os escritores.

Porra. Sou escritor. Sou bêbado. Sou maconheiro. Sou corintiano. Sou uma porrada de coisas. Sou, na verdade, um cara. Sim, sou um cara do caralho. Eu larguei a merda da faculdade por achar que ninguém podia me ensinar nada lá, além de chavões acadêmicos. Literatura não se aprende com diploma teórico. Literatura se aprende na prática, na solidão, na loucura, na angústia, no medo, no sofrimento. E nem Letras, eu fazia. Fazia Jornalismo. Não foi uma escolha difícil, a da profissão. Sempre escrevi. Escrevo desde a infância, acho. Li Nietzsche aos 15, Baudelaire aos 16, Bukowski – especificamente Mulheres – aos 17. Aí, comecei a beber. Enchia a cara por falta do que fazer. Eu morava num condomínio enorme. Puta espaço pra lazer. Fumei muita maconha nos bancos, no bosque, nas garagens, fazendo um som. Trepei inúmeras vezes nesses mesmos bancos. Sinto saudades. Caroline, Agatha, Jéssica, Larissa, Luíza. Meus amores. Com vocês aprendi sobre a vida, sobre vocês – mulheres.

Cheguei em Goiânia há três anos. Comecei a estudar. Caí com a cara nos livros. E estudei pra caralho. Não saia, não bebia. Minha vida era monótona e apática. Todos tinham um lazer. Eu tinha a pressão do vestibular. Passei. E enchi a cara, ininterruptamente. Começaram as aulas, e eu segui a beber. No começo, era uma novidade. As pessoas. Os professores. As conversas. Depois, tudo me cansou. Comecei a perceber um conflito de ego nas rodas de conversa da PUC. Todos competiam pra saber quem tinha mais conhecimento. Eu os achava um bando de idiotas. Porra.. medir conhecimento é foda. É cúmulo da pobreza espiritual e intelectual.

Nesta época, arrumei um emprego num jornal. Uma colega de curso conseguiu a entrevista pra mim. Ela disse pros caras que eu tinha um bom texto, que eu era um puta jornalista – mesmo estando na faculdade ainda -, que era um tremendo desperdício eu não atuar. Bem, lá fui eu. Bolei um fino. Dei uns pegas. Aí, sim. Estava levemente chapado. Cheguei à recepção, apresentei-me e a moça pediu pra eu esperar. Sentei-me, e abri um exemplar do Diário do Cerrado.

Um cara se aproximou. Apertou-me as mãos. E falou pra subirmos.

Na redação, os jornalistas batiam ao computador numa velocidade frenética. O ritmo incessante do noticiário não dá trégua. O jornal tem de informar a sociedade. Porra, se pensar bem, jornalismo é uma profissão do caralho. Só meu pai, adora criticar minha escolha. Filha da puta. Nunca leu uma frase que escrevi, e fica me enchendo o saco. Dá raiva. Tenho, constantemente, vontade de mandá-lo à merda.

O editor me perguntou por que eu havia escolhido ser jornalista. Disse-lhe que por que adoro escrever. Ele arregalou a sobrancelha, e questionou:

- O que você gosta de escrever?

Meio fumado, fiquei pensando por alguns segundos, até responder:

- Tudo... até um romance curto já escrevi.

- Sério? – se surpreendeu o editor.

- Sim.

Seguimos a entrevista.

Então, ele me avisou de que eu teria de escrever um artigo pro jornal. Cheguei em casa, deitei em minha cama. Eu gosto das palavras. E elas simpatizam comigo. Retornei a minha casa, abri uma breja e fui escrever. Segui bebendo e escrevendo.

Aí, meu telefone tocou.

Era uma voz feminina:

- Alô – eu disse.

- E aí? – saudou a voz delicada e meiga, do outro lado da linha.

- De boa. E você?

- Bem.

Eu não fazia mínima ideia com quem falava.

- Seu idiota, cê não faz ideia de quem está falando, né?

- Não mesmo.

- Sempre do mesmo jeito, meu garotinho.

Quando ela pronunciou o vocativo, lembrei-me do seu rosto. Puta mulherão. Uma coroa sensacional. Bunda grande. Pernas de carne farta. Lábios beijáveis. Papo interessante.

- Exatamente como descreveu: do mesmo jeito.

- Escrevendo? Gosto do que escreve. É sobre a vida, sobre a existência.

- Obrigado – eu disse.

Continuamos a conversar. Ela me contou sobre sua vida, sobre seus medos e inseguranças. Disse-me que sua vida se tornou careta desde a minha partida. Caceta, bicho. Qualquer cara que receber essas palavras entra em colapso. É como um murro. Foda. Mas porra, Marcus. Quando há uma oportunidade decente, cê as dispensa. Diz que não consegue levar um relacionamento tradicional. Aí, elas entram e saem de sua vida. E você segue melancólico. E os outros andam com elas por aí, enquanto você anda com sua garrafa embaixo do braço. Sou artista. Sou foda. Eu escrevo, caralho. Escritor tem compromisso com a literatura. Compromisso com literatura? Cê chama isso que escreve de literatura? Um amontoado silábico, cheio de palavrões, criticando e ironizando Deus. Marcus, às vezes cê se comporta como um perfeito idiota.

Finalizei o texto.

“Tenho uma forte ligação com a contracultura. Descobri Satre – pai do existencialismo – e passei a acreditar que “estamos condenados a ser livres”. O francês iniciou sua carreira acadêmica nos anos 30, quando escrevera a A imaginação – um ensaio que transita entre Filosofia e Psicologia. “A imaginação é infinita”, afirma na obra. Nesta época – década de 30 – Satre era considerado alienado por não dar a mínima à política. Ele viva bêbado, quando estudante, junto de Simone de Beauvoir, sua esposa. O casal jamais constituíra uma família aos moldes da classe média. Satre viva a perambular de hotel em hotel, escrevendo ensaios, críticas, romances, teses, peças de teatro. Nenhum intelectual produziu quanto ele”, assim iniciava ele.

Dinheiro é uma merda, era o título.

Sou um existencialista, com um pé na contracultura, no ácido.

Mandei-o pro e-mail do editor. Alguns dias depois, ele me ligou e disse que eu estava contratado. O trabalho, a priori, era fácil. Ia pra rua, apurava a matéria, entrevistava fontes e redigia o texto.

Pela manhã, comia hambúrguer, fumava um e bebia uma breja. Era um café da manhã violento, e eu eventualmente chegava à redação pirado. Lá, participava da reunião de pauta. Lia os jornais. E saia pra rua. Depois, volta pra redação. Escrevia e ia pro Porcão, beber uma. Minha grana ia toda embora com breja, ácido e fumo.

- Desde que começou a trabalhar, a piração só aumentou, bicho – me disse Zeca.

- Pois é. Foda. Sabe como é, né?

- Meu, cê tem que parar. Cê pode morrer, seu idiota.

Morrer? Nunca vi, nem tive notícia de pessoas que morreram por causa de ácido. Se você encher a cara do bagulho, a única coisa que vai lhe acontecer é uma onda sem precedentes. Uma viajem muito maluca.

Na maioria das vezes, eu chegava em casa. Ligava um som. E caminhava pela casa, pelado. Marcus, seu babaca. Cê parou de escrever. E cê aí bate no peito e diz: “Sou artista”. Porra, artista que não escreve, que não pensa, que só bebe e toma ácido. Cê vive com essa tua filosofia aí. Cê vai se foder, cara. Se liga, bicho.

O telefone tocou.

- Pronto?

- Ou, cê vai fazer o que hoje, cara?

- Sei lá, Zeca. Acho que vou ficar em casa. Tenho que terminar uma matéria.

- Porra... que viadinho.

Zeca deu uma forte gargalhada.

- Vá se foder.

- Sério, brother. Sabe a Fernanda?

- Sei, pô. É a mulher do Carlos.

- Exato.

- E o que tem ela?

- Vai tá lá.

- Bem, foda-se... vamo lá, cara.

- Esse é o Marcus que eu conheço.

Desliguei o telefone. Liguei um Doors nas alturas.

Zeca, seu filha da puta.

Sou Jim Morrison. Sou Bukowski. Sou Henry Miller. Sou foda, porra.

Entrei em meu velho Passat. O carro tava fudido. Dava vergonha de andar nele, mas era bem melhor do que depender do transporte público. Cheguei na casa do Zeca. Ele já estava na porta. Entrou no carro, e tirou um. Insinuei que o baseado podia passar entre os dentes, de tão fino. Zeca me mandou tomar no cu.

- A mulher do Carlos é gostosa demais, puta que pariu! – exclamei.

- Ela é a rainha dos meus sonhos.

- Amor de nossas vidas – completei.

Fernanda era deslumbrante. Tinha um metro e setenta. Olhos castanhos. Cabelo ruivo. Lábios loucamente sexuais. Eu os olhava e ficava pensando como seria o boquete dela. Ela deveria ser competente na arte de chupar.

Ao chegarmos, Zeca esticou uma carreira. Deu um tiro. E deixou uma linha pra mim. Eu não cheirava, portanto lhe disse pra guardar o bagulho. Hotel California tocava no fundo. Ambos estávamos mais uma vez chapados. Zeca podia ser considerado o guru da loucura. Não deu certo na escola, nem no trabalho. Ele não gosta de coisas responsáveis. Zeca gosta de viver à beira do abismo. A loucura é o seu tesão.

Descemos do carro. Eu segurava minha latinha de breja. Zeca fumava seu Marlboro. Cumprimentamos a galera.

Light my fire começou a tocar.

Imediatamente, olhei pra Fernanda. Ela estava maravilhosa. Talvez mais que o normal. Bem, Fernanda é sensacional de qualquer jeito. Seu vestido lhe realçava a beleza, moldava seu corpo sinuoso. Fernanda estava pra matar.

- Porra – ladrou Zeca -. A Fernanda tá gostosa de demais.

- Puta que pariu.

Pensei num crônica. “Ruivas são demais”. Esse seria o título. Só preciso escrevê-la. Eu podia voltar pra literatura, aí. Marcus, cê deveria ter ficado em casa. Mas se eu ficasse em casa, a ideia não iria vir. E tudo iria continuar a mesma merda. Bloqueio do caralho.

Fernanda se dirigiu até mim. Deu-me, gentilmente, um beijo no rosto. A gente já se conhecia. Ela fazia faculdade comigo. Éramos da mesma turma. Aí, ela arrumou um namorado babaca, com cara de menino criado por vó.  Era certo demais. Bebia controladamente. Lia Stephen King. Achava Cinquenta tons de cinza um livro erótico. E Indie coisa de macho. O cara é ou não um mané, porra?

Acendi um cigarro. Fernanda também. Então, fiz-lhe um elogio:

- Cê tá estonteante.

- Obrigada, gatinho.

Refleti por alguns instantes, e emendei:

- Pô, a vida é curta demais. Então, foda-se: cê equilibra o mundo, com teu estilo. Quando olho pros 
teus lábios, sou tomado por uma louca vontade de te beijar.

- Gracinha – respondeu ela.

Beijei-a violentamente. Falei sacanagens no ouvido dela. E ela me deixou de pau duro. Eu esfregava meu cacete nela, que dizia em meu ouvido “aqui não, meu bem”. E eu me controlei, mas foi difícil.

Fernanda irradiava sexo.


It´s my life. 

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Puta que pariu

Cacete. Tenho uma hora pra terminar esse roteiro do João. Da última vez que eu lhe falei pra esticar o prazo, ele quase me matou. Se eu atrasar dessa vez, cabeças vão rolar. Merda. Sou artista. Não nasci pra escrever esses roteiros. Nasci pra criar. Há alguns anos, eu tinha o sonho de escrever o livro, o filme, a peça de teatro. Ironia... não fiz porra nenhuma. Anos depois, fui parar no pornô, com garotas desfilando suas xoxotas pelo set de filmagem. Antes a coisa era diferente. As mulheres tinham pentelho lá embaixo, os filmes não eram tão pesados e todo mundo fodia com todo mundo. O pessoal no estúdio passava a mão na xana delas antes das filmagens e durante as filmagens. Nunca escrevi nada tão complicado como roteiro de putaria. Eram três frases, e uns gemidos. Tudo pra intensificar o negócio. E fazer meia dúzia de virjões tocar punheta na sala de casa, enquanto os pais dormem. Isso se chama sobrevivência. Tudo pra garantir a breja, o fumo e o ácido do final de semana.

Tempo depois, livrei-me do pornô. Fiquei em casa, cultivando o ócio e a preguiça. Li de tudo. Ouvi de tudo. Comi minha vizinha incontáveis vezes, de múltiplos modos. Até enjoei da buceta dela. Chupei-a de todo que é jeito. Comi de quatro, de ladinho, apoiado na mesa. Após gozar, bolava aquela trave e fumava. Chapado, queria uma breja pra rebater a foda. E pensar melhor. Artista. Porra nenhuma. Sou um bêbado filha da puta que tem medo de arrumar um emprego digno. Fico arranjando desculpas pro meu fracasso, pra minha derrota, pro meu desespero, pra minha angústia. Vou morrer sozinho. E pobre. No máximo meia-dúzia de putas irão entoar meu nome, no cortejo.

Ouço um barulho na porta. Vou até lá, abro e dou de cara com uma garota:

- E aí? – diz ela.

- Opa – falo.

- Ouvi um som vindo do teu apartamento.

Era de minha máquina de escrever.

- Pois é. Eu estava escrevendo.

Ficamos nos olhando por alguns instantes. Sugeri:

- Quer beber uma breja?

- Sei lá – sussurrou, fazendo-se de difícil. – Estou de boa, acho.

- Certeza?

Ela entrou.

Abri a minha. Dei uma bebericada. Acendi um cigarro. Quando estava na segunda tragada, perguntei se ela se importava com a fumaça. “Porra nenhuma”, disse ela. “De boa”.

Levantei-me e fui colocar um som.

- Joplin ou Doors? – perguntei.

- Doors – respondeu ela.

- Morrison era o cara – eu disse.

- Voz maravilhosa. Poeta. Gênio.

- Eu acho que ele não era músico.

- Era poeta, né.

- Aham.

Caminhei até meus discos. Eu ainda ouvia disco. Talvez eu fosse o único cara no planeta que cultivasse o hábito de apreciar o bom e velho rock and roll em vinil. Foda-se. A música se tornou muito artificial. Basta um clique na internet pra se ter toda a discografia do Floyd, ou toda a bibliografia do velho safado. Tudo bem, o acesso aos produtos culturais foram democratizados e tal, mas a era analógica me parece mais atrativa. Acredito que as pessoas passaram a ser mais preguiçosas depois da internet. Ou mais idiotas. Não sei bem ao certo. Contudo, parece-me que elas estão mais preocupadas com a foto que irão postar no instragram, do que com a breja. Se saem pra beber, tiram fotos. Aí, recebem curtidas de pessoas que nunca, sequer, lhes falaram uma palavra na vida. Todos são internautas da vida alheia, no século XXI. As mulheres são xavecadas por WhatSapp. E toda uma geração não sabe como deixá-las molhadinhas. Eles falam. E falam. E contam vantagem pra porra nenhuma acontecer. Então, abrem o google, vão ao Red Tube ou Xvideos e batem uma punheta. Putaria solta, que nenhum cérebro consegue medir.

Aqui estou eu. Quarenta anos. Formado há quinze. Bêbado, covarde, barrigudo, fumado, cheirado. Sou uma junção de loucuras e insanidades. Pratico o ócio meditativo todos os dia, por escolha. Os gregos o praticavam também. Inclusive, para ocupar um cargo de governante, em Atenas, era necessário que você fosse ocioso. Acho que nada pode ser mais enriquecedor do que a vagabundagem. Ser vagabundo é renunciar toda uma ordem que lhe foi imposta. É colocar o pau na mesa, e falar “porra, não quero saber disso, porque eu penso assim e negócio é assado”. Meu pau.  Já o enfiei em garotas perturbadoras. Gordas e magras. Drogadas e bêbadas. Malucas, desvairadas, insanas. Era difícil saber quem era o mais pirado. Eu ou elas? Provavelmente eu. Algumas se tornaram grandes amigas, como Flávia. Outras quase me mataram, como Jéssica. Ouve alguns telefonemas, de madrugada, que me fizeram refletir sobre a vida. Foram alguns dias sem conseguir fechar o olho, de medo. Medo de morrer. Medo de, sei lá... qualquer coisa. Você não sabe explicar o medo. Você o  sente e luta contra ele. Porque ele ainda irá continuar ali. Às vezes, o medo fica repelido no fundo da inconsciência. Freud dizia que a inconsciência é a parte onde nossos medos e desejos e fantasias ficam trancados. Cara maluco, esse tal de Sigmund Freud, bicho.

De repente, uma puta vontade de beijar a garota, que está em minha frente, me tomou.

- Cara – disse ela. – Como é o teu nome?

- Pedro. E o teu?

- Paula.

Fiquei parado. Bebendo e fumando. Porra, cara, cê é um merda mesmo. Não consegue largar o cigarro nem a pau. Fuma, fuma, fuma. E quando vê, já gastou todo seu dinheiro. Paula me pediu uma breja. Fui até a geladeira. Peguei uma pra mim, outra pra ela. Brindamos e bebermos.

- Cê já ouviu falar que tem aquele negócio de que se não brindar a breja, é sete anos sem trepar, né? – ladrei.

- Como é que é?

- Se não brindar, é sete anos sem trepar.

- Porra, que bosta.

- Foda, né?

- Ainda bem que brindamos.

- Acho que devemos brindar de novo.

Bridamos mais uma vez. Agora rolou um clima. Não é possível. Ela vem até aqui. Entra, senta, pede pra eu ligar o som. Diz que não bebe, depois aceita uma breja. Vai entender essas jovens. Paula não era nem estonteante, nem horripilante. Tinha seus atributos. Era boa de conversa. Gostava de Doors, Hendrix, Floyd, Zeppelin. Descobri que ela era poetisa. Artista. Mente libertária, preparada pro ócio. Pro pensamento. Pra critica. Caralho. Paula era demais, constatei. Eu tinha idade pra ser pai dela. Vinte anos mais nova. Bucetinha apertada, linda, maravilhosa. “Verdadeiro esconderijo”, pensei.

A gente foi se achegando. Foi inevitável. Beijamo-nos. Senti sua boca molhadinha, seu cheiro de rainha da foda, seu cabelo deslizando sobre minha camisa, sobre minha cara. Pedro, seu imbecil. Não vá se esquecer da merda do roteiro. Cara, eu sei que esse negócio de escrita forçada não é tua praia. Você é artista. Você vive e age como um.  João vai te matar, seu débil mental, se você não escrevê-lo. “João, não consegui terminar o roteiro. Foi mal”, não vai colar. Se prepare. Ou melhor, escreva de uma vez. Ao invés de você passar o papo em mais uma gostosinha, você deveria sentar a tua bunda na máquina de escrever e escrever a porra do roteiro. Tão te pagando bem pra isso. E nada. Você prefere tomar ácido, cheirar cocaína e encher a cara, né?

Filha da puta.

Bolei um fino. Paula deu uns pegas. E fodemos. Ela tirou meu pau pra fora, e pagou um boquete sublime, sensacional, esplendido. Do caralho, literalmente. Após a copulação, ela foi embora. Enfim, sentei em minha máquina. Coloquei a folha, e bati a primeira frase. Saiu. Tá vendo, cara. É simples. Escrever esse curta é sossegado. Você o faz pra poder viver, lembrou? Tua vocação é a literatura. Acho que nunca escreveu um livro por que sempre ficou escrevendo peças e roteiros inúteis. Mas o que é que tem? Henry Miller começou a escrever aos 40. Primeiro ele viveu. Depois, escreveu. Rimbaud fez o contrário. Primeiro ele escreveu. Depois, viveu. Foi à África. Caceta, tô me sentindo um Stephen King. Escrevendo lixo pra viver. O desgraçado do publicitário que me pediu o curta deve tá transado com uma belezinha por aí. E eu aqui... fervendo meus neurônios, andando com um Puma 1978 há três anos. O carro já tá todo fudido. Motor saindo fumaça. Outro dia, Pedro, cê parou num sinaleiro e quem disse que o carro ia funcionar. Uma bela de uma merda, bicho. Cê sabe. Todos ficaram te olhando. Certeza que naquele dia cê sentiu vergonha de ser pobre.

O telefone tocou. Era Flávia:

- Alô – eu disse.

- Olá – respondeu ela.

- Como vai?

- Tô escrevendo um roteiro de merda.

- ahahahaha – ela riu. – Mais um desses trabalhos pra poder viver?

- É, né – falei. – Fazer o quê?

- Seguinte: eu queria te convidar pra beber uma, dar uns tiros, fumar um.

- Quando?

- Amanhã. Vou deixar cê terminar esse roteiro.

Gargalhamos.

Escrevi umas quinze páginas. Até que não ficaram tão ruins. Claro, não é nem de longe seu melhor trabalho, Pedro. Só que pra quem enfrentou um bloqueio criativo, tá ótimo. Melhor impossível. Agora, vá dormir. Amanhã, reunião. Dá última vez, cê tava chapado. Não conseguia formular uma frase. Dava risada à toa. Mordia a cara. Parecia um maluco que fugira do manicômio. Ginsberg ficaria feliz, ao ver aquela cena. Sempre vou, às reuniões, levemente fumado pra poder segurar a onda. E pra, também, conseguir ter paciência com o cliente. Eles sempre me acusaram de ser rude. Então, dou uns pegas e vou zen. Quando a maconha é boa, basta umas três bolas pra relaxar. Todos lá estavam prontos. Vestiam terno e gravata. Eu estava de all star, um blazer preto e uma camisa desbotoada, com os dois últimos botões e uma calça jeans surrada. Sentei-me e joguei na mesa o roteiro. João deu uma lida. Olhou pro diretor de marketing, que olhou pra gestora, que olhou pra mim com uma cara de bosta.

Foda-se. “Meu trabalho tá feito”, pensei.

É, teu trabalho tá feito, mesmo. Agora fique tranquilo, dê uma risada, converse com as pessoas como se fosse um cara normal. Pedro, cê é um cara normal. Às vezes cê dá uma rata, mas é normal. Qual maconheiro que não dá rata? Não existe.

Apertei a mão da galera. Eles estavam satisfeitos. João deu uma lida no roteiro. Gostou. Melhor fazer publicidade, do que pornô. Cê teve a oportunidade de mudar de ramo, porém não quis. Batia no peito, e dizia “sou diferente, sou artista”. Tá vendo. Eles com grana, e você contando-a.

Puta que pariu!